
O Divórcio Que a Libertou
Capítulo 2
Bia Souza estava na porta, um sorriso brilhante e inocente estampado no rosto. Ela segurava uma bolsa térmica nas mãos.
"Dante! Trouxe aquele filé que você adora!", ela chilreou, os olhos arregalados e cheios de adoração.
Os Almeida congelaram. O timing era perfeito demais, condenatório demais. O ar na sala ficou denso com verdades não ditas.
Eu quase tive que rir. Bia vinha aparecendo em nossa casa com frequência crescente, sempre sob o pretexto de trabalho, sempre nos momentos mais "coincidentes". Na semana passada, ela "esqueceu" um arquivo e precisou buscá-lo em um sábado de manhã. Ela já tinha o código de segurança do nosso portão da frente.
Percebendo a tensão, o sorriso de Bia vacilou. Ela fingiu preocupação. "Ah, estou interrompendo alguma coisa? Posso só deixar isso e ir embora."
"Não, fique!", disse Dante, a voz urgente. Ele praticamente me empurrou para o lado enquanto corria até ela, sua linguagem corporal um escudo entre Bia e eu.
Ele pegou a bolsa dela, seu toque demorando em suas mãos. "Você é tão atenciosa", ele murmurou, a voz carregada de uma ternura que ele não me mostrava há anos.
Era um eco doloroso. Essa era a voz que ele costumava usar para mim, na época em que precisava de mim, antes de seu nome estar na capa das revistas de arquitetura.
Ele levou Bia para a mesa de jantar, sentando-a na cadeira bem ao lado da dele, um espaço que sempre foi implicitamente meu.
"Viu, Clara?", Dante anunciou para a sala, a voz alta e performática. "Isso é consideração. A Bia sabe que eu gosto de um filé simples e bem feito. Não... isso." Ele gesticulou com desdém para as minhas vieiras.
Olhei para o filé que ela havia trazido. Era de um boteco barato do centro. Eu conhecia cada corte de carne que Dante gostava, como ele gostava que fosse cozido, o açougue específico que ele preferia. Ele odiava bife barato.
Ou pelo menos, costumava odiar. Agora, suas preferências eram as mesmas de Bia. Não era sobre a comida; era sobre a pessoa que a trouxe.
Uma onda de amarga percepção me invadiu. Ele não estava apenas substituindo minha comida; ele estava me substituindo por completo.
Bia, aproveitando a atenção, produziu mais presentes. "Sr. Almeida, eu trouxe isso para o senhor", disse ela, entregando a Júlio uma pequena caixa mal embrulhada. Era um prendedor de gravata barato, do tipo que se encontra em uma loja de departamento.
"Que maravilha! Uma jovem tão atenciosa", bradou Júlio, seu elogio embaraçosamente alto.
Meu estômago se revirou. Lembrei-me do relógio vintage de milhares de reais que encontrei para o aniversário de Júlio no ano passado. Ele mal havia grunhido em reconhecimento.
Em seguida, Bia se virou para Griselda. "E Sra. Wagner, para a senhora." Ela apresentou um lenço de seda. Eu podia dizer a três metros de distância que era uma imitação barata de um design que eu mesma havia admirado no mês passado.
"Oh, é adorável, querida", Griselda se derreteu, enrolando o tecido barato em volta do pescoço. "Você tem um gosto tão requintado." Ela sabia que era falso. Ela era uma mulher que conseguia identificar uma falsificação do outro lado da sala. Eles estavam fazendo isso de propósito.
Então, Griselda desferiu o golpe final. Ela olhou de Bia para mim, sua expressão uma mistura de pena e triunfo. "Sabe, Bia, você seria uma adição maravilhosa a esta família."
Não era uma sugestão. Era uma declaração. Eles estavam publicamente testando minha substituta bem na minha frente.
Algo dentro de mim se quebrou. A represa cuidadosamente construída que continha oito anos de raiva e humilhação se rompeu.
Meu coração começou a bater contra minhas costelas, uma batida frenética de fúria.
Com um grito que foi arrancado do fundo da minha alma, eu avancei e varri a mesa com o braço.
Vieiras, taças de vinho e talheres voaram pelo chão em uma explosão caótica de vidro e porcelana.
Todos pularam para trás, seus rostos uma máscara de choque.
"Que porra há de errado com você?", Dante gritou, o rosto contorcido de raiva. "Você está louca?"
Júlio e Griselda me encararam, o choque rapidamente se transformando em fúria fria. Eles me empurraram e me empurraram, e agora que eu finalmente havia quebrado, eles me olhavam como se eu fosse o monstro.
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