
O amor no Beco dos desesperados
Capítulo 2
À primeira vista, aquele local não passava de duas paredes alinhadas. Mas para aquelas sombras inquietas, que
por ali deslizavam, ele era uma espécie de degredo, retrato
de suas vidas, ou simplesmente purgatório, sobretudo para
aqueles que perderam as rédeas da carruagem chamada vida
e acabaram colidindo, inevitavelmente, com aquela espécie
de pocilga, onde havia de tudo: bêbados, drogados, andarilhos; embusteiros e corruptos; homens e mulheres de todas
as idades, ideologias, credos e nacionalidades, que conversavam, caminhavam, falavam ao celular, e também dormiam em
colchonetes ou esteiras de palha2
como se estivessem na pró-
pria casa, pessoas que, de alguma forma, sempre viveram em
um beco sem saída, eles apenas demoraram a perceber isso.
— ...Tá bom, pode ficar tranquilo, seu dinheiro está
seguro. Nossa corretora trabalha com as empresas mais
sólidas do mercado – argumentava por celular o rapaz de
trinta e poucos anos, camisa social listrada e calça azulmarinho, sentado numa pilha de três tijolos. Acima, um
cano de ferro gotejava. De repente, uma ratazana passousobre um de seus sapatos; ainda assim ele manteve a pose
e, com a firmeza daqueles que acreditam nas próprias mentiras, prosseguiu: – De jeito nenhum... Nós não fechamos
as portas... apenas estamos em fase de transição, mudando
para novas e modernas i n s... t a l a... ções – disse pausadamente, olhando meio sem graça para o precário lugar,
quando uma gota d’água caiu em sua testa.
Perto daquela cena patética, estava um senhor de cabelo grisalho, magro, estatura média, que aparentava ter
seus cinquenta e poucos anos, observando aquele diálogo
sem qualquer discrição, dando risadas e fazendo gestos
e expressões do tipo: “Humm... ai, ai, ai...” “Ih, lascou
tudo!”.
Sem se importar com seu vizinho indiscreto, o jovem
prosseguiu falando com seu cliente ao celular:
— Eu sei que esse dinheiro era para pagar sua cirurgia
do coração... Minha avó passou por isso, sabia? Hoje, a
veia tá nova, até casou-se de novo... – Naquele momento,
o rapaz foi interrompido bruscamente pelo cliente, que,
aos berros, praticamente o impediu de seguir com suas
escusas. – Calma, seu Fortunato, não é bem assim... Deixa
eu falar... Seu Fortunato! O senhor não pode se alterar...
Olha o coração... Seu Fortunato... Deixa eu falar, porra!...
Alô, alô!... Seu Fortunato?... Alô?!... Seu Fortunatoôô?
Alô, alô... Alôôôôôô!
Sem perder tempo, o senhor grisalho indagou, nitidamente dirigindo a palavra ao jovem desesperado:
— Xiii... será que o velho enfartou? – Sem obter resposta, o autor da piada sugeriu: – Por que não tenta ligarde volta?... Ops... Já ia esquecendo, aqui ninguém tem
crédito no celular. Oh, e não adianta olhar pra mim, o meu
tá sem crédito, sem bateria e sem carregador – disse, dando uma gargalhada.
O rapaz abaixou a cabeça e se manteve em silêncio. O
piadista estalou os dedos na sua direção e perguntou:
— Ei, tudo bem aí, amigo?
— Que pergunta mais idiota! Quem pode dizer que
está bem nesta merda? – finalmente se manifestou o
rapaz.
— Ei, não precisa ficar nervoso, aqui estamos todos
no mesmo barco, ou melhor, no mesmo beco. Deixe eu me
apresentar, me chamo Gerald.
— Prazer... Fabrício.
— Você fazia o que antes de vir pra cá? – perguntou
Gerald.
— Era corretor de valores.
— Cara, isso dá muito dinheiro. Como tu veio parar
aqui?
— Eu morava em Nova York, onde fiz fortuna no
mercado de ações, mas perdi muito dinheiro com a crise
dos créditos imobiliários de risco, o subprime. Já ouviu
falar?
— Claro. Tive um vizinho que perdeu a casa, a mulher
e o cachorro – disse o senhor grisalho, enquanto pegava
duas caixas de cervejas vazias que estavam jogadas num
canto, improvisando dois assentos. – Sente-se aí, meu rapaz, e continue.
— Daí, voltei para o Brasil, montei uma corretora,onde investi o resto do meu dinheiro e de meus clientes
em empresas ligadas ao Pré-Sal... e o resto tu já sabe...
