
Um Casamento de Bilhões
Capítulo 3
*Essan*
"O que acabou de acontecer?", me perguntei, enquanto a via dar as costas para mim e ir embora, como se nada demais tivesse acontecido. Nesses anos todos que moro na América, eu até cruzei com muitos de nossa tradição que são menos radicais, entretanto o sotaque dela era muito específico. Ela só podia ter vindo da mesma região que eu! Quem era ela? Deu-me uma vontade de segui-la, porém eu já havia falhado no primeiro ponto prometido a Charlize: havia transado no local de trabalho. Se eu a seguisse, abriria terreno para me envolver e tudo que eu não precisava naquele momento era ser cativado por uma mulher com quem transei num clube.
Voltei para o hotel. Tirei minha camisa e a levei às narinas: ela havia deixado seu perfume doce misturado a suor em minha roupa. Eu gostei daquele aroma e senti meu membro atiçar-se só com a lembrança de suas ancas subindo e descendo em meu colo. Eu não ia conseguir dormir, então peguei meu notebook para revisar os documentos da compra do clube, redigindo os novos pontos que decidi serem justos após minha visita.
Dormi pouquíssimas horas, o que me fez acordar de péssimo humor. Pedi café da manhã no quarto e só quando desci para me dirigir ao escritório, onde haveria a negociação de compra, deparei-me com Charlize.
— Sem “bom dia, velha!”? Tenho o pressentimento de que hoje será um longo dia...
Não respondi e entrei no carro antes dela. Não ter tudo sob controle me tirava o pouco de paciência; e não saber nada sobre aquela mulher me deixava impotente. Olhava pela janela, sem fixar meus olhos em nada, contudo Charlize decidiu não me deixar quieto.
— Essan — ela era uma das poucas pessoas a me chamar assim, pelo meu primeiro nome —, se aconteceu algo, eu preciso saber...
— Aconteceu! — disparei, como se estivesse jogando as palavras na cara dela. — Encontrei uma mulher do meu povo! Do meu povo, Charlize! Transamos...
— Recomponha-se! O senhor parece transtornado por conta de uma noite de sexo? Ah, não, eu conheço essa cara. Não foi apenas sexo, não é?
— Não estou apaixonado, se é isto que você está insinuando! Estou intrigado! Você sabe como as mulheres de nossa tradição são educadas e vigiadas! O que uma estava fazendo num clube de sexo?
— Talvez a família dela more fora do teu país há anos! Talvez não sigam tão à risca...
— Impossível! — a cortei. — O sotaque dela era muito forte! Ela não nasceu aqui, nem mesmo veio criança... Eu preciso...
— O senhor não precisa nada — agora ela quem me cortou, pondo a mão por cima da minha —, a não ser se focar nas negociações que estão por vir!
Apesar da sua ousadia de me interromper, ela estava certa. Então direcionei nossa conversa ao que havia experimentado no clube e os pontos que podíamos usar na negociação.
∞∞∞
*Sammy*
Era um fim de tarde frio, naquele começo de outono. Eu olhava aviões decolando, sempre ficava um pouco tensa antes de embarcar.
— Ai, amiga, que mundo louco! — Nanda puxou a conversa.
— O quê?
— Você passar quatro anos morando aqui e, no último dia, se deparar com um homem que deve ter vindo da mesma região que você! E ainda mais naquelas condições... — ela não completou a frase, dando uma gargalhada, levando sua cabeça para trás. Ela sempre era muito espontânea.
— Ah, nem estou pensando nisso! Estou pensando se meus livros e meus computadores chegarão bem no novo apartamento!
— Sammy, você tem o backup em pelo menos três locais diferentes! Nada da tua pesquisa vai se perder, hã?
— Nanda, na verdade estou com medo. Não terei mais você e Lara o tempo todo!
— Ô, vem cá! — foi puxando minha cabeça para seu ombro. — Você veio do outro lado do mundo quatro anos atrás! Agora estaremos a meia hora de avião! Vamos poder nos ver "quase" sempre!
Nos abraçamos, até que ouvimos um grito:
— Suas vadias, vocês começaram a chorar sem mim?
