
Vendendo a virgindade
Capítulo 3
A negação, a raiva e a sensação de perder o controle, sem ao menos sair do lugar.
— Se me dão licença, eu tenho trabalho a fazer até encerrar o meu plantão. — Manobro para dar meia volta.
— Você deveria considerar se casar um dia, Guilhermo — a voz do meu padrinho me deixa imobilizado mais uma vez. — Nunca é tarde para o amor.
Não sei quantas conversas tivemos nos últimos anos. Mas a minha posição nunca mudou e eu permaneço incisivo.
Antes de me casar eu sempre fui mulherengo. Sempre gostei de me aventurar, sair com quantas mulheres fosse possível e viver no limite.
Agora tenho outros desafios, e o mais importante:
— Eu não acredito no amor. — Viro-me sutilmente para encará-lo. — Eu não tenho tempo para trivialidades. Não preciso de um sentimento estúpido para perseguir ou dar razão à minha vida...
— Lá vai ele... — Ayslan se diverte.
— Eu já amei, uma vez. E isso me foi arrancado, junto com o meu bem mais precioso, assim como minha capacidade de andar e ser reconhecido como o melhor cirurgião desse hospital. Non parlarmi dell'amore[7], tio
Lamarphe. Já não sou adolescente há muito tempo.
Aguardo alguns segundos para dar direito à réplica. Como ela não vem, dou o assunto por encerrado e dou meia volta para seguir o meu caminho.
Tenho ocupações reais para me preocupar.
“Aquilo que está escrito no coração, não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama, fica eterno”.
— Rubem Alves.
— Ninguém vai te tratar melhor do que um homem tentando te comer.
Patrícia Sanches, minha melhor amiga, irrompe da meia luz da sala toda bagunçada, com calças jeans e vestidos por cima do sofá, mesa e vaso de petúnias, para me dizer isso.
Não consigo segurar o suspiro de lamento.
Noite passada, quero dizer, há poucas horas, estive em mais um desses encontros furados com um desses caras de aplicativo de namoro. A lembrança embrulha meu estômago, evito pensar sobre isso e me concentro nas malas vazias e as roupas espalhadas.
Santo Deus, que bagunça...
... a minha vida.
A casa acho que tem jeito.
— Esse pelo menos queria te comer, não é? — Ela estica o pescoço para me encarar, enrola as camisas e trajes de banho de qualquer jeito e arremessa na bagagem.
— A maioria deles sempre quer. — Estalo a língua e dedilho a capa transparente que guarda um vestido branco. — E caem fora logo em seguida quando descobrem que eu tenho um filho pequeno.
A expressão azeda que a minha amiga faz, me diverte. Jogo a cabeça para trás e rio em silêncio, ou não sei se choro para expulsar toda essa frustração.
Para ser sincera, eu gostaria muito de que essa primeira excitação da descoberta de um novo amor nunca se perdesse.
Adoro aquele frio na espinha do primeiro contato com alguém estranho... o rosto enrijecido e as mãos suadas ao ver, enfim, o rosto da pessoa ao vivo e em cores, depois de ter imaginado e descartado o photoshop e facetune que colocam...
E, é claro, se tudo isso for coroado com um vinho que esquenta o coração e me faz rir fácil, enquanto descobrimos os interesses um do outro... isso se torna o match perfeito.
O meu interesse é conhecer alguém que valha à pena e viver tudo o que temos direito.
Já o interesse da maioria deles é... foder e fugir.
Eu não reclamo. Gosto também.
Flertar me diverte muito, todas as vezes que saio com um homem, parece que aprendo mais sobre mim mesma do que sobre eles. E eu simplesmente sou fascinada pelos malabarismos que fazem para tentar chegar em minha calcinha e a arrancar.
Eles são bem criativos nessa parte.
Nas cinco primeiras saídas foi legal. Eu podia ter sido desovada em um matagal? Sim. Poderia estar sem o fígado e um dos rins? É uma
possibilidade. Traficada para a Turquia? Acho que já cheguei bem perto disso.
Nas outras dez, parecia que eu conhecia o roteiro muito bem: qual o seu nome? Qual o seu telefone? Onde você mora?
Nunca sei se estou me inscrevendo para aquele programa do governo “Minha foda, minha vida” ou só dando meus dados para que alguém faça um cartão da Riachuelo...
— Yasmin, para de suspirar e se concentra! Coloca logo esse vestido de noiva na mala, nosso voo é em três horas! — Patrícia reclama, passa por mim na cozinha e pega uma maçã.
O início do outono em São Paulo trouxe aqueles dias bipolares onde frio e calor disputam território no relógio. Agora estou de moletom preto por cima do macacão vermelho que usei para sair em mais um desses encontros falidos... daqui algumas horas provavelmente vou querer ficar só de sutiã, derretendo de calor.
Mas sabe o que nunca vou usar de verdade, faça chuva ou faça sol?
Seja frio ou calor? Um vestido de noiva.
Suspiro ao pegar a peça de alta costura, tão alva e perfumada que reflete pureza. Confiro o busto ornado com pérolas e cristais, a cintura tão fina e delicada, e a parte inferior que se alonga em um volume que reflete
luxo e poder. Ajeito o véu diante do meu rosto e vejo toda a cozinha turva, o calor da minha respiração volta contra minhas bochechas.
Cada vez que saio com um babaca vejo que estou longe de colocar o véu e subir no altar.
Papai era costureiro da elite paulista há trinta anos. Trabalhou para grandes estilistas, produziu lindos vestidos de noiva, ternos para CEO’s e grandes empresários, todo tipo de indumentária luxuosa era sua especialidade. Há quatro anos, ele abriu o seu próprio ateliê e viveu toda a fama que merecia, após viver na sombra de estilistas que roubavam seu trabalho e que nunca lhe davam os devidos créditos.
Ano passado ele faleceu.
Acho que foi nesse momento em que de fato virei adulta, aos 23 anos, pois precisei tomar as rédeas da situação e me tornei arrimo da família. Mamãe caiu em uma depressão profunda e raramente sai da cama, Diogo, o meu irmão mais novo, agora chega tarde em casa, sempre bêbado e gritando comigo e eu me sinto culpada por ver os negócios da família indo por água abaixo.
As coisas estavam indo bem... papai parecia saudável e estava feliz por trabalhar junto comigo no ateliê e me ensinar seu ofício, que sua mãe lhe ensinou... agora não sobrou mais nada, além de dívidas e algumas peças
raras que ele nunca expôs ao público.
Como resultado disso, tive de engolir todo o meu orgulho e esquecer os meus sonhos, para ser o suporte da família, que está em pedaços. Não posso permitir que tudo se desmanche assim, não sem lutar.
— Ainda não colocou esse vestido na mala, menina? — Patrícia põe a mão na cintura e bate o pé. O suspiro parece alto demais, devido ao silêncio da casa.
— Estou tentando dizer adeus... — digo baixinho e sorrio para a peça de roupa. — Papai costurou essa peça originalmente para a filha de uma grande empresária daqui de São Paulo, mas no fim ficou tão bonito, que ele disse: vou guardar para você...
— E é justamente esse vestido que você vai vender para a Heloísa? — Ela se aproxima e observa.
— Foi o que ela escolheu. — Balanço os ombros. — E, afinal de contas, eu nunca vou me casar...
— Yasmin... — Patrícia semicerra os olhos e me lança um olhar de desafio e denúncia de minha dramaticidade. — Pega outro, vai... A Helô não vai nem reparar...
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