O jovem tirou um maço de cigarros do bolso, acendeu
um, oferecendo outro ao amigo com um gesto, e perguntou em seguida:
— E tu, por que veio parar aqui?
— Dívidas, meu caro! Tô atolado até o pescoço – respondeu Gerald.
— Quem não está endividado neste mundo? – indagou Fabrício, irônico.
— Poucos como eu – disse, soltando um trago.
— Não entendi! Endividado é endividado em qualquer lugar!
— Meu caso é diferente. Meu credor não é banco,
loja, cartão de crédito ou qualquer uma dessas porcarias!
— Você deve pra quem... pro diabo?
— Pior, eu devo pras minhas ex-mulheres. Pensão alimentícia, e posso ser preso a qualquer momento.
— Você disse ex-mulheres???
— Sim. Tive cinco casamentos frustrados. No último,
quase me internei em um hospício.
— Ainda bem que nem penso em me casar! – salientou Fabrício.
— Mas sua hora vai chegar.
— Que nada! Casar hoje significa que cedo ou tarde
tu vai ter uma ex-mulher.
— Essa coisa de ex-mulher faz sentido no começo.
Depois que os filhos crescem, volta tudo! Você passa a
ter diferentes famílias e ex-mulheres, entende? É proble-ma pra tudo que é lado. A única diferença é que você vai
dormir apenas com uma, ou com nenhuma delas, que é o
meu caso.
Naquele momento, um senhor de estatura média e
acima do peso, com uma barriga saliente, narigudo, bigode, calvo, de uns sessenta e poucos anos, foi chegando
de mansinho, assoviando uma velha canção, e começou a
bater palmas.
— Sábias palavras.
Os dois amigos entreolharam-se sem entender a aproximação daquela figura, enquanto o homem, de forma
bem intimista, foi lhes estendendo a mão.
— Deixe-me apresentar, Astoufo Peçanha.
— ...Tá aqui também por causa de pensão? – perguntou Fabrício, com olhar desconfiado.
— Antes fosse. Não passo de um apresentador de TV
em fim de carreira – franziu a testa, numa leve expressão
de desânimo.
— Pera aí... eu me lembro de ti! – exclamou Fabrício.
– Astoufo Peçanha, do programa “Verdade Nua e Crua”!
— O próprio.
— Que puta sacanagem que fizeram te tirando do ar...
— Sair do ar foi o de menos. Tomei mais de 20 processos nas costas! O último deles perdi sem direito a recorrer. Resultado: fui obrigado a pagar uma indenização
de um milhão de reais.
— Por quê?
— Coloquei no ar a foto de um político que desviou
milhões dos cofres públicos.— Nossa! Só por causa disso?
— O problema é que na foto estavam a esposa, a sogra, os filhos e o cunhado do larápio. E o imbecil do câ-
mera se esqueceu de desfigurar a imagem deles – disse,
franzindo a testa e levando a mão à cabeça.
— Isso é o que eu chamo de mau enquadramento de
cena... – ironizou Fabrício.
De repente, Gerald fez um sinal de silêncio:
— Xiiiiiii... pera, pessoal! Parece que tá chegando
gente nova no beco.
Todos ali passaram a observar um sujeito chegando
de mansinho, com aparência de megaempresário, sapatos
bem lustrados, terno preto engomado, combinando com
a camisa branca sob a gravata vermelho-carmim, óculos
sobre as bochechas rosadas, cabelo liso, penteado para o
lado, aparentando uns 43 anos.
— Esse aí parece grã-fino! – disse Gerald, olhando
fixamente para o sujeito.
— A começar pelo sapato... – completou Astoufo.
— É brasileiro, é brasileiro! – comemorou Fabrício.
— Como é que você sabe? – perguntou Astoufo.
— O mestre de cerimônia deu as boas-vindas em
português.
— Pela elegância, podia jurar que era francês...
— Vou lá bater um papo com ele! – disse o gaúcho,
animado.
— Ei, ê, ê... pera aí! – intercedeu Gerald. – Deixa ele
ir sossegado.
— Pra onde ele tá indo? – perguntou Fabrício— Para onde todos vão, quando chegam aqui. Não se
lembra?
— Sim! Pro final do beco.
— Exatamente. É lá que ele vai começar a entender
que está em um beco sem saída.
— Mas de uma coisa vocês podem ter certeza: ele é
brasileiro e não desiste nunca! – comentou Astoufo.
— ...E vai sempre acreditar que existe uma saída –
completou Gerald.
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