Não só nós duas, assim como todo o aeroporto olhou para Lara, que vinha correndo em nossa direção, juntando-se a nosso abraço.
— Meu chefe quase não me deixa sair, aquele filho de uma... Que bom cheguei a tempo!
Ficamos abraçadas, com Lara chorando até ouvirmos o aviso de meu embarque. Peguei as mãos de ambas, beijando-as. Puxei minha mala de rodinhas e não arrisquei olhar para trás. Talvez eu não tivesse coragem de prosseguir.
∞∞∞
*Essan*
As negociações não estavam boas. O responsável por representar o dono do clube não tinha autorização para baixar o preço sob nenhuma proposta. Eu odiava esses empresários que mandam outros resolver esses trâmites — eu fazia questão de estar em todos os compromissos. Charlize e o analista financeiro, que nos acompanhava, gastaram toda a saliva em vão. Foi quando me surgiu a ideia de que eu podia juntar o útil ao agradável.
— E quanto aos dados dos clientes? Eu sei que vocês têm uma clientela VIP, com um rigoroso processo de aceitação...
— Sim, prezamos pela segurança, conforto e prazer dos nossos clientes. Só conseguimos isso deixando apenas um seleto público fazer parte. O senhor terá o acesso a esses dados quando as negociações forem concluídas. Não comprará apenas o espaço físico, mas também todas as informações deles.
— Quero esses dados hoje, e pago o valor que estão pedindo!
— Senhor M., isso não é sensato! — Charlize aconselhou. — Esse valor está muito acima do mercado!
— Charlize, agora não! — revidei, com a voz autoritária. Voltei a me dirigir ao representante: — E então, você consegue esses dados o mais rápido possível?
— Verei o que posso fazer!
Em pouco tempo, ele me deu acesso, embora que provisório, aos dados.
— Travis — me dirigi ao meu analista financeiro —, leve Charlize para almoçar. Revisarei estes dados antes de ir.
— Como queira, Senhor M.
— Essan! — ela aumentou a voz, me fazendo virar para ela, irritado. — Digo, Senhor M., o que o senhor está fazendo?
— Charlize... agora não! Vá!
Eles se foram, com ela bufando. Se aquela compra fosse um mal negócio, ela me atormentaria eternamente por não seguir as suas recomendações, contudo, naquele momento, eu só queria voltar meus olhos ao monitor do notebook, cruzar os dados da cidade atual com a cidade de origem dos clientes e os dados dela apareceram na tela.
— Então é você, Samhyrïğa R.!
Achei o sobrenome familiar, porém não me veio a lembrança de onde. Agora me restava fazer algumas ligações e descobrir o seu paradeiro.
∞∞∞
*Sammy*
Quando cheguei ao portão de embarque e entreguei meus documentos a um gentil homem, ele disse:
— Senhora Sam...yra... R.
— Samhyrïğa. — corrigi, amigavelmente.
— Perdão! A senhora por gentileza pode me acompanhar a outro portão? O voo da senhora teve um imprevisto na primeira classe, mas há outro voo para sair logo mais!
— Está bem...
Ele fez um gesto para outro atendente vir ficar em seu lugar e eu o acompanhei ao portão indicado, onde fui levada diretamente, sem fila, a um avião menor. Ao embarcar, me vi na primeira classe, encontrando passageiros já acomodados. Eu estranhei o fato de ela não me recomendar cadeira alguma, mas fez um gesto para eu cruzar uma porta que levava a uma área VIP. Havia apenas quatro acentos, uma tela de TV, bebidas e petiscos já dispostos.
— Hã... minha passagem era de primeira classe...
— Não havia mais assentos vazios.
— Não? Jurei ver alguns lá atrás!
— Senhorita R., é uma cortesia da empresa!
— Ah, já sei, descobriram quem é meu pai! Eu sempre sou tratada com regalias quando descobrem!
— Eu apenas cumpro ordens, senhorita. Agora, por favor, sente-se e coloque o cinto, pois já vamos decolar. Caso precise de qualquer coisa durante a viagem, basta me chamar.
Sentei-me, afinal não tinha muito o que fazer. Por mais que eu não gostasse, seria sempre tratada assim por ser filha de um bilionário!
Você pode gostar





