
O Cruelíssimo Jogo de Amor do Meu Guardião
Capítulo 3
Alina Ferraz POV:
No passado, minhas ameaças de deixar Ricardo eram sempre apelos mal disfarçados por atenção. "Vou me mudar", eu declarava, minha voz tingida de uma bravata artificial, secretamente esperando que ele segurasse meu braço, me dissesse que eu estava sendo tola, que meu lugar era aqui com ele. Ele nunca o fez. Ele simplesmente assentia, sua expressão indecifrável, e dizia: "Se você realmente acredita que é o melhor, Alina, você tem meu apoio."
Suas palavras eram como um banho de água fria, apagando qualquer faísca restante de desafio. Ele nunca lutou por mim. Nunca.
Mas desta vez, era diferente. Desta vez, enquanto eu estava no escritório da Professora Helena, meu coração não doía para que ele me impedisse. Doía por uma fuga. Eu não esperava uma reação; eu esperava um novo começo. Eu não diria a ele que estava indo embora. Eu simplesmente iria.
A Professora Helena me estudou por um longo momento, seu olhar surpreendentemente gentil. "A vida é uma série de escolhas, Alina", ela disse, sua voz suave, mas firme. "Algumas são feitas por você, mas as mais importantes você tem que fazer por si mesma. E às vezes, a escolha mais difícil é a que te liberta."
Ela empurrou os óculos para cima no nariz. "O programa da Unicamp é altamente competitivo. Você precisaria concluir todos os seus projetos finais, enviar uma proposta de pesquisa estelar e garantir uma carta de recomendação minha. Tudo em um mês."
Uma nova onda de lágrimas ardeu em meus olhos, mas eu as pisquei de volta ferozmente. Era isso. Minha tábua de salvação.
"Eu farei isso, professora", sussurrei, minha voz embargada de emoção. "Eu prometo. Não vou te decepcionar."
A determinação, feroz e inflexível, queimou através de mim.
Mergulhei nos meus estudos com um foco singular e desesperado. Dias se transformaram em noites, alimentados por cafeína e um impulso implacável. Eu acreditava que, se me mantivesse ocupada o suficiente, se trabalhasse duro o suficiente, a dor ardente no meu peito diminuiria, o vazio se preencheria e eu finalmente superaria o fantasma da indiferença de Ricardo. Era uma mentira, um escudo frágil contra a agonia, mas era tudo o que eu tinha.
Uma noite, voltei cambaleando para a cobertura, a hora tardia, o prédio estranhamente silencioso. Abri a porta do quarto de hóspedes — meu novo quarto — e congelei. Ricardo estava lá, sentado na beira da cama, um livro aberto em seu colo. Ele ergueu os olhos, seus olhos escuros encontrando os meus.
Meu coração deu um solavanco estranho, uma mistura de medo e um lampejo indesejado da velha esperança. Agarrei minha mochila com mais força, minha guarda imediatamente erguida.
"Ricardo", eu disse, minha voz monótona, cautelosa.
Ele fechou o livro, colocando-o cuidadosamente na mesa de cabeceira. Em sua mão, ele segurava um pequeno medalhão de prata. Meu medalhão. Aquele com a foto do meu pai dentro, que ele me dera no meu décimo aniversário. Eu não o usava há anos, tinha esquecido dele no caos da minha mudança.
"Eu encontrei isso", ele disse, sua voz mais suave do que eu esperava. "Estava na gaveta da sua antiga escrivaninha."
Uma pontada, aguda e inesperada, torceu meu peito. Aquele medalhão. Um pedaço tangível do meu pai, um símbolo do amor que eu perdi, o amor que Ricardo substituiu. Ele o segurava com tanta delicadeza, quase reverentemente. Meu olhar demorou nele, uma ponte frágil para um passado que parecia cada vez mais distante.
Permaneci em silêncio, incapaz de reconciliar este gesto gentil com a frieza que ele me mostrara por meses. Suas ações eram um emaranhado confuso de cuidado e desapego, me puxando em direções opostas.
Ele interpretou mal meu silêncio. Sua voz suavizou ainda mais. "Alina, eu sei que você está chateada. Mas fugir, causar problemas... não é a resposta. Não fique com raiva de mim."
Suas palavras eram quase um apelo, mas a suposição subjacente de que eu estava meramente "com raiva" ou "emburrada" foi como um tapa.
Seu calor inconsistente era uma armadilha cruel. Em um minuto, ele estava me cortando de sua vida, no seguinte, ele estava segurando uma memória preciosa. Era um ciclo que eu conhecia muito bem — sua preocupação branda, meu apego desesperado, seguido por sua retirada inevitável. Esse empurra e puxa era exaustivo, um dreno constante em minhas reservas emocionais.
Era doentio, esse constante chicote emocional. Meu amor por ele, antes um fogo rugindo, era agora uma brasa fumegante, ocasionalmente se inflamando com uma rajada cruel de vento, apenas para ser extinta novamente. O peso de tudo isso, o ciclo interminável de esperança e desespero, me deixou sentindo totalmente esgotada, oca.
"Não estou com raiva, Ricardo", eu disse, minha voz firme, desprovida da emoção que se agitava dentro de mim. "E não estou 'emburrada'."
As palavras eram verdadeiras. Eu não estava mais com raiva; eu estava apenas... farta.
Ele franziu a testa, um lampejo de irritação em seus olhos, mas não insistiu. Ele sempre odiava quando eu não me encaixava em suas caixinhas arrumadas de emoção. Ele tirou um convite ornamentado do bolso, o papel cartão pesado brilhando sob a luz suave da lâmpada. Ele me entregou.
"Meu escritório está organizando sua gala de caridade anual na próxima semana. É um evento importante. Espero que você esteja lá."
