Capa do romance Entre mundos

Entre mundos

8.8 / 10.0
Ada Owen levava uma vida urbana comum até que circunstâncias forçaram sua família a se mudar para um vilarejo remoto e esquecido. No entanto, sua realidade sofre uma reviravolta drástica ao cruzar o caminho do herdeiro do clã vampírico mais antigo da história. Ao se apaixonar perdidamente pelo rapaz, ela mergulha em um romance sombrio e perigoso. Ada não imagina as consequências fatais de ter seu destino entrelaçado com a própria morte.

Entre mundos Capítulo 1

Consultei o relógio, olhei mais uma vez em volta e caminhei rapidamente em direção a porta. Queria sair logo daquele lugar, nunca achei fáceis as despedidas, mas com tanta coisa que aconteceu nesta casa, isso é irrelevante agora.

Recomeçar vai ser tranquilo, tenho estado mais na minha depois de tudo que aconteceu, eu sempre preferi ficar sozinha desde mais nova, então as coisas não vão mudar tanto quanto meus pais esperam. Sharon sempre diz que sou boa em aceitar as coisas muito facilmente.

Iremos para uma cidade pequena, mais retirada de tudo e de todos, que aceita o simples fato de que os vampiros ganharam direitos depois da guerra, e que eles existem e querem estudar e participar da sociedade como “iguais”, mesmo não sendo assim tão iguais a nós humanos.

Para falar a verdade, não sei se vou poder lidar com isso tão facilmente assim, aqui em New City, existe escolas, mercados, postos de gasolina e até mesmo igrejas separadas para vampiros, para que não exista conflito ou até mesmo mortes desnecessárias; mas onde irei morar é diferente. Quem é que consegue se controlar sabendo que tem um “sugador de sangue” bem ao seu lado? E que se bater a fome nele, você pode virar só mais um lanchinho ou o café da manhã, isso se você acabar por descobrir só na hora em que ele te mostra como quer drenar toda a sua vida. Com isso eu não consigo lidar.

Nas cidades maiores o problema de mortes por vampiros é quase nulo, ou seja, o problema não existe, porém, nas cidades pequenas o problema é visto e ignorado por culpa do dinheiro que rola entre vampiros cheios da grana e políticos famintos por “poder” mesmo esse poder sendo uma ilusão na cabeça deles. Ações para o governo de “múmias” podres de ricas, para “ajudar” os cidadãos humanos em condições precárias.

Alguns vampiros são fáceis de reconhecer: cheiram mal e tem suas presas sempre a mostra, gostam de se jogar em cima das meninas e acham que só porque são vampiros podem ter o que querem e quando querem. Já outros, são iguais aos contos e filmes antigos: pele lisa e sem deformidades, brancos como porcelana, bonitos de morrer e claro, por causa da sua pele sensível eles não podem se expor muito ao sol, pois podem se “ferir” com os raios UV, esses são ditos como vegetarianos, pois adotaram a dieta de não humanos e se alimentam só de animais, são os mais fracos, podendo ser comparados até mesmo com a força humana media. O terceiro e último tipo de vampiro, é o mais perigoso, mas quase não são vistos, ou seja, são raríssimos, e se passam por humanos com muita facilidade, você só descobre quando já estão te arrastando para algum lugar, o que se sabe sobre eles é que adoram uma caçada, brincam com a presa até enjoarem e que se movimentam em volta de uma crença que afeta diretamente nós seres humanos, na qual todos temos medo, dizem que é um ritual, mas não sabemos ao certo o que é e nem o que acontece, pois todos os que tentaram descobrir ou que acabaram por passar por esse ritual, nunca mais voltam.

Assim que saio do pátio da casa, me dirijo aos meus pais, na qual me observam com certa curiosidade pelo meu pequeno devaneio momentâneo ao me despedir da casa, acabo por soltar um comentário besta para descontrair e acalmá-los.

- Espero que tenha internet lá, ou o resto da minha juventude acaba aqui mesmo e viro uma velhinha que coleciona gatos. -

- Fica tranquila querida, você vai poder dançar na frente do computador para suas amigas o dia inteiro se quiser. - diz Mike, marido de Sharon.

Ok! Isso foi jogo sujo, todo mundo tem o direito de dançar sua música favorita ou cantá-la, mesmo que esteja parecendo alguém sendo atacado por uma barata gigante comedora de gente.

- Há Mike, ... há, há, sem graça! - Digo revirando os olhos e sentando no banco de trás do carro. Mike disse que esse é uma boa escolha para o recomeço em outro lugar.

- Não se preocupe Ada, você vai poder ler, escrever, dançar e cantar e se quiser dar voltas na floresta aonde vamos ficar. - Consola Sharon, sempre cuidando de mim.

