Capa do romance O Don e a Princesa Do Cartel

O Don e a Princesa Do Cartel

8.6 / 10.0
Isabela De La Vega e Benício McNight Kuhn colidem em um encontro inesperado que desafia o controle absoluto do mafioso. O que surge como desejo logo se transforma em uma obsessão perigosa, culminando em um casamento que une dois grandes impérios. Contudo, uma traição devastadora ameaça destruir essa aliança. Enquanto ele se sente traído e ela nega qualquer culpa, a verdade exige um preço letal que nem todos serão capazes de pagar para sobreviver.

O Don e a Princesa Do Cartel Capítulo 1

A notícia chegou antes do amanhecer, não veio com delicadeza e não trouxe aviso.

Não deu tempo para oração, despedida ou esperança.

Chegou como um estouro seco no corredor da casa, com passos apressados, vozes atravessadas e a porta do quarto da minha mãe sendo batida com tanta força que bateu na parede. Já tinha decorado esse som, pois o barulho sempre refletia no meu quarto por ser ao lado do dela. Eu despertei no mesmo instante, ainda presa à névoa do sono, com o coração disparando sem saber por quê. Durante alguns segundos, fiquei sentada na cama, tentando entender o barulho, até ouvir o nome do meu pai sendo dito em tom baixo, urgente, quase engasgado.

Foi o bastante. Saí do quarto descalça, com a camisola amarrotada, e encontrei a casa em movimento.

Homens armados atravessavam o corredor, uma das empregadas chorava perto da escada.

Minha mãe, María, segurava o robe fechado sobre o peito com mãos trêmulas demais para parecerem firmes.

E Mateo Vargas estava no centro de tudo.

Meu meio-irmão mantinha a postura reta, os ombros duros, o rosto fechado num controle que só me irritou ainda mais naquela hora. Ele conversava com dois homens de confiança do meu pai ao pé da escada principal, enquanto Alejandro aparecia alguns degraus acima, ainda sonolento, jovem demais para entender o peso real do que estava acontecendo.

- O que aconteceu? - perguntei, a voz falhando antes mesmo de terminar.

Ninguém respondeu de imediato.

Minha mãe virou o rosto na minha direção, e bastou ver os olhos dela para que eu soubesse.

Não precisava ouvir ou que me explicassem, o meu mundo já tinha se partido.

- Mamá... - sussurrei.

Ela levou a mão à boca, tentando conter o soluço, mas não conseguiu. Foi Mateo quem falou. Seco. Direto. Sem piedade.

- Mataram Don Diego. - A frase caiu sobre mim como chumbo.

Por um instante eu não senti nada. Nem ar. Nem chão. Nem corpo. Apenas um vazio surdo, pesado, impossível de atravessar. Fiquei olhando para ele como se estivesse esperando que completasse a frase com alguma mentira, algum engano, alguma informação que consertasse tudo.

Mas aquilo era a verdade, meu pai estava morto.

O grande Diego de la Vega, homem temido por meio continente, dono de rotas, armas, homens e segredos, tinha caído.

E eu só conseguia pensar no som da risada dele ecoando pela casa alguns dias antes, no perfume forte que sempre ficava no escritório depois que ele saía, na forma como a mão dele repousava no meu ombro quando queria me dizer algo sem que os outros percebessem.

Meu pai era muitas coisas. Difícil. Perigoso. Orgulhoso. Às vezes cruel. Mas era meu pai.

E naquele instante eu ainda não conseguia separar o homem do monstro que o mundo conhecia.

Alejandro desceu o restante da escada rápido demais, quase tropeçando no último degrau.

- Não. - O rosto dele já estava molhado. - Não. Não. Não.

Minha mãe abriu os braços e ele foi até ela como uma criança, mesmo não sendo mais uma. O abraçou com força, escondendo o rosto no ombro dela. Eu permaneci imóvel no corredor, sem conseguir chegar perto, sem conseguir recuar, presa naquele ponto exato em que a dor ainda parecia irreal.

Mateo dispensou os homens com um gesto curto, eles se afastaram sem discutir e aquilo me fez erguer os olhos.

 Eles não tinham esperado ordens.

Não tinha consultado ninguém. Já estava agindo como se a casa, os homens e tudo o que meu pai deixara para trás respondessem a ele.

Minha mãe percebeu o mesmo.

Ela ergueu o rosto devagar, ainda abraçada a Alejandro.

- Onde ele está?

- No galpão do porto. Trouxeram o corpo há meia hora - Mateo respondeu sem mudar a expressão.

Corpo. Não pai. Não Don Diego. Corpo. A palavra me encheu de raiva num segundo.

- Você podia ter dito de outro jeito. - Ele desviou os olhos para mim.

- A morte não muda porque você prefere palavras mais suaves, Isabela.

Cruzei os braços sobre o peito, embora meu corpo inteiro ainda estivesse tremendo.

- E você podia tentar não soar como um maldito pedaço de gelo no dia em que nosso pai morreu.

Mateo sustentou meu olhar sem vacilar.

- Seu pai morreu. O meu também. A diferença é que alguém precisa pensar no que vem agora.

Minha mãe se afastou de Alejandro como se tivesse levado um golpe.

- O que vem agora é o velório do homem com quem vivi metade da minha vida. - A voz dela saiu baixa, mas firme. - O que vem agora é respeitar a casa.

Mateo passou a língua pelo canto interno da bochecha, num gesto de contenção que eu conhecia bem. Quando ele fazia aquilo, significava que estava escolhendo palavras que já vinham feridas desde o início.

- O que vem agora é impedir que os cães sintam o cheiro de sangue e entrem por esta porta antes do enterro terminar.

O silêncio que se seguiu foi pesado e cruel porque ele tinha razão.

Meu pai não era apenas um homem de família. Era um nome. Um império. Um território. A morte dele não deixava apenas dor. Deixava espaço. E espaço, naquele mundo, significava disputa.

Alejandro se desvencilhou do abraço de nossa mãe e limpou o rosto com a manga da camisa.

- Quem fez isso?

- Ainda não sabemos. - Mateo respirou fundo antes de responder.

- Isso é mentira. - Dei um passo à frente. - Você sempre sabe mais do que diz.

Os olhos dele vieram para mim de novo. Frios. Afiados. Insuportavelmente calmos.

- E você sempre fala demais quando está com medo.

- Não fala comigo desse jeito. - Dei mais um passo.

- Então não me provoque no meio disso.

- Basta. - Minha mãe ergueu a voz pela primeira vez.

A palavra saiu como uma ordem antiga, daquelas que ainda conseguiam nos fazer parar mesmo no meio do caos. Eu fechei a boca. Mateo também. Alejandro continuou imóvel, respirando com dificuldade, tentando parecer mais homem do que ainda era.

Minha mãe soltou o robe e endireitou os ombros, embora a dor continuasse rasgando o rosto dela.

- Vamos ao porto.

- Não é uma boa ideia. - Mateo a observou por um segundo.

Ela chegou tão perto dele que os dois quase encostaram.

- O homem morto lá embaixo era meu marido. - O que havia de frágil na voz dela desapareceu. - Não me diga o que é ou não uma boa ideia para mim.

Mateo não insistiu, abriu espaço, mas o olhar dele dizia que aquilo não terminaria ali.

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