
O Cruelíssimo Jogo de Amor do Meu Guardião
Capítulo 2
Alina Ferraz POV:
O ar no hall de entrada tinha gosto de cinzas. Meus ouvidos zumbiam e o mundo inclinou-se perigosamente. Encarei Ricardo, procurando por qualquer sinal dele, qualquer indício de que aquilo era uma piada cruel, mas seu rosto permaneceu impassível, seu olhar fixo em Larissa. Meu coração, que eu pensei já ter morrido mil mortes, encontrou uma nova maneira de se partir.
Larissa nos guiou para a sala de estar, seus movimentos fluidos e confiantes, como se fosse a dona do lugar. Ela me ofereceu um lugar no sofá de creme macio, uma nova adição que substituía o de couro gasto que eu costumava amar.
"Está com fome, querida?" ela perguntou, sua voz escorrendo uma preocupação açucarada. "Acabei de fazer um risoto de cogumelos incrível. Ricardo simplesmente adora."
Meu estômago se contraiu, um nó frio de náusea se formando lá no fundo. O cheiro rico e terroso do risoto, geralmente reconfortante, agora parecia zombar de mim. Era uma cena doméstica, quente e convidativa, mas eu me sentia como uma observadora alienígena, separada por uma vidraça impenetrável. A comida parecia veneno, um lembrete amargo de uma vida que eu cobicei e nunca tive.
Ricardo sentou-se ao lado de Larissa, sua mão repousando casualmente no joelho dela. Ele riu de algo que ela sussurrou, um som baixo e vibrante que costumava me arrepiar, mas agora apenas ecoava com uma dor oca. Suas cabeças estavam próximas, seus corpos alinhados, uma imagem perfeita e íntima de um casal profundamente apaixonado. Era uma cena arrancada dos meus sonhos mais agonizantes, agora se desenrolando em uma realidade vívida e esmagadora.
Eu não conseguia suportar assistir. Meu olhar caiu, fixando-se no padrão intrincado do tapete, qualquer coisa para evitar a visão de seu afeto sem esforço. Cada olhar compartilhado, cada toque gentil, era uma nova ferida, torcendo a faca mais fundo no meu peito.
"Eu... acho que vou subir para o meu quarto", murmurei, levantando-me do sofá. As palavras pareciam estranhas, forçadas. Eu precisava escapar, encontrar um lugar onde a felicidade deles não pudesse me alcançar.
O sorriso de Larissa não vacilou. "Ah, claro, querida. Você deve estar exausta. Ah, a propósito, espero que não se importe, mas eu tirei alguns daqueles arbustos velhos e feios do jardim. Eles estavam bloqueando a luz, sabe? E Ricardo concordou, eles precisavam ir."
Minha cabeça se ergueu bruscamente. Os arbustos velhos e feios. Meus arbustos. Os que eu plantei com meu pai, no dia seguinte à partida da minha mãe, um pequeno ato de desafio contra o vazio. A cada ano, eles floresciam com pequenas e desafiadoras flores brancas, um lembrete frágil de uma memória que se desvanecia.
"Os... os jasmins?" perguntei, minha voz mal um sussurro.
Ricardo finalmente olhou para mim, sua expressão indecifrável. "Larissa queria mais espaço para sua horta de ervas. É mais prático."
Prático. Esse era o Ricardo. Tudo se resumia à lógica, à utilidade. Meu coração, minhas memórias, nunca foram práticos.
"Certo", consegui dizer, a única palavra com gosto de poeira na minha boca. Minha voz estava desprovida de emoção, uma lousa em branco para combinar com a dele. A dispensa casual de algo tão precioso para mim pareceu um insulto final. Aqueles arbustos eram um elo tangível com meu passado, um confidente silencioso através de anos de solidão. Agora, eles se foram, substituídos pelas ervas práticas de Larissa.
Virei-me e me afastei, cada passo pesado, me arrastando ainda mais para o abismo do meu desespero. Eu só precisava do meu quarto, meu santuário, o único lugar onde eu poderia lamber minhas feridas em paz. Cheguei à porta familiar, minha mão tremendo levemente enquanto a empurrava.
