
O Conde E Eu
Capítulo 3
O saguão de Ravenshire encheu-se de movimento conforme os dias passavam. Costureiras, floristas, mordomos e chefes de cerimônia entravam e saíam como peças de um tabuleiro cuidadosamente manipulado por mãos invisíveis. Tudo precisava estar perfeito - e tudo seria observado.
Eleanor observava tudo do alto da sacada central, com o diário fechado sobre o colo e a mente ainda agitada pela carta de Alistair Thorne. Ele era perigoso, mas havia um charme na maneira como ameaçava sem erguer a voz. Ainda assim, aceitar sua oferta seria o mesmo que incendiar o castelo antes de entrar. E ela não podia - ainda não.
- Lady Ashford - anunciou o mordomo, interrompendo seus pensamentos. - Um convite chegou de Lady Mortimer. Um baile exclusivo para os noivos da temporada. Espera-se vossa presença... e a de Lorde Ravenshire, naturalmente.
Eleanor ergueu os olhos, o coração pesando. Baile. Público. Olhares. Dança.
- Diga que aceitaremos - respondeu, com calma ensaiada. - Será o primeiro de muitos.
Naquela noite, Eleanor foi até a ala oeste da mansão. O lado onde Edward ficava. O convite exigia planejamento, trajes, aparência. Mas também exigia uma encenação: a de um casal que se suportava, que sorria, que conhecia as rotinas e preferências um do outro.
Bateu duas vezes na porta. Nada.
Abriu mesmo assim.
Edward estava à meia luz, a camisa aberta no peito, os cabelos úmidos, recém-saído do banho. Ele olhou por cima do ombro, sem surpresa.
- Achei que já não batias antes de invadir.
- Achei que já não te importavas.
Ele riu, baixo.
- Toque justo. A que devo a honra?
Ela aproximou-se e estendeu o convite.
- Lady Mortimer. Baile. Esta sexta. Teremos que dançar.
- A velha Mortimer ainda insiste em ver jovens sofrendo sob seus lustres. - Ele pegou o papel com desdém. - Supõe-se que fingiremos gostar um do outro?
- Não. Suponho que faremos parecer que podemos coexistir sem nos matar.
Ele sorriu com ironia. Deixou o papel sobre a mesa e foi até a garrafa de uísque.
- E o que espera que eu vista? - perguntou, virando o líquido âmbar no copo.
- Algo que pareça nobre. Discreto. E caro. - Ela hesitou antes de acrescentar: - Teremos os olhos de Londres sobre nós.
- Eles nunca deixaram de nos observar, Ellie.
Ela odiava aquele apelido nos lábios dele. Porque o fazia lembrar.
Antes que pudesse retrucar, ele se aproximou com o copo em mãos.
- Acredita que enganarão todos com um simples baile?
- Não quero enganar. Quero controlar a narrativa.
- Então controla a mim - murmurou ele, tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo, o leve cheiro de especiarias e tabaco. - Consegue?
Ela o encarou com firmeza. Uma batalha muda, de vontades, orgulhos e feridas antigas.
- Ainda não. Mas vou conseguir.
O baile de Lady Mortimer era o evento da temporada. Na sexta-feira, carruagens bordadas se alinhavam diante do portão da propriedade Mortimer, enquanto os convidados atravessavam os salões dourados com taças de champanhe, plumas e expectativas.
Eleanor surgiu como uma deusa entre os mortais.
Vestia-se de prata líquida, um cetim que escorria pelo corpo, moldando-lhe as curvas e expondo mais do que a aristocracia costumava aceitar. Mas não era vulgar. Era o tipo de provocação elegante que obrigava qualquer um a parar e notar. O decote era preciso, o bordado, letal. E os olhos? Dois cacos de gelo em brasa.
- Parece que preferes guerra em vez de paz - disse Edward ao vê-la.
Ele usava um terno preto de corte impecável, a gravata prata refletindo a luz das velas. Lindo demais para um homem tão perigoso.
- Guerra atrai mais aliados do que submissão - respondeu ela, aceitando o braço dele sem hesitação.
Eles entraram juntos no salão, uma pintura viva daquilo que a sociedade mais desejava ver: escândalo, poder, beleza e mistério.
Lady Mortimer veio recebê-los com entusiasmo artificial.
- Conde! Lady Ashford! Que prazer finalmente vê-los lado a lado. Londres anseia por vosso enlace.
- Então lhes daremos o espetáculo que merecem - disse Eleanor, sorrindo como se não escondesse uma lâmina na manga.
As danças começaram. Primeiro as formais, seguidas pelas mais íntimas. Quando o mestre de cerimônias anunciou a valsa, Edward estendeu a mão a Eleanor sem ironia.
- Uma dança, minha quase condessa?
Ela hesitou apenas um segundo. Depois aceitou.
Os dois deslizaram pelo salão como se sempre tivessem sido amantes - ou rivais. Ele guiava com perfeição. Ela, com altivez. O toque das mãos, firme. O olhar, um duelo.
- Está aproveitando o espetáculo? - sussurrou ele, os lábios quase roçando sua orelha.
- Estou comandando-o.
- E se eu quiser tomar o controle?
- Tarde demais, Edward. Já estás dançando conforme minha música.
Ele riu, e pela primeira vez em anos, foi genuíno.
- A Ellie de antes jamais falaria assim.
- A Ellie de antes morreu quando esperou tua carta por três anos.
Silêncio.
Ele a puxou mais para perto, tão perto que ela sentiu seu coração bater.
- Talvez eu devesse lamentar.
- Talvez devesse mesmo.
A música acabou. Eles pararam. E a sala explodiu em aplausos, não pela música, mas pelo que os dois representavam: um escândalo renascido, um casal que prometia incendiar toda a temporada.
Mais tarde, quando estavam prestes a deixar o baile, um criado entregou a Eleanor um envelope preto. Sem remetente. Sem lacre.
Ela o abriu ali mesmo, sob a luz do saguão, com Edward ao lado.
Dentro havia apenas uma frase escrita com tinta vermelha:
"Você não pode controlá-lo. Mas eu posso destruí-lo."
Edward olhou por cima do ombro dela. A expressão endureceu.
- Quem te mandou isso?
Eleanor dobrava o papel com calma.
- Alguém que não entendeu a mensagem. Ainda estou no comando.
Mas por dentro, ela sabia: o passado estava se movendo. E eles não estavam mais sozinhos nesse jogo.
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