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Capa do romance O Conde E Eu

O Conde E Eu

Na Inglaterra vitoriana, a audaciosa escritora Eleanor Ashford desafia normas sociais ao cruzar o caminho do enigmático Conde de Ravenshire. Assombrado pelo passado, o nobre firma um contrato formal com Eleanor que logo evolui para um jogo perigoso de paixão e segredos. Entre bailes luxuosos e cartas proibidas, ela oscila entre dever e desejo, enquanto ele perde o controle sobre os próprios sentimentos. É uma trama intensa de redenção, erotismo e vingança.
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Capítulo 2

Os corredores de Ravenshire pareciam mais escuros do que Eleanor se lembrava. Talvez fossem as cortinas pesadas, ou talvez fosse ele - Edward, o homem cuja sombra agora voltava a cobrir a propriedade como uma névoa fria. Quando partira, jurara a si mesma que esqueceria seu nome. Agora, ali estava ele, cruzando portas como se ainda fosse o dono de tudo, inclusive dela.

Mas ela não era mais aquela garota que escrevia cartas em noites de tempestade e esperava uma resposta que jamais viria.

Subiu as escadas em direção ao quarto que lhe haviam reservado - não o de convidada, tampouco o de condessa. Ainda era cedo para reclamar tal título. O casamento precisava ocorrer primeiro. Um papel assinado. Uma aliança no dedo. Uma cerimônia diante de uma sociedade faminta por escândalos.

- Lady Ashford - chamou uma criada, apressada atrás dela.

Eleanor parou no corredor e virou-se, paciente.

- Sim, Molly?

- Há uma correspondência vinda de Londres. Entregaram hoje cedo.

Eleanor estendeu a mão e tomou o envelope selado. O brasão em cera vermelha era inconfundível: o selo da Baronesa Fairmont, sua antiga patronesse e, durante algum tempo, algo próximo de uma mentora. No entanto, nada com aquela mulher vinha sem segundas intenções.

- Obrigada, Molly. Pode ir.

Trancou-se no quarto e, com dedos cuidadosos, rompeu o selo. A carta era curta, mas carregava veneno nas entrelinhas:

"Querida Eleanor,

Soube de tua união iminente com o Conde de Ravenshire. Não posso senão parabenizá-la - ou lastimá-la, a depender do ponto de vista. Lembro-me bem da última vez em que mencionaste o nome dele com tanto veneno na língua quanto um escorpião. Diga-me, minha cara, és capaz de conviver com um homem que outrora fugiu do altar como um covarde? Ou estás prestes a vingá-lo com o chicote de tua própria astúcia?"

Com um misto de saudades e cinismo,

Baronesa A. Fairmont

Eleanor suspirou. Todos sabiam. E, pior, todos esperavam algo dela - seja uma reconciliação poética ou uma tragédia pública. Talvez, pensou, pudesse lhes oferecer ambos.

Na manhã seguinte, o sol finalmente rompeu as nuvens, mas a luz pouco fazia para dissipar o frio dentro da casa. Eleanor caminhava pelos jardins ao lado de Lady Beatrice, uma viúva idosa e vizinha constante da família Blackwell. A velha senhora era uma das poucas pessoas que ousava falar abertamente sobre as desgraças da aristocracia.

- O conde voltou com mais rugas e menos sorrisos - comentou ela, sem cerimônia. - Espero que não espere amor dele. Homens assim não sabem amar.

Eleanor sorriu, triste.

- Não espero amor. Apenas que cumpra sua parte.

- Então já estás adiantada à maioria das mulheres que conheço. - Lady Beatrice deu de ombros. - Mas cuidado, minha jovem. Homens perigosos se tornam ainda mais perigosos quando obrigados a obedecer uma mulher.

Naquele instante, um passo ecoou atrás delas.

- Não costumo obedecer ninguém, Lady Beatrice - disse Edward, aproximando-se com um sorriso ladeado. - Mas posso fazer exceções para senhoras respeitáveis.

A idosa ergueu uma sobrancelha, divertida.

- Milorde, achava que ainda dormia. Os demônios já o acordaram tão cedo?

- Eles nunca dormem - respondeu ele, com um toque de ironia.

Eleanor observava os dois, tentando decifrar se o conde estava se esforçando para parecer afável ou se aquilo era sua forma natural de seduzir até as pedras. De qualquer forma, funcionava. Lady Beatrice riu, tocando-lhe o braço.