- Viu Mike? Ao menos a mamãe - aponto para Sharon- me entende. E com isso fecho a porta do carro escutando as gargalhadas dos dois, me aconchego ao lado do meu travesseiro, que trouxe a caso de acabar cochilando na viagem e observo o caminho a qual seguiremos até nosso novo lar.

Das doze horas de viagem, as quatro primeiras horas foram tranquilas, cantei com Sharon e irritei Mike até ele parar em uma lanchonete e me deixar usar o banheiro, olhei a paisagem que ia mudando conforme nos afastávamos da cidade, depois de oito horas de viagem, eu já não aguentava mais de tedio e já tinha visto todos os episódios da mini serie que tinha baixado. Minhas costas já estavam doloridas por estar na mesma posição por muito tempo, e mesmo as paradas para comer e ir ao banheiro não estavam ajudando muito com o tedio e as dores crescentes.

Assim que chegamos, já estava bem escuro e com muita neblina por causa do tempo úmido daquele lugar. A casa já estava mobiliada, então só restava mesmo as malas para pegar, ajudei pegando as quatro malas que me pertencem e fui direto para ao que parecia ser meu novo quarto, na qual era bem grande, com uma cama de casal de madeira bem ao centro da parede marrom claro e um criado mudo branco ao lado, uma poltrona bem fofinha rosa e um espelho gigante de frente para o closet, e ao lado da cama se via uma sacada cheia de flores e plantas das mais variadas espécies. Um quarto lindo e simples, bem do jeitinho que eu estava esperando e bem diferente do meu antigo quarto, que era pequeno e mal cabia uma cama e um guarda-roupa.

Como já era tarde o sono já estava me vencendo, então iria deixar para desfazer a mala e olhar o resto da casa amanhã quando estivesse bem descansada da viagem. Quando me deitei na cama, comecei a lembrar de todo o percurso até aqui, e percebo que tinha um trecho da viagem muito perto do nosso destino, na qual eu não me lembro de absolutamente nada, teria eu pego no sono enquanto não havíamos chegado? Me esforço para tentar lembrar de mais detalhes, mas sinto uma dor aguda, era como se cada vez que tentasse lembrar do momento um alfinete espetava em minha mente, como um aviso pra não pensar nisso, e ao levar a mão a cabeça percebo um sinal em meu

pulso, que até horas atrás não existia, mas resolvo parar de pensar sobre isso e tomar um remédio, pois aquela dor estava me deixando louca. Assim que a dor foi amenizando eu pego no sono, um sono profundo e cheio de pesadelos sobre o trajeto até ali.

Estávamos quase chegando na cidade quando do nada no meio da noite nebulosa aparece um anjo negro com sua vítima no meio da estrada ensanguentada. Minhas mãos suavam dentro dos bolsos do casaco, ainda que estivesse frio e nebuloso fora do carro, sentia no ar o cheiro de sangue e morte que vinha daquela sena a nossa frente. A boca daquele anjo mortal encheu de sangue, que se derramava pelos cantos da boca em direção a gola da camisa branca de grife, ao vislumbrar a silhueta da menina que estava sem vida ao lado daquele homem o ferro e o sal se misturou sobre a minha língua e embrulhou meu estomago, ocorreu-lhe o pensamento de fugir, como se fugir fosse possível. Mas não era. A garota era muito parecida com ela e isso lhe causou um arrepio na espinha. Os pés pareciam enraizados no chão do carro e seu corpo todo estava paralisado como pedra, ouvi um assobio longo e lamurioso do vento passando pelas frestas dos vidros entreabertos do carro e me encolhi em mim mesma, respirei fundo e tentei me acalmar, quando do nada o anjo negro aparece ao meu lado no banco de trás do carro. Fechei os olhos e gritei horrorizada com a possibilidade de ser a próxima vítima. Senti mãos sobre meu corpo e comecei a chutar e a chorar, logo começo a escutar Mike e Sharon me acalmando. Era só um pesadelo!

- Quanto mais livros de terror você ler, mais pesadelos você vai ter Ada- disse Mike em tom de provocação.

Estava encharcada de suor e respirando irregularmente, assustada ainda com o sonho, que parecia real demais para ela, levantou da cama ignorando Mike e sua tentativa de amenizar a tensão e foi para o banheiro lavar o rosto. Quando voltou, seus pais a olhavam com preocupação.

- Quer companhia para dormir hoje filha? - perguntou Sharon, sua mãe.

Por mais que estava assustada com o pesadelo, se sentia idiota com a ideia de dormir com os pais em plenos dezessete anos de idade.

- Obrigada pela preocupação mãe, mas estou bem. A viagem foi cansativa, deve ter sido isso que me causou o pesadelo, desculpa preocupar vocês, mas podem voltar pra cama e descansar. - Dei um sorriso para disfarçar o terror estampado em meu rosto, dei um beijo de boa noite em cada um e fui para baixo das cobertas tentar dormir novamente sem pensar no sonho que tivera.

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