Capa do romance O Conde E Eu

O Conde E Eu

9.0 / 10.0
Na Inglaterra vitoriana, a audaciosa escritora Eleanor Ashford desafia normas sociais ao cruzar o caminho do enigmático Conde de Ravenshire. Assombrado pelo passado, o nobre firma um contrato formal com Eleanor que logo evolui para um jogo perigoso de paixão e segredos. Entre bailes luxuosos e cartas proibidas, ela oscila entre dever e desejo, enquanto ele perde o controle sobre os próprios sentimentos. É uma trama intensa de redenção, erotismo e vingança.

O Conde E Eu Capítulo 1

A chuva parecia ter escolhido exatamente aquele dia para cair com uma fúria melancólica, como se o céu lamentasse o retorno do Conde de Ravenshire tanto quanto os criados que aguardavam, enfileirados sob a marquise da propriedade. As gárgulas de pedra vertiam lágrimas do telhado, e os vitrais vibravam com o trovão distante.

O coche preto deslizou pelos portões de ferro fundido, rangendo como se também protestassem contra a chegada. Dentro dele, o homem que há anos abandonara seu título olhava pela vidraça em silêncio, os olhos cinzentos fixos na silhueta do que um dia fora seu lar - e que agora mais parecia uma sepultura de lembranças.

Edward Alexander Blackwell, o nono Conde de Ravenshire, retornava após uma ausência de sete anos. O escândalo que o fizera partir fora abafado pelos boatos e pela distância, mas as cicatrizes permaneciam abertas em sua alma - e, ao que tudo indicava, também na mansão que parecia ter parado no tempo desde sua partida.

Assim que o coche parou, o lacaio abriu a porta. Edward desceu com um passo firme, mas seus olhos percorreram o saguão com a hesitação de quem retorna não por desejo, mas por obrigação. O cheiro de madeira envelhecida e rosas secas o atingiu com força. Nada havia mudado, exceto ele.

- Milorde - disse o mordomo, inclinando-se com a precisão de décadas de serviço. - Seja bem-vindo de volta a Ravenshire.

Edward apenas assentiu. Estava cansado, molhado e, acima de tudo, incomodado com a ideia de estar de volta àquele lugar. O testamento de seu pai havia sido claro: ele deveria retornar, assumir suas responsabilidades, ou a linhagem dos Blackwell se extinguiria por negligência.

E havia Eleanor.

Mas dela ele não se permitia lembrar. Ainda não.

Subiu as escadas pesadas, ignorando os criados que o seguiam com o olhar. A biblioteca o esperava como um velho amigo calado. Empurrou as portas com ambas as mãos, e o cheiro de pergaminhos e couro invadiu seus sentidos. A lareira estava acesa, como se alguém soubesse que ele iria direto para lá.

E, de fato, alguém sabia.

- Milorde. - A voz suave cortou o silêncio com uma elegância que apenas mulheres extremamente bem treinadas - ou perigosamente inteligentes - sabiam usar.

Ele se virou, o coração traidor acelerando por um instante.

Eleanor Ashford estava encostada em uma estante, trajando um vestido azul escuro, de mangas longas, com detalhes em renda preta. Seu cabelo castanho, preso em um coque frouxo, deixava fios rebeldes caírem sobre o rosto. Ela não sorriu. Não o cumprimentou. Apenas o olhou como se sete anos não tivessem passado.

- Lady Eleanor - disse ele, formal, erguendo levemente o queixo.

- Ainda é "Lady" mesmo depois de tudo? - ela replicou, sem alterar o tom.

Edward a observou em silêncio por longos segundos. Em sua ausência, Eleanor crescera, deixara de ser a jovem impulsiva que escrevia cartas ácidas e agora era uma mulher... perigosa. Não no sentido literal, mas no emocional. Sua presença o desarmava.

- Soube que publicaste um livro - ele comentou, andando até a lareira. - Um romance, não é?

- Com um conde canalha e uma jovem ingênua, sim. Inspirado em fatos reais, imagino que dirás. - Ela cruzou os braços. - Mas creio que vieste por outro motivo, milorde.

Ele serviu-se de um brandy e virou metade do líquido de uma vez.

- Meu pai está morto, Eleanor. Deixou ordens. Terras, dívidas, propriedades, contratos...

- ...e um acordo não cumprido.

Edward virou-se para ela. Seus olhos brilharam com algo entre raiva e confusão.

- Ainda te agarras àquilo?

- Era um contrato, Edward. Eu cumpri a minha parte. Você fugiu da sua.

A lembrança lhe caiu como gelo nas costas. Aos dezenove anos, ele havia sido prometido a ela por um acordo entre famílias, selado por interesses políticos e terras. Ele, orgulhoso e imaturo, recusara-se a aceitar o casamento. Fugira. Viajara pela Europa, tornara-se um homem frio, vivido, endurecido. Mas o contrato permanecera válido - e agora, com o conde morto, a cláusula era clara: ele teria de casar-se com Eleanor ou perderia Ravenshire para os Ashford.

Ela caminhou em sua direção, os saltos ecoando como um metrônomo que marcava o fim de sua liberdade.

- Não te quero por amor, Edward. Isso morreu com as cartas que nunca me respondeste. Quero o título. O que me é devido.

Ele a encarou, sério.

- E o que farás com ele?

Ela sorriu, fria.

- Ser condessa me cai bem. E pretendo transformar Ravenshire em algo útil. Talvez um centro literário. Ou um refúgio para mulheres abandonadas.

Ele quase riu. Quase.

- E eu, Eleanor? Onde fico nesse plano?

Ela aproximou-se tanto que ele pôde sentir o perfume de jasmim que ela sempre usara. Seus olhos castanhos eram abismos e espelhos ao mesmo tempo.

- Ficarás como sempre estiveste: à margem da minha história.

Sem mais palavras, ela se virou e saiu, deixando-o sozinho com sua bebida e o peso do passado. Mas Edward sabia - com a certeza cortante de um homem que já cometera todos os erros - que aquilo não terminaria ali.

Eleanor podia fingir indiferença, mas seus olhos... ah, seus olhos ainda o desejavam.

E ele pretendia explorar cada centímetro da fraqueza que ela negava possuir.

Mas não agora.

Agora, ele apenas precisava sobreviver à noite.

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