
O Divórcio Que a Libertou
Capítulo 3
"Se eu estou louca?", retruquei, uma risada selvagem e histérica borbulhando do meu peito. O som era rouco e feio. "Depois de oito anos nesta casa, estou surpresa por não estar."
Minha risada se transformou em um rugido de pura raiva. Peguei o vaso mais próximo — uma peça ridiculamente cara que Griselda nos dera de presente — e o atirei contra a parede. Ele se estilhaçou em mil pedaços.
Então fui para a coleção premiada de prêmios de arquitetura de Dante, aqueles com o nome dele gravado, mas com meu gênio por trás deles. Eu os varri da lareira, seu som metálico no piso de madeira uma satisfação profunda de destruição.
Júlio e Griselda recuaram, os rostos pálidos de medo. Eles nunca tinham me visto assim. Eles só conheciam a Clara quieta, complacente e útil.
"Clara, pare!", gritou Bia, correndo para a frente com uma falsa demonstração de preocupação.
"Fique longe dela!", gritou Dante, puxando Bia para trás dele. Ele me olhou com puro desprezo. "Ela só está tendo um chilique."
Suas palavras me atingiram mais forte do que um golpe físico. Um chilique. Ele descartou minha dor, minha raiva, meu colapso completo como um ataque infantil.
E assim, o fogo dentro de mim se apagou, substituído por uma calma glacial. A loucura recuou, deixando apenas um silêncio vazio e ecoante em seu lugar.
"Limpe isso", ordenou Dante, sua voz voltando ao seu tom de comando usual. Ele realmente acreditava que, depois disso, eu varreria humildemente os cacos de nossa vida quebrada e tudo voltaria ao normal.
Eu não disse uma palavra. Apenas me virei e caminhei silenciosamente em direção ao quarto.
"Dante, talvez você devesse ir com ela", sugeriu Bia, a voz escorrendo falsa simpatia. Ela sabia que ele não iria. Estava apenas desempenhando seu papel.
"Ela está bem", zombou Dante. "Ela faz isso para chamar a atenção. Ela vem de uma origem simples, sabe. Não aprecia as coisas boas da vida." Seu olhar seguiu minhas costas em retirada, um lampejo de algo indecifrável em seus olhos.
"Vamos embora", disse Griselda impacientemente. "Esta noite está arruinada. Deixe a empregada limpar."
Os três rapidamente pegaram suas coisas e se dirigiram para a porta, me deixando sozinha nos destroços.
Enquanto saíam, Júlio parou e gritou, a voz fria e dura. "Lembre-se do seu lugar, Clara. Você é uma Almeida agora. Seu dever é suportar. Sem nós, você não é nada. Toda a sua carreira é por causa desta família."
Fiquei na porta do meu quarto e ouvi a porta da frente se fechar. Nada. Ele achava que eu não era nada sem eles. Por oito anos, eu derramei cada gota do meu talento, da minha energia, da minha vida naquele escritório. Eu sacrifiquei meu próprio nome pelo dele. E eles achavam que tinham me feito.
Olhei para a bagunça na sala de jantar. Não era um lar. Era um palco para uma performance que eu não estava mais disposta a dar.
A ilusão romântica do amor havia morrido há muito tempo.
Fui até a lareira, tirei nosso retrato de casamento e o joguei nas brasas agonizantes. Observei os rostos sorridentes de nossos eus passados se curvarem e virarem cinzas. Então encontrei o brasão da família Almeida emoldurado que pendia no corredor e o espatifei no chão.
Entrei no quarto e peguei uma mala. Embalei apenas o que era meu. Minhas roupas, meus livros pessoais e meu portfólio de projetos original — aquele em um disco rígido seguro e criptografado.
Então, sentei-me na beira da cama e peguei meu celular. Enviei uma mensagem de texto para a única pessoa que Dante temia e respeitava na indústria: seu principal concorrente, Bruno Ramalho.
"Bruno, é a Clara Mendes. Eu deixei o Dante. Preciso de um lugar para ficar e estou procurando um novo emprego. Estou com meu portfólio."
Meu celular vibrou quase instantaneamente. Uma resposta de Bruno.
"Já era hora. A suíte de hóspedes da minha cobertura é sua. Estou abrindo uma garrafa de champanhe. Bem-vinda ao time vencedor."
Uma foto se seguiu: uma garrafa de Dom Pérignon gelando em um balde de gelo.
Eu sorri pela primeira vez em anos. Bruno vinha tentando me contratar há anos, dizendo que sabia que eu era o verdadeiro talento por trás do escritório Almeida. Eu sempre recusei por um senso equivocado de lealdade.
Minha principal motivação não era Bruno, nem o emprego, nem o dinheiro. Era provar para Dante, para sua família e para o mundo que eles não me fizeram. Eles apenas me seguraram.
Eu queria ver o escritório Almeida desmoronar sem mim. Eu queria vê-los perceber que o "nada" que eles descartaram tão descuidadamente era, na verdade, tudo.
Horas depois, os Almeida voltaram, suas risadas ecoando no hall de entrada. Eles esperavam me encontrar, arrependida e limpando.
Em vez disso, encontraram os destroços, agora frios e silenciosos.
"Clara!", gritou Griselda, a voz cheia de indignação. "Onde está essa mulher?"
Dante viu o brasão da família espatifado no chão. Então ele viu as cinzas na lareira, a forma distinta de uma moldura de quadro ainda visível. Seu rosto ficou pálido. Uma emoção indecifrável brilhou em seus olhos — não apenas raiva, mas algo como medo.
"Acho que... acho que ela foi embora por minha causa", disse Bia, fingindo inocência.
"Não é sua culpa, Bia", disse Dante automaticamente, confortando-a. "Ela é instável."
Ele pegou o celular e foi para o escritório para me ligar.
"Clara, onde diabos você está?", ele exigiu, a voz um rosnado baixo de posse.
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