
O Renascer de Hana: Adeus, Inferno
Capítulo 2
Naquele sétimo ano de casamento, o ar frio de Lisboa parecia ter congelado até a minha alma. Eu estava caída no chão frio do estúdio, o sangue a escorrer da minha testa, manchando o chão de madeira. A minha rival, outra cantora de Fado, tinha-me empurrado com força, a sua cara distorcida de inveja.
A minha cabeça doía terrivelmente, a minha visão estava turva, mas o meu instinto foi pegar no telemóvel e ligar para o Hugo Contreras, o meu marido.
O telefone tocou durante uma eternidade.
Finalmente, ele atendeu, a sua voz estava fria e distante, como sempre.
"Hana, o que queres agora? Estou ocupado."
A minha voz saiu fraca, um sussurro desesperado. "Hugo... ajuda-me... eu fui ferida..."
Houve uma pausa do outro lado da linha, seguida por um riso baixo e cruel que me cortou mais fundo do que qualquer ferida física.
"Tu morreres seria um alívio para todos, Hana. Especialmente para mim."
Depois, o som da chamada a ser desligada.
O som do "bip... bip... bip..." foi a última coisa que ouvi. A escuridão envolveu-me, e a minha consciência desvaneceu-se na dor e no desespero.
...
Uma dor aguda na minha cabeça acordou-me.
Abri os olhos lentamente, a luz forte do quarto a ferir-me a vista. Estava deitada na nossa cama, no quarto que partilhava com o Hugo. A minha cabeça ainda latejava, mas não havia sangue.
Olhei para as minhas mãos. Estavam limpas. Toquei na minha testa. Lisa, sem nenhum ferimento.
Que se passa?
"Acordaste?"
A voz fria e familiar do Hugo veio do outro lado do quarto. Ele estava a vestir um fato caro, o seu rosto bonito estava tenso de impaciência.
"Vesti-te. O advogado está à tua espera lá em baixo. Já que insistes em fazer uma cena, vamos acabar com isto de uma vez."
Advogado? Olhei para o calendário na parede. A data era de há sete anos. Pouco depois do nosso casamento forçado, depois de uma das nossas primeiras grandes discussões.
Eu... renasci.
A memória da sua voz cruel ao telefone – "Tu morreres seria um alívio para todos" – ecoou na minha mente. A dor da traição era tão real, tão fresca.
De repente, o telemóvel dele tocou. Ele atendeu sem hesitar, a sua expressão a suavizar-se instantaneamente.
"Vanessa? Sim, querida. Não te preocupes, estou a tratar disto. Estarei aí em breve."
Vanessa Perez. A minha meia-irmã. A mulher que ele amava. A mulher cuja mãe destruiu a minha família e levou a minha própria mãe à morte.
Um ódio frio e claro apoderou-se de mim. Vinte anos de amor não correspondido, sete anos de um casamento infernal... para quê? Para isto?
Ele desligou o telefone e olhou para mim com desprezo. "A Vanessa está a sentir-se mal. Anda logo com isto, Hana. Não tenho o dia todo para os teus joguinhos."
Joguinhos. Ele achava que tudo o que eu fazia era um jogo para chamar a sua atenção.
Sentei-me na cama, a minha voz surpreendentemente calma.
"Hugo."
Ele franziu o sobrolho, irritado. "O quê?"
"Vamos divorciar-nos."
Ele riu. "Foi o que eu disse. O advogado está lá em baixo."
"Não," disse eu, olhando-o diretamente nos olhos. "Eu quero o divórcio. Eu estou a pedir o divórcio."
Peguei no meu próprio telemóvel, que estava na mesa de cabeceira. Procurei o número de um advogado de divórcios famoso que eu conhecia. O Hugo observava-me, um sorriso trocista nos lábios, convencido de que isto era apenas mais um dos meus dramas.
"Olá, Dr. Alves? É a Hana Larson. Sim, a esposa de Hugo Contreras. Quero iniciar o processo de divórcio. Por favor, prepare os papéis. Quero metade de todos os bens adquiridos durante o casamento, conforme a lei."
A expressão do Hugo mudou. A troça desapareceu, substituída por incredulidade e, depois, raiva.
"Hana, que raio estás a fazer?"
Ignorei-o e continuei a falar com o advogado. "Sim, o mais rápido possível. Obrigada."
Desliguei e olhei para ele. A dor no meu coração ainda lá estava, mas por baixo dela, uma nova determinação crescia.
Lembrei-me de tudo. Lembrei-me de como o amei desde que éramos crianças, a herdeira da vinha e o filho do magnata da tecnologia. Lembrei-me de o ajudar com os trabalhos de casa, de cuidar dele quando estava doente, de o defender de rufias na escola.
Lembrei-me do dia em que o meu pai trouxe a sua amante e a filha dela, Vanessa, para nossa casa, logo após o funeral da minha mãe. A minha mãe, que se tinha definhado em depressão por causa da traição dele.
Naquele dia, eu perdi tudo. A minha casa, a minha família, o meu futuro. E perdi o Hugo. Ele ficou do lado da "pobre e inocente" Vanessa, que chorava nos seus braços, enquanto eu era a "filha malcriada e ciumenta".
Ele nunca soube, ou nunca quis saber, que a mãe da Vanessa foi a causa da morte da minha.
O nosso casamento foi a última vontade do avô dele, um homem bondoso que sempre gostou de mim. Ele pensou que estava a unir duas pessoas que se amavam, sem saber que o coração do seu neto já pertencia a outra.
Para o Hugo, o casamento foi uma tortura. Para mim, foi a continuação de uma. Na minha vida passada, eu lutei. Fiz coisas terríveis para o magoar, para magoar a Vanessa, tudo numa tentativa desesperada de o fazer olhar para mim.
Agora, olhando para o seu rosto chocado, percebi a futilidade de tudo aquilo.
Ele agarrou-me no braço, a sua força a magoar. "Pára com esta estupidez, Hana! Pensas que podes simplesmente ligar a um advogado e acabar com isto? Este casamento foi a vontade do meu avô!"
Puxei o meu braço com força. "O teu avô está morto. E o meu amor por ti também morreu. Hoje."
Ele olhou para mim, os seus olhos escuros a procurar qualquer sinal de mentira. Não encontrou nenhum. Apenas um vazio frio que espelhava o dele.
"Tu vais arrepender-te disto," disse ele, a sua voz um silvo baixo.
"Não," respondi eu, a minha voz firme. "Eu já me arrependi durante sete anos. Acabou."
Ele ficou ali, chocado e em silêncio, enquanto eu me levantava e começava a vestir-me. Pela primeira vez em muito tempo, eu não sentia dor.
Sentia alívio. Sentia-me livre.
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