Capa do romance Corações em Ruinas

Corações em Ruinas

9.1 / 10.0
Clara Oliveira, uma recepcionista paulistana, vê sua vida ruir sob dívidas deixadas por seu ex-parceiro. Resgatada por Antony, um magnata misterioso, ela troca a miséria por uma cobertura luxuosa. Contudo, o socorro esconde segredos: Antony a monitorava há anos. Clara descobre ser a herdeira da linhagem Rossi, uma poderosa família criminosa. Seu pai foi morto por seu tio, Lorenzo, que agora comanda o cartel e planeja matá-la para manter o controle total.

Corações em Ruinas Capítulo 1

A chuva que castigava São Paulo naquela noite de terça-feira não era uma precipitação comum; era uma cortina de agulhas líquidas, um vergalhão de gelo que perfurava a pele e parecia buscar o caminho mais curto até a alma de Clara. O asfalto da Avenida Paulista, geralmente uma artéria pulsante de progresso e pressa, transformara-se em um espelho negro e distorcido. Nele, as luzes neon dos edifícios corporativos e o rastro vermelho febril dos faróis dos carros se misturavam, criando um cenário psicodélico, quase onírico, que contrastava violentamente com o cinza opaco e sem brilho de sua própria existência.

Aos vinte e três anos, Clara sentia que o conceito de juventude era uma propaganda enganosa. Ela não caminhava pela calçada molhada; ela se arrastava, carregando o peso de uma laje invisível sobre os ombros, uma estrutura composta por faturas vencidas, promessas quebradas e o medo constante do amanhã. O frio que subia pelas solas de suas sapatilhas baratas, já saturadas de água, era apenas um reflexo do entorpecimento que sentia por dentro.

Cada passo dado em direção à boca escura do metrô era uma contagem regressiva de exaustão física e mental. Clara vinha de uma "dobra" desumana de doze horas. Seu dia começara às seis da manhã, como recepcionista em uma clínica odontológica no Jardim Paulista, onde precisava exibir um sorriso impecável e fingir que as dores de dente dos pacientes eram sua única preocupação. Sem intervalo para respirar, ela atravessava a cidade para seu segundo turno como operadora de telemarketing em um prédio comercial cujas luzes fluorescentes pareciam sugar a vitalidade de seus olhos. Seus dedos, agora escondidos nos bolsos de um casaco fino, ainda pareciam digitar fantasmas em teclados imaginários, repetindo mecanicamente os scripts de vendas de produtos que ela mesma nunca teria condições de comprar.

Todo esse sacrifício tinha um nome e um rosto: Marcos. O homem que, há pouco menos de um ano, ela chamava de porto seguro. Marcos não apenas partira seu coração em um ato de covardia clichê; ele o havia penhorado, junto com sua dignidade e seu crédito. Ele desaparecera no éter da marginalidade, mas deixara para trás um rastro de destruição financeira em nome de Clara. Empréstimos consignados feitos com assinaturas falsificadas, cartões de crédito estourados em cassinos clandestinos e uma lista de credores cujas vozes ao telefone eram cada vez mais sombrias. O amor, para Clara, revelara-se o golpe de mestre mais cruel de sua vida.

Ao desembarcar na estação próxima ao seu bairro, o ar úmido e o cheiro característico de ozônio misturado à poluição e ao esgoto a atingiram como um soco. A estação estava vazia, o que era atípico, mas a tempestade parecia ter afugentado até mesmo os vendedores ambulantes. O trajeto de apenas duas quadras até seu pequeno e mofado apartamento no centro parecia, naquela noite específica, uma travessia pelo Rio Estige. A iluminação pública era negligente; as luzes dos postes piscavam em uma arritmia agonizante, lançando sombras longas e distorcidas que pareciam ganhar vida a cada trovão que rugia acima dos arranha-céus.

Clara apertou a alça de sua bolsa de couro sintético contra o peito, sentindo o volume do celular com a tela trincada e os poucos trocados que restavam para o pão de forma do dia seguinte. Ela sentia que o mundo estava se fechando ao seu redor. A cada poça que atravessava, o som de seus próprios passos parecia excessivamente alto, até que ela percebeu, com um sobressalto que fez seus pelos da nuca se arrepiarem, que havia uma batida a mais na melodia da chuva.