- Deixo-vos a sós. Imagino que tenhas coisas mais interessantes a discutir com a futura condessa.

Assim que ficaram a sós, Eleanor cruzou os braços.

- Vieste espionar-me?

- Vim caminhar - respondeu ele. - Mas, se por acaso esbarrei em ti, creio que não é um crime.

- Tudo que fazes parece sempre um acidente. Uma fuga. Uma ausência.

Edward arqueou uma sobrancelha.

- Estás colecionando mágoas ou tentando me punir?

- Talvez os dois.

- Eu poderia dizer que sinto muito - disse ele, dando um passo mais perto -, mas estaríamos ambos mentindo. Nunca fui bom com arrependimentos.

- Fica melhor com promessas quebradas - replicou ela.

Eles se entreolharam. A tensão entre os dois parecia uma corda esticada sobre fogo. E, por um instante, nenhum deles falou. O vento brincava com os cabelos soltos de Eleanor, e Edward quase estendeu a mão para tocá-los. Quase.

- O casamento será público - disse ela, mudando de assunto. - E será no fim do mês. Precisamos publicar o anúncio.

- Já tão decidida?

- Não vim até aqui para hesitar.

Ele assentiu, admirando a firmeza dela. Estava diferente. Menos ingênua, mais letal.

- Muito bem, então. Casaremos no dia trinta. E depois?

- Depois? - ela inclinou a cabeça. - Depois você me deixará em paz.

Ele sorriu, irônico.

- Isso nunca foi parte do contrato.

Na noite seguinte, Eleanor decidiu percorrer os corredores da mansão. Há muito perdera o sono, e a presença de Edward a deixava inquieta. Estava prestes a subir a escada principal quando ouviu vozes vindas da biblioteca. A porta estava entreaberta.

Ela aproximou-se em silêncio.

- ...não confio nela - dizia Edward. Era sua voz, mais rouca, mais baixa. - Eleanor quer algo, e não é só o título.

- E o que pensas que ela deseja? - perguntou outro homem. A voz era de Lachlan, o novo administrador da propriedade.

- Vingança. Controle. Talvez poder. Ela nunca me perdoou por tê-la abandonado. E sabe usar isso com habilidade.

Eleanor se afastou da porta com o coração apertado. Talvez ele estivesse certo. Talvez tudo aquilo fosse mesmo sobre poder. Mas era ele quem a obrigava a isso. Um homem que retorna sete anos depois como se nada tivesse acontecido não merecia compaixão. Merecia... resposta.

No entanto, ao voltar ao quarto, encontrou algo inesperado sobre a cama: uma rosa branca.

Sem bilhete. Sem assinatura. Apenas a flor, fresca, perfumada, ainda com orvalho.

Ela soube de imediato que fora ele.

E por mais que sua razão mandasse ignorar o gesto, seu corpo - esse traidor - reagiu com calor.

Eleanor deitou-se com a rosa entre os dedos e, antes de dormir, pensou em algo que não ousava confessar nem a si mesma:

Parte dela ainda o queria.

Na manhã seguinte, o anúncio do casamento fora publicado no The London Gazette. Os nomes estavam lá, lado a lado, como se formassem uma unidade inquebrantável: O Conde Edward Blackwell e Lady Eleanor Ashford anunciaram oficialmente sua união, marcada para o dia trinta do corrente mês, em Ravenshire Hall.

A notícia espalhou-se como pólvora, acompanhada de comentários sussurrados, especulações e apostas sobre quanto tempo duraria tal união. Eleanor ignorava as cartas e bilhetes que chegavam a cada hora. Mas havia um nome entre os remetentes que a fez hesitar: Alistair Thorne, seu antigo pretendente - e inimigo declarado de Edward.

Ela não o via desde que recusara sua proposta dois anos atrás. E agora ele escrevia:

"Querida Eleanor,

Fiquei surpreso ao saber que decidiste entregar tua mão a alguém que a desprezou por tantos anos. Sei que tua inteligência não se curva facilmente a convenções, então pergunto: o que esperas ganhar com isso? Se precisares de um aliado, sabes onde me encontrar.

Com respeito e lembrança,

Alistair"

Ela fechou a carta com dedos trêmulos.

A guerra entre corações e interesses estava só começando.

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