
O Renascer de Hana: Adeus, Inferno
Capítulo 3
Nos dias que se seguiram, o Hugo agiu como se a minha decisão de me divorciar fosse uma piada de mau gosto. Ele e a Vanessa não perderam tempo a exibir o seu "amor" por toda a Lisboa.
As redes sociais estavam inundadas com fotos deles. Um dia, estavam a passear de mãos dadas pelos jardins do Palácio da Pena em Sintra, no outro, a beber vinho num terraço com vista para o mar no Algarve. Cada foto era uma provocação deliberada, uma faca torcida na ferida que ele pensava que eu ainda sentia.
"O Hugo é tão romântico! A Vanessa tem tanta sorte!" comentavam os seus amigos e seguidores.
"Quando é que eles se casam? Eles são a alma gémea um do outro!"
Eu via as publicações, mas pela primeira vez, não sentia nada. O meu coração, que antes se partia com cada imagem deles juntos, estava agora estranhamente calmo. Era como ver um filme sobre a vida de outra pessoa. Uma vida trágica e patética da qual eu finalmente tinha escapado.
Passei os meus dias a organizar a minha partida. Contactei agentes imobiliários para avaliar as propriedades que me seriam atribuídas no divórcio. Falei com consultores financeiros. Estava a construir a minha fuga, tijolo por tijolo.
Um mês depois, chegou o dia do memorial do avô do Hugo. Era um evento anual, uma reunião solene da família Contreras na sua quinta ancestral, nos arredores de Lisboa. Na minha vida passada, eu odiava este dia. Era um lembrete doloroso do homem que me tinha prendido a este casamento e da família que me desprezava.
Este ano, decidi ir.
Quando cheguei, todos os olhares se viraram para mim. A tia do Hugo, a matriarca da família desde a morte dos pais dele, olhou-me de cima a baixo com desdém.
"Olha quem decidiu aparecer. Pensei que estavas demasiado ocupada a tentar destruir o nome da nossa família com esse teu divórcio ridículo."
A Vanessa, que estava ao lado dela, vestida de branco como um anjo de luto, olhou para mim com uma falsa preocupação. "Hana, não devias ter vindo. Isto deve ser muito difícil para ti."
Ignorei-as. Caminhei pela sala, o meu olhar fixo no retrato do avô do Hugo pendurado sobre a lareira.
"Eu não vim por vocês," disse eu, a minha voz clara e firme, silenciando os murmúrios na sala. "Vim para me despedir do Avô."
A tia do Hugo bufou. "Despedir-te? Tu só lhe trouxeste problemas!"
"Talvez," respondi eu, virando-me para ela. "Mas ele foi a única pessoa nesta família que alguma vez foi gentil para mim. Devo-lhe isso."
Deixei-os a resmungar e fui para o pequeno pátio interior, onde a família guardava as suas relíquias. No centro, estava um pequeno altar dedicado ao avô. Sobre ele, repousava o seu objeto mais precioso: um conjunto de azulejos antigos, pintados à mão, que contavam a história da família Contreras. Ele tinha-me mostrado aqueles azulejos uma vez, explicando cada cena com um brilho nos olhos. Ele disse que representavam a herança e a honra.
Ajoelhei-me em frente ao altar. Toquei suavemente na superfície fria de um dos azulejos.
"Avô," sussurrei eu. "Desculpa. Eu tentei. Tentei mesmo amar o teu neto como me pediste. Mas não consigo mais. O meu amor por ele... acabou. Estou a libertá-lo. E estou a libertar-me a mim mesma. Espero que possas perdoar-me."
As lágrimas que eu não tinha chorado durante semanas começaram a cair. Eram lágrimas de luto, não pelo Hugo, mas pelo meu passado, pela rapariga ingénua que eu tinha sido.
"Que cena comovente."
A voz sarcástica da Vanessa fez-me sobressaltar. Ela estava parada à entrada do pátio, a olhar para mim com um sorriso malicioso.
"Ainda a representar o papel da nora dedicada? Ninguém acredita em ti, Hana."
Levantei-me, a enxugar as lágrimas. "O que queres, Vanessa?"
Ela aproximou-se, os seus olhos a brilhar com maldade. "Eu quero que desapareças. O Hugo é meu. Esta família é minha. Tu não pertences aqui."
Ela estendeu a mão e, com um movimento deliberado, empurrou o conjunto de azulejos do altar.
Eles caíram no chão de pedra com um som agudo e estilhaçante.
O som ecoou pelo pátio silencioso, um som de algo precioso e insubstituível a ser destruído para sempre.
Fiquei paralisada, a olhar para os cacos de cerâmica espalhados pelo chão. A história da família Contreras, feita em pedaços.
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