Foi no beco que servia de atalho - uma passagem estreita entre dois prédios antigos cujas paredes choravam infiltração - que o silêncio opressor foi substituído pelo som metálico e rítmico de passos que definitivamente não eram os seus. O ritmo era predatório, deliberado. Clara acelerou, o coração começando a martelar contra as costelas como um pássaro engaiolado. O chapinhar da água em suas sapatilhas velhas ecoava nas paredes de tijolos aparentes, cobertas por pichações que pareciam vigiá-la.

De repente, a saída do beco foi obstruída. Três silhuetas se desprenderam da escuridão densa, como se tivessem sido vomitadas pelas próprias sombras. Clara parou bruscamente, derrapando no chão liso. Ela tentou girar sobre os calcanhares para voltar, mas um terceiro homem já bloqueava o caminho por onde ela viera. Estava encurralada.

O líder do grupo era um homem de estatura média, mas com uma presença carregada de uma malícia pesada. Ele vestia um moletom encardido, o capuz caído para trás revelando traços rudes e uma cicatriz que cortava a sobrancelha esquerda. O brilho metálico de um canivete borboleta, manejado com uma perícia cruel e hipnótica, cortou a penumbra. O som do metal se abrindo - click-clack - foi mais alto que o trovão.

- O Marcos mandou lembranças, gracinha - a voz dele era um lixo arrastado no asfalto, carregada de um sotaque periférico e uma satisfação sádica. - Ele disse que você é uma mulher de palavra. Uma mulher que honra o que o "marido" faz. Ele disse que você pagaria a parte dele da dívida. Com juros de mercado... e você sabe, o nosso banco não aceita atrasos. E os nossos juros são muito altos para o seu bolso.

O sangue de Clara não apenas gelou; ele pareceu estancar em suas veias, deixando-a paralisada. O pânico, aquele velho conhecido que a visitava todas as madrugadas de insônia, travou sua garganta de tal forma que ela sentiu que ia sufocar. Ela queria gritar por socorro, mas quem a ouviria no meio daquela tempestade, naquele beco esquecido por Deus e pela prefeitura? Ela recuou, passo a passo, até que suas costas encontrassem a parede fria, áspera e úmida.

O homem avançou, diminuindo o espaço pessoal de forma invasiva. O cheiro de fumo barato, bebida de má qualidade e pura maldade emanava dele, impregnando o pouco ar que restava. Quando ele esticou a mão calejada e suja para tocar o rosto de Clara, seus dedos roçando sua pele pálida, o tempo pareceu entrar em um estado de suspensão. Ela fechou os olhos, esperando o pior, sentindo as lágrimas quentes se misturarem à água fria da chuva.

- Toquem nela e será a última coisa que farão com essas mãos.

A voz não veio da entrada do beco, nem da saída. Parecia emanar das próprias sombras laterais, como se a própria escuridão tivesse decidido falar. Era uma voz grave, aveludada, mas que carregava uma ressonância de autoridade tão absoluta e fria que o ar ao redor pareceu baixar mais alguns graus.

Das profundezas da penumbra, além do alcance da luz pálida do poste, emergiu uma figura que parecia um anacronismo naquele ambiente degradado. Era Antony.

Ele era alto, muito mais alto do que o líder dos bandidos. Seus ombros eram largos, delineados por um sobretudo de lã escura e um terno de corte italiano que exalava um luxo que Clara só vira em filmes de grandes produções. Ele não parecia molhado pela chuva; parecia que a água evitava tocá-lo por puro respeito. Seus olhos eram orbes negros e gélidos, brilhando com um desprezo quase letal, fixados nos agressores como se fossem insetos irritantes que ousaram interromper seu caminho.

O líder dos bandidos hesitou. Por um segundo, o instinto básico de sobrevivência gritou em seu ouvido para correr. Mas a ganância e a presença de seus dois comparsas lhe deram uma coragem falsa. Ele deu um sorriso torto, exibindo dentes amarelados, e apontou o canivete para Antony.

- Ora, ora... temos um herói de terno aqui? Cai fora, bacana. Isso não é conta sua. A menos que queira pagar a conta da bonitinha com o seu sangue.