Mas não era meu quarto.
As paredes, antes pintadas de um azul suave, agora eram de um carmesim vibrante e agressivo. Minha velha escrivaninha, empilhada com livros e esboços, desaparecera, substituída por um cavalete reluzente e uma tela meio acabada. O quarto zumbia com uma energia artística estranha, alienígena e hostil. Meu estômago despencou.
Ricardo apareceu atrás de mim, sua voz calma, seca. "Larissa precisava de um espaço de estúdio. Seu antigo quarto tinha a melhor luz." Ele gesticulou vagamente para a grande janela. "Nós mudamos suas coisas para o quarto de hóspedes no terceiro andar. É mais... privado."
Mais privado. Mais distante. Mais fora do caminho.
Assenti lentamente, incapaz de falar, incapaz de protestar. As palavras se alojaram em algum lugar na minha garganta, me sufocando. Meu quarto, meu último refúgio, fora sistematicamente desmontado, apagado, reaproveitado para outra pessoa. Para ela.
Meus olhos se desviaram para a tela no cavalete. Era um retrato, pintado vibrantemente. Ricardo. Seu perfil severo, mas suavizado, um toque de sorriso brincando em seus lábios, uma intimidade que eu nunca testemunhara. Abaixo do retrato, em pinceladas confiantes, havia uma data. Seis meses atrás.
Seis meses atrás. Muito antes de eu finalmente desistir de provocá-lo, muito antes de ser pega na delegacia. Muito antes de ele me trazer para "casa". Ele estava saindo com ela, amando-a, pintando-a. Tudo enquanto eu estava lá fora, desesperada por uma migalha de sua atenção, estourando cartões de crédito e me metendo em encrencas, acreditando tolamente que meu caos poderia abalá-lo de sua indiferença.
A percepção me atingiu como um maremoto, me afogando em um mar de traição e desespero esmagador. Ele havia seguido em frente. Ele nunca esteve comigo, não de verdade. Eu era uma criança a ser gerenciada, uma tutelada a ser abrigada, mas nunca amada. Nunca escolhida. Minha cabeça latejava, uma batida implacável de agonia. Meus joelhos enfraqueceram, e agarrei o batente da porta para não desabar.
Mais tarde naquela noite, enrolada no quarto de hóspedes estranho, as paredes carmesim do meu antigo espaço zombando de mim, rolei pelas redes sociais públicas de Larissa. Era um rolo sem fim de seu romance florescente. Fotos deles em galerias de arte, o braço dele ao redor dela. Ela rindo, radiante, agarrada ao lado dele. A linha do tempo era condenatória. Encontro após encontro, revelando um relacionamento que floresceu rapidamente, publicamente, apaixonadamente.
Então eu vi. Um vídeo. Ricardo, de joelhos, contra um cenário de luzes da cidade cintilantes, uma caixa de veludo aberta em sua mão. O grito de alegria de Larissa. Seu rosto, geralmente uma máscara de controle estoico, estava iluminado com afeto genuíno, uma ternura que fez meu estômago revirar.
"Quer casar comigo, Larissa Castro?" ele sussurrou, sua voz embargada de emoção.
A mesma voz que descartou meu amor como "doentio" e "infantil". A mesma voz que nunca me disse aquelas palavras, nem mesmo em afeto casual.
Ele a amava de verdade. Isso não era um arranjo, um show falso para mim. Isso era amor de verdade, do tipo que eu sempre desejei dele. E ele estava dando a outra pessoa, tão facilmente, tão livremente. Todo o calor, todo o afeto, toda a conexão profunda e duradoura que eu ansiava, ele oferecia a ela sem pensar duas vezes. Para mim, era dever frio; para ela, era devoção sem limites. A percepção foi um golpe final e devastador. Meu coração não estava apenas partido; estava pulverizado.
