
O Preço da Ingenuidade no Amor
Capítulo 2
A memória daquela dor ainda era real, um eco fantasma em um corpo que não a sentia mais.
Eu me lembrava do cheiro de antisséptico do hospital, da luz fria e branca que parecia zombar da minha desgraça, e do zumbido constante dos aparelhos que me mantinham viva.
Naquela outra vida, eu era Sofia, uma arquiteta talentosa com um futuro que parecia brilhante, mas eu era, acima de tudo, ingênua.
Acreditava na bondade da minha família, no amor do meu noivo.
O ponto de virada foi um acidente de carro, uma terrível colisão em um dia chuvoso.
Eu não estava sozinha no carro, ao meu lado estava Dona Regina, uma das empresárias mais poderosas do país, uma mulher cuja vida eu salvei ao usar meu próprio corpo como escudo no momento do impacto.
Ela sobreviveu com arranhões, eu, com uma perna esmagada e ferimentos internos graves que me deixaram em uma cama de hospital por meses.
Em gratidão, Dona Regina me fez uma promessa, ela não apenas me daria uma posição de destaque em sua empresa, a maior construtora do país, mas também garantiria que minha família tivesse tudo o que sempre sonhou.
Era o início de um conto de fadas, ou assim eu pensava.
Enquanto eu lutava para me recuperar, um tipo diferente de podridão se espalhava pelas minhas costas.
Isabella, minha irmã de criação, a garota que meus pais adotaram e sempre amaram mais do que a mim, sua própria filha, viu sua oportunidade.
A inveja que ela sempre nutriu em segredo finalmente floresceu em uma traição completa.
Com a ajuda dos meus pais, que mentiram e manipularam em seu nome, Isabella tomou meu lugar.
Ela se apresentou a Dona Regina como a heroína do acidente, usando uma história fabricada sobre como eu estava muito abalada para assumir responsabilidades.
Ela roubou meus projetos, minhas ideias, minha promoção.
E ela não parou por aí.
Ela também roubou meu noivo, Marcos.
Ele, o homem a quem eu havia prometido meu futuro, era fraco, um oportunista que se deixou seduzir pela ambição de Isabella e pela promessa de poder rápido.
Lembro-me de vê-los juntos, visitando meu leito de hospital com falsos sorrisos e palavras de consolo, enquanto suas mãos se tocavam secretamente sob o lençol.
A dor da traição foi pior do que qualquer ferimento físico.
Meus próprios pais, quando os confrontei, disseram que eu deveria ser compreensiva, que Isabella merecia uma chance, que eu sempre fui a mais forte e poderia me recuperar.
Eles sacrificaram sua filha biológica pelo bem da adotiva.
O fim daquela vida foi patético, eu morri não pelo acidente, mas por uma "complicação" durante uma cirurgia de acompanhamento, uma complicação que eu agora sei que foi orquestrada.
Morri sozinha, desonrada e substituída.
Mas então, um milagre.
Eu abri meus olhos, não para a luz fria do hospital, mas para o sol quente da manhã em meu próprio quarto, o som dos pássaros do lado de fora da janela.
Meu corpo estava inteiro, forte, sem dor.
O calendário na parede confirmava, era o dia do acidente. O dia em que tudo começou.
O universo, por algum motivo, me deu uma segunda chance.
E desta vez, eu não seria a tola sacrificial.
Desta vez, eu seria a arquiteta da minha própria vingança.
Eu me levantei da cama, calma, e olhei para o meu reflexo no espelho.
A mesma Sofia, mas com olhos que continham a sabedoria fria e a dor de uma vida inteira de traição.
O telefone tocou, era minha mãe, sua voz cheia de uma falsa urgência.
"Sofia, querida, apresse-se! Você tem aquela reunião importante com a cliente, lembra? Isabella já está pronta, esperando por você no carro."
A cliente era Dona Regina. O plano deles já estava em movimento, eles queriam que Isabella estivesse lá, para que ela pudesse reivindicar o crédito. Na vida passada, eu corri, desesperada para não me atrasar, e dirigi de forma imprudente na chuva que se aproximava.
Hoje, não.
Eu observei o céu lá fora, as nuvens escuras se acumulando no horizonte.
A tempestade estava chegando, assim como a minha.
Eu respirei fundo, um sentimento de poder percorrendo minhas veias.
Eles queriam que eu me apressasse para a minha própria destruição, para que pudessem colher os frutos.
Eles pensavam que eu era a mesma Sofia ingênua.
Eles estavam terrivelmente enganados.
Desta vez, a heroína não seria eu, e o sacrifício certamente não seria meu.
Eu sorri para o meu reflexo, um sorriso desprovido de calor.
"Que eles esperem", murmurei. "Eles vão esperar por muito tempo."
A vingança é um prato que se come frio, e a minha estava prestes a ser servida.
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