Antony não respondeu com palavras. O que se seguiu foi uma exibição de eficiência violenta que Clara mal conseguiu processar. Antony não lutava como um brigão de rua; ele se movia como um predador de elite, ou talvez como um cirurgião removendo um tumor. No momento em que o bandido avançou com o canivete, Antony deu um passo lateral imperceptível. Com um movimento seco de alavanca, o pulso do agressor estalou de forma audível no beco - um som de osso quebrando que fez Clara ter vontade de vomitar.

O canivete caiu no bueiro com um tilintar metálico. Antes que o homem pudesse gritar, Antony desferiu um golpe de palma aberta em sua garganta, seguido de um chute lateral que o enviou contra as latas de lixo. Os outros dois, que tentaram intervir, foram neutralizados com a mesma precisão cirúrgica. Um deles caiu com um soco no plexo solar que o deixou sem ar por minutos; o outro foi arremessado contra a parede de tijolos com uma força que parecia impossível para um homem tão elegante.

Eles não esperaram pelo segundo round. Gemendo de dor e em pânico total diante daquela força sobrenatural, arrastaram o líder e sumiram na chuva, deixando para trás apenas o eco de seus passos covardes e o cheiro de medo.

Antony se virou para Clara. O contraste entre os dois era brutal, quase poético em sua crueldade. Ela era uma criatura quebrada, encharcada, os cabelos castanhos grudados no rosto pálido e os lábios azuis de frio e terror. Ele, por outro lado, permanecia impecável, uma força da natureza sob medida que acabara de desmantelar três homens sem desarrumar um único fio de cabelo.

Ele se aproximou devagar, respeitando o espaço de sua vítima, como quem se aproxima de um animal ferido que ainda pode morder por instinto. Sem dizer uma palavra, ele desfez os botões de seu paletó de lã fria. O movimento foi calmo, quase ritualístico. Ele o retirou e o envolveu nos ombros trêmulos de Clara.

O calor que emanava do tecido foi o primeiro conforto real que ela sentiu em meses. O aroma inebriante de sândalo, tabaco caro e uma nota metálica de poder envolveu-a como um abraço protetor. O paletó era pesado, uma armadura de luxo que parecia isolá-la do resto do mundo hostil.

- Você vem comigo - ele decretou. A voz dele não oferecia espaço para discussão. Não era um convite gentil, era um fato consumado, uma ordem vinda de alguém acostumado a governar reinos invisíveis. - Não é mais seguro aqui, e eu não tenho o hábito de repetir minhas ordens.

Clara olhou para ele, tentando encontrar algum sinal de ameaça naqueles olhos escuros, mas tudo o que viu foi uma determinação gélida e algo mais profundo... uma posse silenciosa. Pela primeira vez em sua vida de lutas solitárias, de trabalhar até a exaustão para pagar os erros de terceiros, Clara sentiu o luxo proibido da rendição. Suas pernas, que antes ameaçavam falhar, agora encontravam suporte na presença dele.

Ela não perguntou para onde iriam. Ela não perguntou quem ele era. Ela apenas assentiu, um movimento curto e submisso, deixando-se guiar pela mão firme e quente dele que pousou suavemente em suas costas. Enquanto caminhavam para fora do beco, um carro preto, longo e blindado, aguardava na esquina com o motor roncando baixo, como um predador doméstico esperando o retorno de seu mestre.

Ao entrar no veículo, o silêncio absoluto do isolamento acústico engoliu o barulho da chuva e da cidade. Clara sentou-se no banco de couro legítimo, ainda envolta no paletó dele, sentindo que, ao cruzar aquela porta, ela não estava apenas saindo de um beco perigoso, mas deixando para trás a vida que conhecia para entrar em um mundo onde as regras eram escritas em sangue e ouro. Ela olhou pelo vidro fumê enquanto o carro arrancava, vendo os borrões de luz da cidade desaparecerem, e soube, no fundo de seu ser, que o preço por sua salvação naquela noite seria muito mais alto do que qualquer dívida que Marcos pudesse ter deixado.

Antony olhava para a frente, o perfil esculpido em granito, uma sombra dominante no interior luxuoso do carro. O jogo estava apenas começando, e Clara, embora ainda não soubesse, era a peça central que ele esperara anos para mover.

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