Assisti ao vídeo até meu celular morrer em minhas mãos, a tela ficando preta, me deixando na escuridão sufocante. O sono não veio, não podia vir. Minha mente repassava cada momento terno, cada olhar amoroso, cada risada cheia de alegria dos vídeos. A imagem de Ricardo, de joelhos, seus olhos cheios de adoração, queimava por trás das minhas pálpebras.
Pouco antes do amanhecer, um som abafado veio do andar de baixo. Um gemido suave, depois um murmúrio baixo e masculino. A cobertura foi projetada para isolamento acústico, mas no silêncio opressivo da noite, com meus sentidos hiperalertas, os sons íntimos se propagaram. Meu corpo enrijeceu, um pavor frio subindo pela minha espinha. Meu coração batia forte, um tambor frenético contra minhas costelas. Eram eles. Ricardo e Larissa. Os sons eram inegáveis, inconfundíveis.
Uma onda de humilhação, ardente e crua, me invadiu. Tapei a boca com as mãos, abafando um soluço. Minhas bochechas queimavam, meu corpo inteiro rígido de choque e autoaversão. Eu queria desaparecer, sumir no ar, escapar da realidade esmagadora que se desenrolava apenas alguns andares abaixo de mim.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, silenciosas e escaldantes. Rastejei para debaixo das cobertas, puxando o edredom sobre a cabeça, como se aquela barreira frágil pudesse bloquear a verdade. Os sons continuaram, uma sinfonia cruel de sua felicidade, sua intimidade, seu vínculo inegável. Eu não conseguia respirar. Não conseguia pensar. Tudo o que eu sabia era uma necessidade avassaladora e desesperada de estar em qualquer lugar, menos aqui. Eu tinha que ir embora. Para sempre.
Na manhã seguinte, desci as escadas furtivamente, meus olhos ardendo de uma noite sem dormir, minha alma pesada com uma determinação que eu não sabia que possuía. Ricardo estava no balcão da cozinha, não sozinho. Larissa estava com ele, empoleirada em um banquinho, seu cabelo ruivo flamejante um toque vibrante contra seu terno escuro. Ele estava gentilmente escovando o cabelo dela, seus dedos ternos, seu olhar suave. Ele estava fazendo por ela o que nunca fizera por mim.
Minha garganta parecia crua. Limpei-a, forçando uma expressão neutra no rosto. "Estou indo para a faculdade", anunciei, minha voz monótona, sem emoção.
Ricardo apenas assentiu, seus olhos ainda em Larissa. Ele não se despediu, não perguntou quando eu voltaria. Ele nem mesmo registrou verdadeiramente minha presença. Minhas palavras pairaram no ar, não ouvidas, não reconhecidas.
Uma profunda sensação de vazio se instalou sobre mim. Não havia lugar para mim aqui. Não mais. Eu era uma intrusa, um fantasma assombrando uma casa que não era mais minha. Isso não era apenas uma ausência física; era emocional. Eu fui apagada.
Saí pela porta e não olhei para trás. Fui direto para a secretaria da universidade. Eu precisava de um novo caminho, um novo futuro, um que não envolvesse Ricardo Veiga ou o peso esmagador de sua indiferença. Eu precisava de uma saída.
Encontrei a Professora Helena Matos, minha orientadora acadêmica, em seu escritório, cercada por pilhas de trabalhos de pesquisa. "Professora Helena", comecei, minha voz firme apesar da turbulência interna, "gostaria de perguntar sobre as oportunidades do programa de pós-graduação antecipada. Aquele em Campinas."
Ela ergueu os olhos, seus óculos empoleirados no nariz. "Alina? O programa da Unicamp? Eu te ofereci isso no semestre passado, e você recusou. Disse que tinha 'outros compromissos'." Suas sobrancelhas se ergueram, um toque de surpresa em seu tom.
Baixei o olhar, um lampejo de vergonha surgindo. "Eu sei, professora. Eu... cometi um erro. Mas agora estou pronta. Estou verdadeiramente pronta. Quero me inscrever. Eu preciso disso."
Minha voz falhou na última palavra, traindo o apelo desesperado por dentro. Encontrei seu olhar, implorando silenciosamente por uma chance de escapar da minha realidade sufocante.
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