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Capa do romance Vendendo a virgindade

Vendendo a virgindade

Pela necessidade financeira de sua família, uma jovem aceita a proposta de vender sua virgindade por cem mil reais ao enigmático Sr. Lamarphe. Levada da Zona Norte a uma mansão luxuosa na Zona Sul de São Paulo, ela se surpreende ao encontrar um homem atraente com sotaque italiano, longe do estereótipo que imaginava. Entre o nervosismo e a imponente presença de seu cliente, ela enfrenta a realidade de um acordo que mudará sua vida para sempre naquele cenário de vidro.
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Capítulo 2

Dia após dia, há dois anos, eu preciso provar que estou apto novamente a exercer minha profissão e raramente me colocam para fazer os procedimentos. Posso orientar a equipe, fazer observações, dar instruções, mas nunca me deixam atuar sem que uma equipe gigantesca esteja preparada ao meu redor, como se eu fosse cometer um deslize a qualquer momento.

E pensar que um dia fui o nome mais forte para ser o CEO desse lugar…

Mas dessa vez eu não pude esperar pela assistência médica, só contei com a ajuda da equipe de enfermeiros. A pressão da paciente caiu, ela chegou a apresentar convulsões, tomei a frente e mandei que preparassem tudo o mais rápido possível, senão a perderíamos.

Toda vez que estou à trabalho no centro cirúrgico, uso uma cadeira de rodas diferenciada: mais alta e que me dá melhor mobilidade, já que as camas e macas do hospital podem ser bem altas e não estarem devidamente

adaptadas para um funcionário que é PcD[3], como eu.

— Bom dia — digo assim que a porta do elevador abre.

Os dois homens me olham com desdém e não dão muita importância para a minha presença, não sei se é porque estou sem jaleco ou somente porque pareço um paciente de cadeira de rodas – mesmo com pijama cirúrgico.

Aperto o botão para o penúltimo andar e fito a abertura metálica se fechar e imediatamente abrir no andar acima.

— Lamarphe, seu puto! — Ayslan, também conhecido como “O Viking”, também conhecido como o desgraçado do meu melhor amigo, vem em minha direção e me dá um soco forte no peito.

— Bom dia, doutor — os outros dois dizem sincronizados e dão espaço para o cabeludo se posicionar ao meu lado. Ele os ignora, no máximo dá um aceno de cabeça.

Existe uma hierarquia silenciosa em todo lugar – não seria diferente em um hospital de elite. Os “de baixo”, tratam os “de cima” com respeito e submissão. O Viking sempre teve esse efeito sobre os outros, desde quando éramos residentes aqui. Eu também, afinal de contas, um homem de 1,90 em um jaleco não passa despercebido.

Bem... até passa... se estiver de cadeira de rodas...

— Qual foi a emergência que te colocou na linha de frente? — Ayslan

aperta meu ombro. — Parabéns, cara! Quebrando regras e salvando vidas. Esse é o meu herói.

— Algum desses incompetentes deixou um alicate dentro de uma paciente e a fechou — Informo e o vejo deslizar a mão direita pela barba, tão chocado quanto eu. — Se não a tivesse reaberto e agido logo...

— Estou surpreso de que ela não tenha vindo a óbito. Já descobriu quem fez tamanha cagada?

— Não. O pessoal da administração está investigando, de repente atas e registros sumiram...

— Que conveniente... Isso aí vai dar uma justa causa para o

descabeçado e uma dor de cabeça para o hospital.

Os dois que estavam na frente saem primeiro, o elevador segue até seu destino final. Assim que abre, Ayslan me leva para fora e me empurra com toda a velocidade que consegue, atravessamos o corredor em questão de segundos e eu me agarro com todas as forças a cadeira.

— Você tem quantos anos, cara? — reclamo quando paramos no hall da Vice-presidência.

— Só para te deixar esperto e dar uma emoçãozinha nessa sua vida pacata — ele ri como um moleque e me empurra até o balcão elevado da secretária, preciso esticar o meu pescoço para enxergá-la sentada detrás dele,

de tão alto. — Doutor Lamarphe se apresentando! — Ayslan diz.

A mulher se levanta, apoia as mãos na madeira escura e espia como se eu fosse um anão.

Não sei porque ainda me impressiono por parecer um intruso aqui.

Este hospital, como a maioria dos lugares, não foi preparado para receber um funcionário que é pessoa com deficiência.

E provavelmente eles achavam que me venceriam pelo cansaço e me fariam desistir, pedir para voltar a ser docente em tempo integral, quem sabe uma aposentadoria ou ficar o dia inteiro em uma sala confortável gerenciando papelada...

Não.

Meu trabalho é a única coisa que me mantém vivo, o fio que segura minha sanidade. Não dediquei mais de uma década de estudo, prática e tormentas para sucumbir a qualquer dificuldade. Eles vão me vencer pelo cansaço? Não se eu puder vencê-los pela insistência.

