
O Preço da Ingenuidade no Amor
Capítulo 3
O som da voz da minha mãe no telefone era estridente, cheio de uma urgência fabricada que agora soava ridícula aos meus ouvidos.
"Sofia, você está me ouvindo? Isabella está esperando! Você vai fazer vocês duas se atrasarem!"
Eu desliguei o telefone sem responder, o silêncio repentino no quarto era delicioso.
Desci as escadas calmamente, saboreando cada passo.
Na vida passada, eu teria descido correndo, tropeçando em minha própria ansiedade para agradar.
Agora, eu me movia com a deliberação de uma rainha em seu próprio castelo.
Na sala de estar, encontrei a cena exatamente como me lembrava, Isabella estava de pé junto à porta, vestida em um terninho caro que era meu, batendo o pé impacientemente.
Meu pai estava lendo o jornal, fingindo indiferença, enquanto minha mãe andava de um lado para o outro.
"Finalmente!", minha mãe exclamou ao me ver. "O que demorou tanto? Vamos, vamos, vamos!"
Eu a ignorei e fui até a cozinha preparar uma xícara de café.
"Sofia!", Isabella disse, sua voz um sibilo agudo. "Não temos tempo para isso! A reunião com Dona Regina é a oportunidade de uma vida!"
"Sua oportunidade, você quer dizer", eu respondi calmamente, sem olhar para ela, enquanto a água quente enchia a xícara.
O silêncio caiu sobre a sala, um silêncio pesado e chocado.
Eu nunca tinha falado com Isabella assim antes.
"O que você quer dizer com isso?", minha mãe perguntou, sua voz vacilando.
Eu me virei, segurando minha xícara de café, e olhei para os três.
Eles eram os arquitetos da minha ruína, os rostos sorridentes da traição.
"Eu não vou a lugar nenhum", eu anunciei. "Estou com uma dor de cabeça terrível, acho que vou ficar em casa hoje."
"Você não pode!", meu pai disse, finalmente baixando o jornal, seu rosto uma máscara de irritação. "Esta reunião é crucial para o futuro da família!"
"É mesmo?", eu disse, tomando um gole do meu café. "Então talvez Isabella deva ir sozinha, ela parece tão ansiosa."
O pânico brilhou nos olhos de Isabella por uma fração de segundo antes que ela o escondesse com uma expressão de preocupação.
"Mas Sofia, o projeto é seu! Eu não poderia... eu só estou indo para te dar apoio."
Mentiras. Tão fáceis, tão naturais para ela.
"Não se preocupe", eu disse com um sorriso doce. "Tenho certeza que você vai se sair bem, afinal, você é tão talentosa."
Eu me virei para sair da sala, mas uma das empregadas, Maria, uma mulher que sempre fora leal aos meus pais, bloqueou meu caminho para as escadas.
"Senhorita Sofia, seus pais insistem que você vá."
"Saia do meu caminho, Maria", eu disse, minha voz baixa e firme.
"Eu não posso, senhorita, tenho ordens."
Eu a encarei, vendo a cumplicidade em seus olhos.
Ela sabia, todos eles sabiam do plano.
Eles eram todos parte disso.
A raiva, fria e precisa, subiu dentro de mim.
"Maria", eu disse, minha voz caindo para um sussurro gelado. "Você sabe há quanto tempo sua família serve a minha? Você sabe que foi a minha avó que tirou seus pais da miséria e lhes deu um lar e um propósito?"
Ela recuou um passo, surpresa com a minha mudança de tom.
"Você come da nossa mesa, vive sob o nosso teto, um teto que foi construído com o dinheiro da minha linhagem, não da deles", eu disse, gesticulando para meus pais. "Sua lealdade está mal colocada."
Antes que ela pudesse responder, eu agi.
Ao lado da escada havia uma antiga bengala de carvalho que pertencera ao meu avô, era pesada e sólida.
Eu a peguei. O peso em minha mão era reconfortante.
Eu não a levantei para ameaçar, apenas a segurei.
A mensagem era clara.
Maria empalideceu e se afastou do meu caminho.
"Sofia, o que você pensa que está fazendo?", meu pai gritou, levantando-se. "Larga isso agora!"
"Por quê? Você tem medo que eu faça o que vocês planejam fazer comigo?", eu retruquei, subindo o primeiro degrau.
"Isso é um absurdo!", minha mãe choramingou. "Estamos apenas preocupados com você!"
Eu parei e me virei para olhá-los de cima.
"Preocupados? Vocês são os que estão me empurrando para um carro em um dia em que haverá a pior tempestade do ano, só para que sua preciosa Isabella possa roubar o que é meu", a verdade saiu, nua e crua.
O choque em seus rostos foi genuíno, não porque se importassem, mas porque foram pegos.
"Como... como você sabe da tempestade?", Isabella gaguejou.
Eu sorri. "Eu tenho meus talentos."
Eu me virei e continuei subindo as escadas.
"Volte aqui, Sofia!", meu pai ordenou, sua voz ecoando pela casa.
Eu o ignorei.
Entrei no meu quarto e tranquei a porta.
Minutos depois, ouvi passos apressados e batidas na minha porta.
"Sofia, abra esta porta! Você está de castigo!"
Eu ri. Castigo? Eles não tinham mais poder sobre mim.
Eu fui até meu armário e peguei uma mochila.
Coloquei minha carteira, chaves e alguns itens essenciais.
Então, fui até a janela.
Meu quarto ficava no segundo andar, mas uma grande treliça coberta de hera descia pela parede lateral da casa, algo que eu mesma projetei.
Na vida passada, era apenas um elemento estético.
Nesta vida, era minha rota de fuga.
Enquanto eu amarrava a mochila nas costas, ouvi um barulho de chave na fechadura.
Eles tinham uma chave mestra.
O tempo estava se esgotando.
Sem hesitar, abri a janela e deslizei para a treliça.
Minhas mãos e pés encontraram apoio facilmente.
Comecei a descer, o vento começando a soprar mais forte, anunciando a tempestade.
Quando meus pés tocaram o chão, ouvi um grito de raiva vindo do meu quarto.
Eles tinham entrado.
Tarde demais.
Corri para a garagem nos fundos da propriedade, não a garagem principal onde ficavam os carros da família, mas uma menor, onde eu guardava meu próprio tesouro.
Abri a porta e lá estava ela, minha moto, uma Ducati preta e veloz.
Era o meu símbolo de liberdade, algo que meus pais odiavam.
Eles a consideravam perigosa e imprópria para uma jovem.
Perfeito.
Coloquei o capacete, liguei o motor e o rugido poderoso encheu o pequeno espaço.
Eu saí da garagem e acelerei pela entrada de serviço dos fundos, exatamente quando o carro da família, com Isabella e meus pais dentro, saía pela entrada principal, provavelmente para tentar me encontrar no caminho para a reunião.
Eles estavam indo para o leste, em direção ao escritório de Dona Regina.
Eu virei para o oeste, na direção oposta.
Enquanto eu acelerava na estrada aberta, sentindo o vento e as primeiras gotas de chuva no meu rosto, eu não senti nada além de uma liberdade emocionante.
Eles podiam ter a reunião, podiam ter o acidente.
Eu tinha outros planos.
Planos muito, muito maiores.
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