Capa do romance A Luna Preciosa do Rei Licantropo

A Luna Preciosa do Rei Licantropo

8.2 / 10.0
Narine sobreviveu a traumas profundos e acabou resgatada por Sargis, o temido Alfa Supremo. Unidos por um vínculo sagrado, o governante implacável se apaixona intensamente pela jovem quebrada, jurando protegê-la. Enquanto buscam cura para suas almas fragmentadas, o passado os persegue, testando essa conexão. Narine deve decidir se aceita esse amor ardente e assume seu lugar como Rainha ou se permanece nas sombras. É uma jornada sobre superação e força mútua.

A Luna Preciosa do Rei Licantropo Capítulo 1

Você só percebe o quão silenciosamente um coração pode se despedaçar quando se encontra imerso no próprio silêncio, desejando que alguém, qualquer pessoa, pudesse ouvi-lo. Contudo, no meu mundo, a única resposta que eu recebia era o eco de tudo o que havia perdido antes mesmo de ter a chance de segurar.

Sempre carreguei a sensação de não pertencer a lugar algum, nem a esta matilha, muito menos à família à qual fui entregue.

No dia em que dei meu primeiro fôlego de vida, minha mãe exalou o último. Meu pai, incapaz de suportar o vazio deixado pela morte dela, a seguiu pouco tempo depois, me deixando órfã antes mesmo que eu pudesse guardar qualquer lembrança — ao menos foi assim que me contaram.

Conheci-os apenas por meio de fotografias antigas e desbotadas, e nunca senti a ausência deles como se tivesse perdido um amor verdadeiro.

O Alfa Joe, líder da nossa matilha, me entregou como se eu fosse um presente indesejado a Ema e Vargos. Por algum tempo, um período ao mesmo tempo doce e cruel, eles me trataram como se eu fosse filha deles. Isso durou até eu completar sete anos e a barriga de Ema começar a crescer com a chegada de uma nova vida.

Foi então que tudo mudou. De repente, os braços que antes me acolhiam tornaram-se frios. Os olhares que antes me buscavam na multidão passaram a atravessar-me como se eu fosse invisível, nada além do ar.

Eles estavam tão absortos com o novo bebê que se esqueceram de que eu também precisava de alimento, calor e afeto. Aprendi a cuidar de mim mesma, vivendo das sobras da geladeira e queimando minhas pequenas mãos ao tentar preparar refeições que tinham um gosto tão desagradável quanto a aparência.

Quando o bebê nasceu, esvaziaram meu quarto para transformá-lo no quarto dele e jogaram minhas coisas no depósito de tralhas, como se eu não tivesse mais valor do que enfeites antigos de Natal.

O depósito não tinha janelas, os verões me cozinhavam viva e os invernos me congelavam até os ossos. Dormia sobre uma pilha das minhas próprias roupas, pois jamais se preocuparam em me dar sequer um cobertor.

No começo, odiei Levon por tê-los tirado de mim, mas, com o tempo, esse ódio se transformou em algo mais melancólico. Afinal, não se pode perder aquilo que nunca foi realmente seu.

À medida que ele crescia, eu deixava de ser irmã e filha para me tornar apenas uma empregada.

E agora…

Hoje era o dia do meu décimo oitavo aniversário.

Normalmente, aniversários não significavam nada para mim, mas hoje era diferente. Nesta noite, sob a luz do luar, meu gene de lobo adormecido despertaria, e eu finalmente me tornaria uma lobisomem completa.

Melhor ainda, assim que a transformação acontecesse, eu poderia deixar a casa de Ema, me mudar para a casa da matilha, arranjar um emprego na cidade humana vizinha e começar a economizar para, enfim, sair de Khragnir e conhecer o mundo.

Um sorriso discreto e secreto curvou meus lábios. Esperei por esse momento durante toda a minha vida.

"Narine!" A voz estridente de Ema atravessou as paredes do depósito de tralhas. "Já são cinco da manhã! Mexa esse corpo inútil!"

Fechei os olhos e inspirei profundamente, murmurando para mim mesma: "Se controle, Narine. Faltam apenas algumas horas."

Levantei-me da minha pilha de roupas e saí. Lá estava ela, apoiada no corrimão como uma rainha observando sua miserável camponesa.

"Desculpe, mãe", murmurei. Não importava se eu estava certa ou errada, pedir desculpas era a única linguagem que ela compreendia.

Ema fez um gesto de desprezo. "Desculpe? E deveria mesmo. Vivendo da nossa bondade todos esses anos, o mínimo que você pode fazer é trabalhar mais. É fim de semana."

