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O amor no Beco dos desesperados

8.1 / 10.0
Em busca de fôlego criativo para sua próxima obra literária, o escritor Albert Archibald viaja até Paris. Em meio às ruas francesas, ele acaba encontrando o Beco dos Desesperados, um local singular que funciona como um verdadeiro santuário para aqueles que precisam enfrentar feridas emocionais. Nesse refúgio acolhedor, pessoas buscam superar traumas profundos e resolver conflitos internos, oferecendo a Albert uma nova perspectiva sobre a cura e a escrita.

O amor no Beco dos desesperados Capítulo 1

Paris, França.

Numa ensolarada tarde de domingo, eu terminava de tomar um café na rue Vieille du Temple, quando, ao pagar a conta, recebi de troco uma nota de 2 € (dois euros) na qual estava

escrito: allée de désespoir, ou “beco dos desesperados”.

Deixei o local sem maiores preocupações e, pouco

mais à frente, na esquina com a rue Barbette, me deparei

com uma mulher elegante, óculos escuros, vestido justo,

mostrando um bilhete para o guarda que, por sua vez, apontou na minha direção. Ela, que mais parecia ter saído de

um desfile prêt-à-porter1

primavera-verão, passou por mim

como uma locomotiva, deixando algo cair no chão. Abaixei-me e peguei o que parecia ser um bilhete. Olhei para

trás, e a misteriosa mulher havia sumido.

No bilhete estava escrito: Allée de désespoir.

— Beco dos desesperados... — murmurei para mim

mesmo.

Pouco depois, cheguei ao hotel com aquele nome na

cabeça.

O sol das cinco da tarde invadia o meu quarto pela ampla janela que eu acabara de abrir quando, diante dos meus

olhos, mais precisamente na rue des Francs Bourgeois, eu a vi novamente, andando na calçada. “A mesma mulher que

perdeu o bilhete”, pensei, eufórico.

— Ei, você! – gritei para ela, que replicou olhando

friamente na minha direção sem uma única contração de

face – cheguei a gelar – e, mais uma vez, ela saiu andando

apressada, puxando uma pequena mala de viagem, dessas

de rodinhas.

Sem perder tempo, saí do quarto, peguei o elevador e,

ao alcançar a rua, olhei para o caminho em que, supostamente, a mulher misteriosa teria seguido. Foi então que a vi

cruzando a esquina com a rue de Sévigné, desviando-se dos

transeuntes, mantendo o charme e a elegância, salto alto,

bolsa a tiracolo, ajeitando, de vez em quando, as mechas

longas que, com a ajuda do vento, estapeavam seu rosto.

Não demorou muito, ela, com seus invejáveis quase

um metro e oitenta de altura bem distribuídos, atravessava

a movimentada rue de Turenne numa confiança inabalá-

vel, como se tivesse certeza de que os motoristas jamais

resistiriam a frear diante de tamanha beleza. E foi o que

aconteceu. Repeti a sua ousadia e quase fui atropelado,

tendo que me esquivar de vários carros – cheguei a saltar

sobre o capô de um veículo Peugeot e, quase ao final da

minha difícil travessia, levei uma buzinada do motorista

de um Citröen vermelho que, após frear bruscamente, esbravejou:

— Hey son fou! Voulez-vous mourir? [*Ei, seu louco!

Você quer morrer?]

Neste momento, a mulher misteriosa se assustou, olhou

para trás, e apertou ainda mais o passo.Então, iniciei uma emocionante perseguição pelas ruas

de Paris.

— Mademoiselle*, espere! Só quero conversar!

[*senhorita]

Ela nem sequer olhou para trás e seguiu ainda mais veloz.

Era como se algo sobrenatural me obrigasse a seguir

uma mulher para lhe entregar um bilhete que ela certamente

não tinha o menor interesse em recuperá-lo. Talvez o meu

instinto masculino, de predador, fosse a principal causa daquele impulso que, àquela altura do campeonato, parecia

incontrolável. ... E foi assim, num forte desejo de aproximação, que eu a segui por diversas ruas até, finalmente, ela

parar na mais sombria e deserta.

Naquele momento, mantive certa distância, apenas observando aquela linda mulher despir-se de sua elegância,

diminuindo o passo até parar completamente, jogando seus

pertences ao chão e prostrando-se na calçada como um trapo

qualquer. Pude então ver a sua real condição de fragilidade e

o limite de seu poder que, até então, parecia inabalável.

Foi aí que me aproximei.

— Mademoiselle. Por acaso perdeu isso? – disse eu,

mostrando-lhe o bilhete.