Não era um pedido. Era uma ordem, entregue com a autoridade silenciosa que ele sempre exercia.
"Ok", respondi, a única palavra uma rendição silenciosa. Eu não tinha energia para lutar com ele.
"E Alina", ele acrescentou, sua voz endurecendo ligeiramente, "não faça uma cena. Larissa estará lá. Não quero que ela fique chateada."
A ameaça não dita pairava pesada no ar. Sua prioridade, como sempre, era ela. Os sentimentos dela. Não os meus.
A dor familiar no meu peito se intensificou. Eu não consegui me conter. "Você a ama, Ricardo?"
As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las, cruas e desesperadas.
Ele simplesmente olhou para mim, seus olhos escuros, sem piscar, indecifráveis. O silêncio se estendeu, longo e agonizante. Ele não disse nada. Mas em seus olhos, no sutil aperto de sua mandíbula, na maneira como ele evitou meu olhar, eu vi. A resposta. Um claro e inegável "sim".
Na manhã seguinte, tentei deslizar para o banco do passageiro de seu carro, aquele que eu sempre ocupei, uma tradição silenciosa. Mas uma bolsa de grife, transbordando com os materiais de arte de Larissa, estava lá, um marcador vibrante e inegável de sua presença. Era uma bolsa nova, cara, uma declaração flagrante de seu território.
Larissa saltou da cobertura, seu cabelo ruivo capturando a luz da manhã. "Ah, Alina!" ela disse animadamente, um sorriso conhecedor brincando em seus lábios. "Esse lugar é meu agora, querida. Ricardo diz que eu enjoo no banco de trás."
Ela piscou, um gesto cruel e brincalhão.
Meu estômago despencou. Ela não apenas tomara meu lugar em seu coração; ela estava sistematicamente me apagando de todos os cantos de sua vida. Até o banco do passageiro, meu pequeno e familiar conforto, agora era dela. Fui substituída. Completamente.
Mudei para o banco de trás, encolhendo-me no canto, uma sombra pequena e insignificante. A viagem foi uma sinfonia de suas risadas compartilhadas, suas brincadeiras fáceis, a mão de Larissa muitas vezes repousando no braço de Ricardo. Eles discutiram arte, direito, seus planos para o fim de semana. Eu ouvi, minha presença despercebida, um vazio silencioso e doloroso no fundo. Suas palavras, sua intimidade, pressionavam-me, sufocando-me com sua felicidade sem esforço.
A gala foi realizada em um salão grandioso e opulento. O ar zumbia com conversas sussurradas e o tilintar de taças de champanhe. Larissa, deslumbrante em um vestido carmesim, levou Ricardo a uma exibição proeminente.
Minha respiração ficou presa. Era uma pintura, enorme e impressionante, dominando a parede. Um redemoinho vibrante, quase violento de cores, retratando o rosto de uma mulher, devastado por lágrimas, seus olhos arregalados com uma dor crua e primal. Era um autorretrato, a assinatura de Larissa ousada e inconfundível no canto.
"Esta", anunciou Larissa, sua voz ressoando com paixão performática, "chama-se 'A Musa Não Correspondida'. É sobre a natureza sufocante de um amor que nunca pode ser retribuído, a agonia de ansiar por alguém que te vê como nada mais que uma criança."
Ela olhou para mim então, seus olhos brilhando com uma malícia triunfante. "Você entende, Alina?"
Senti um pavor frio se espalhar por minhas veias. Ela sabia. Ela tinha visto através de mim, através do meu coração partido, através do meu amor desesperado e não dito por Ricardo.
"Eu-"
"É uma peça poderosa, não é?" Larissa interrompeu, virando-se para Ricardo com um sorriso deslumbrante. "Então, querido, o que você acha? Meu trabalho mais pessoal."
Ricardo estudou a pintura, sua expressão em branco. Então, ele falou, sua voz seca e precisa, desprovida de emoção. "É... vívido. Mas acho essas exibições abertas de afeto não correspondido... cansativas. Doentias, até. Falam de uma falta de maturidade."
Suas palavras me atingiram, um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Ele estava falando de mim. Ele estava dissecando minha alma, minha dor mais profunda, e considerando-a imatura. Larissa pintara meu coração partido, e Ricardo o desprezara publicamente. A humilhação era um inferno ardente, consumindo cada pedaço da minha dignidade.
Minha visão embaçou. Minha cabeça ficou leve, minhas pernas instáveis. Eu não conseguia respirar. Tinha que sair. Virei-me abruptamente, tropeçando para longe da pintura, dele, dela.
"Alina, você está bem?" A voz de Larissa, tingida de falsa preocupação, me seguiu. "Você parece um pouco pálida, querida. Minha arte te afetou tanto assim?"
Cerrei a mandíbula, forçando um sorriso apertado e desdenhoso. "Estou bem, Larissa. Apenas um pouco sobrecarregada pela... profundidade emocional pura", eu disse, o sarcasmo grosso o suficiente para cortar com uma faca.
Ela riu baixinho. "Claro. Bem, se precisar de alguma coisa, estou aqui. Somos família agora, afinal." Ela deu um passo mais perto, sua voz caindo para um sussurro conspiratório. "Deixe-me andar com você. Você parece que vai desmaiar."
Mas sua bondade fingida desapareceu assim que estávamos a alguns passos de Ricardo. Seus olhos endureceram, seu sorriso se torcendo em um escárnio venenoso.
"Não pense que não percebi, garotinha. Todos os seus joguinhos patéticos, suas tentativas desesperadas de se agarrar a ele. Acabou. Ele me escolheu. E sempre vai me escolher." Sua voz era um silvo baixo e perigoso, mal audível acima do murmúrio geral da multidão. "Ele só quer que você suma."
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