Trabalhar mais? O que ainda poderia ser acrescentado ao peso que já carregava sobre os ombros?

Engoli a raiva amarga que subia pela garganta.

"Desculpe, mãe. Vou começar as tarefas agora mesmo."

Para Ema, eu sempre seria um fardo, e nada do que eu fizesse seria suficiente.

Cerrei os punhos até os nós dos dedos tremerem. "Respire fundo, Narine. Faltam só mais algumas horas."

"Suma daqui!", ordenou Ema, descendo as escadas como um pavão, os cabelos ruivos balançando a cada passo. Ela era uma mulher bonita, sem dúvida, com o rosto em formato de coração e olhos azuis marcantes, mas sua beleza era manchada por um caráter apodrecido.

Enquanto ela descia, passei por ela apressada e corri até o quarto de Levon, que ficava no fim do corredor. Bati de leve na porta, ciente de que não deveria acordá-lo abruptamente. Se ele fizesse birra, Ema e Vargos fariam questão de me punir por isso.

Após uma breve pausa, a porta se abriu. Levon surgiu ali, com os cabelos ruivos espetados em mechas indomáveis.

"Está cedo demais. O que você quer?", ele rosnou.

"Desculpe, Levon. Vim pegar suas roupas para lavar."

Ele resmungou, desapareceu no quarto e voltou logo depois, empurrando dois cestos abarrotados de roupas contra meus braços e batendo a porta na minha cara.

Cerrei os dentes. Fazia apenas seis dias desde a última lavagem, mas, de alguma forma, ele havia conseguido sujar o equivalente a um mês inteiro.

Soltei um suspiro que afastou a franja do meu rosto e me virei para sair. A porta se abriu novamente e senti algo pesado atingir minha nuca, arrancando-me um gemido involuntário, e então a porta se fechou outra vez.

Peguei o edredom que ele havia jogado no chão e carreguei os cestos escada abaixo.

Ema estava, convenientemente, tomando sua dose diária de café enquanto folheava uma de suas revistas de moda caríssimas na sala de estar.

"A máquina de lavar quebrou."

Congelei. "O quê?"

"Quebrou ontem", murmurou ela com total displicência. "Peter, da casa da matilha, pode consertá-la… depois. Por enquanto, leve as roupas até a beira do rio e lave tudo à mão."

Encarei-a, estarrecida. Ela falava sério? Claro que falava, pois jamais brincava, sobretudo quando o objetivo era transformar minha existência em um tormento.

Sem pronunciar uma palavra, mordi o interior da bochecha com força suficiente para sentir o gosto metálico do sangue. Depositei os cestos ao pé da escada e segui até a lavanderia para pegar o sabão.

"Ah, e leve também as roupas do seu pai e as minhas", acrescentou ela, exibindo um sorriso satisfeito.

Praguejando em silêncio, fui até a cozinha e apanhei dois sacos de lixo grandes, capazes de acomodar aquelas pilhas de roupas.

Ao me virar, tropecei nos próprios pés e precisei me apoiar na borda do balcão de madeira para não cair. Um suspiro de alívio escapou dos meus lábios, mas durou pouco pois ouvi um estrondo ao meu lado. Olhei e percebi que havia derrubado um prato que estava sobre o balcão.

"É melhor não ser o que eu estou pensando", ouvi a voz de Ema ressoar acima de mim.

Quando ela havia chegado ali?

Ema contornou o balcão e arfou.

Endireitei-me depressa, mas, antes que conseguisse ficar totalmente de pé, sua mão atingiu meu rosto, arremessando-me para trás contra a geladeira. Uma dor lancinante explodiu em minhas bochechas, e minha cabeça ricocheteou com tanta força que estrelas dançaram diante dos meus olhos.

Lágrimas escorreram involuntariamente, fruto do choque e da dor.

"Sua vadiazinha estúpida", ela gritou. "É um prato antigo!"

"Me desculpe", murmurei.

"Isso é tudo o que você sabe dizer? Me desculpe! Me desculpe! Me desculpe! Desculpas não consertam a sua estupidez! Garota inútil! Você não passa de uma dor de cabeça!"

Permaneci em silêncio, permitindo que os insultos caíssem sobre mim até que ela, por fim, se afastasse. Com as mãos trêmulas, enxuguei as lágrimas, recolhi os cacos espalhados e limpei a sujeira.

Sem dizer mais nada, coloquei os sacos pesados sobre as costas e saí cambaleando, seguindo o longo caminho até a margem do rio, onde havia menos chances de alguém me ver naquele estado.

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