— Pode entrar, doutor Lamarphe. O vice presidente está à sua espera

— a secretária informa.

Antes que eu agradeça ou deseje um bom dia, o Viking volta a controlar para onde vou e me empurra até a entrada, abre a passagem e me joga ante a longa mesa do meu tio e padrinho, Alfredo Lamarphe.

— Guido! — Vejo-o abrir os braços e vir até mim. Me cumprimenta com demora e me faz questionar se fui convocado aqui para tomar um café ou receber uma repreensão sobre meu ato deliberado há pouco.

— Enfim, acharam motivo para me demitir? — Encurto logo o assunto e vou direto ao ponto.

— Do que está falando?

— Sobre a cirurgia de emergência que precisei fazer por um erro da sua chefe de cirurgia — relato.

— Bobagem — o velho minimiza. — Aliás, parabéns, ouvi dizer que foi uma bela operação. Você sempre foi um rebelde com causa, não esperava menos de você.

— Grazie![4] — Semicerro os olhos, ainda sem entender o que estou fazendo aqui então, já que não serei advertido.

— Prego[5]. Meu velho Viking, aceita um whisky?

— Agora não, ainda tenho trabalho pelo resto do dia — ele agradece com a mão. — Tem gente esperando para ter a virgindade de volta lá embaixo e eu só vim porque você me bipou.

Ah, ele está aqui porque foi chamado também? Pensei que só queria me infernizar.

— E a doutora Han? — Meu tio olha para nós dois e por fim percebe que falta alguém.

— Teve uma emergência também — Ayslan informa.

— Muito bem, então direi a vocês dois... — o homem diz orgulhoso, caminha até a janela de cortinas escancaradas de um azul marinho elegante e sofisticado, como tudo o que representa sua vida.

Consigo ouvir o rufar de tambores ao fundo e a expressão dele, quando se vira para nós, é um misto de alívio e decepção.

— Eu vou morrer.

O silêncio que se segue é um tanto agridoce, para não dizer esquisito.

Aguardo que ele prossiga e diga o restante, mas tudo o que faz é comprimir o lábio em um sorriso contido. Não sei se espera que digamos algo... Na dúvida, tento ser analítico:

— Todos nós vamos morrer um dia. Todo ser humano tem duas coisas em comum: nasceu e vai morrer, faz parte do ciclo da vida.

— Já há algum tempo, em um exame de rotina, o meu médico descobriu que eu estava com um tumor maligno.

Engulo em seco e para tentar abrandar a raiva, aperto o apoio de mão da cadeira com muita força.

A família é muito grande, mas a única pessoa com quem sempre tive real proximidade foi o meu padrinho. Foi ele quem insistiu que eu deixasse a Itália e viesse para o Brasil, ser seu braço direito. Ele me ajudou e me apoiou em todos os momentos, ainda mais após o meu acidente.

Não consigo acreditar no que estou ouvindo… Sinto um misto de raiva e um embargo na garganta.

A vontade é de sair daqui agora mesmo, certamente faria isso se pudesse… se Ayslan não estivesse segurando minha cadeira.

— Não havia muitas opções... E eu estava atarefado cuidando de algumas coisas... — Sua voz sai tão macia e despreocupada que me deixa nervoso.

— Estava ocupado demais para cuidar da saúde? Che cazzo![6] Como que não detectaram isso antes? De quanto em quanto tempo são esses seus exames de rotina? — me altero.

—... O importante é que tenho algum tempo de vida... — Ele ignora completamente o que eu digo.

— Quanto tempo? — Ayslan até se senta, cruza as pernas e apoia o cotovelo na de cima.

— Algumas semanas... dias... Possivelmente...

— E você joga essa bomba assim? No nosso colo? Vai morrer em alguns dias? Você tem noção do que está dizendo?

É estranha a sensação que um médico que estudou a vida inteira para salvar vidas sente, ao ouvir ou saber que não pode salvar uma. Ainda mais uma tão próxima e conectada à sua própria vida... Já passei por isso uma vez no passado... E estou revivendo esse sentimento em uma montanha russa de emoções agora.

— Mas nunca é tarde demais para algumas coisas... — ele suspira. — Então eu vou me casar e vou revelar o meu testamento. E vocês dois, assim como a doutora Han, estão nele. Então... Compareçam...

— Casar? — A voz sai até embargada ao dizer a palavra. — Será que o senhor tem noção do que acabou de nos dizer? Será que percebe o quão relapso e descuidado foi consigo mesmo e agora só diz que quer... Casar?!

— É a vontade dele, Guilhermo — Meu amigo tenta me abrandar. — O que podemos fazer por você, senhor Lamarphe? — Ele até o trata com formalidade agora.

— Quero que estejam em meu casamento. E escutem as minhas últimas vontades... Informem a Han, por favor. Lembrem-se, eu não tenho muito tempo...

De repente tudo volta outra vez.

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