Ela olhou para mim com viçosa e ingênua expressão

de surpresa. Fiquei impressionado com a beleza dos seus

lábios vermelhos contrastando com os belos olhos de topázio, que lhe rorejavam a pele.

— Onde o encontrou? – perguntou ela.

— Na esquina onde a senhorita buscava por informação...

— Olha aqui, se me seguiu só para me entregar essebilhete, perdeu seu tempo, pois já encontrei o endereço, o

beco é logo ali.

— Se o endereço que procuras está tão próximo, por

que não seguiu em frente?

— Porque não é lá muito animador ir para um “beco

sem saída”.

— Um beco sem saída no final de uma rua sem saída,

interessante – comentei.

— Exatamente, por isso é tão difícil encontrar...

Comecei a rir.

— Ei, isso não é nada engraçado – disse ela, séria.

— Desculpe. É que fiquei surpreso – disse eu, ainda

sem conseguir me conter – é a primeira vez que conheço

alguém procurando um “beco sem saída” em Paris.

— Não se faça de idiota. Você leu o bilhete?

— Sim, está escrito: “Beco dos desesperados, onde

todo mundo sabe por que entrou, mas não tem a menor

ideia de como vai sair”...

Ela então se levantou e sorriu.

— Ah, vocês homens... O que não fazem por um rabo

de saia...

Fiquei meio sem graça, e ela prosseguiu:

— Você parece estrangeiro... Por acaso é imigrante?

— Não. Sou escritor e vim a Paris em busca de inspira-

ção para o meu novo livro.

— Hum... escritor... – disse ela, me olhando de cima a

baixo.

Então, sem mais delongas, estendi-lhe a mão.

— Prazer. Eu me chamo Albert Archibald...— Olhai os verdes campos; Rios de solidão; Madalena,

nascida para o pecado... – citou.

— Você então conhece meus livros?

— Não só conheço como li todos – disse ela, agora

com um quê de interesse.

— E posso saber o nome desta minha ilustre leitora?

— Anna Júlia. Sou modelo e atriz.

Ao ouvir aquele nome, fiquei petrificado. Eu estava diante de Anna Júlia, que, apesar de ser uma subcelebridade e um

fracasso como atriz, foi capa de diversas revistas masculinas.

Fiquei meio constrangido ao pensar: “Prazer! Tenho todas as

revistas em que você saiu pelada... E, quando eu era adolescente, já até fiz aquelas coisas de prazer solitário, olhando pra

você.” Se eu dissesse isso, ela me chamaria de pervertido ou

perfeito idiota. Então resolvi omitir essa informação, para o

bem da minha conquista e reputação.

— Aceita tomar um vinho comigo? – convidei.

— Se fosse outro cara, eu não aceitaria, mas como

você é Albert Archibald, não posso desperdiçar esta oportunidade.

Pouco depois, estávamos sentados do lado de fora de

um barzinho muito agradável, sentindo a fresca brisa daquele ensolarado final de tarde. Os olhos lindos de Anna

reluziam na taça de vinho e eu mal podia acreditar que estava diante da mulher que tantas vezes admirei. Ela estava

um pouco mais magra, abatida talvez, mas ainda assim

continuava sedutora, até na maneira de conversar.

— Então, estou diante do famoso escritor Albert

Archibald...— Bondade sua. Não sou tão famoso assim.

— Ah, deixa de ser modesto. S’il vous plaît*, conta, vai.

Pode admitir. Não quero te sequestrar, não. [*Por favor]

— Tá bom. Eu admito que tenho notável reconhecimento...

— E quando foi que começou a escrever?

— Eu tinha vinte e poucos anos, mas te garanto que

não foi nada fácil, tomei muita porta na cara, várias editoras

recusaram meu trabalho...

— Pois é, e olha o que elas perderam.

— Milhões de livros vendidos. Hoje, qualquer uma daquelas editoras faria de tudo para publicar alguma obra minha.

— Acredito que o mesmo deve ter acontecido com sua

vida amorosa – disse ela.

— Bom, nesse quesito tive altos e baixos...

— Ainda assim continua escondendo o jogo... Ah, escritores: atrapalhados, misteriosos, mas excelentes amantes... – disse ela, olhando para mim como se estivesse estudando um mapa.

Então, achei que aquele seria o momento ideal para

uma investida, e tentei beijá-la.

— Oh, não, não. S’il vous plaît, vai parando por aí.

Estou fechada para balanço.

“Merda”, pensei, “tomei um fora”.

— Poxa vida. Pensei que nosso encontro daria um romance perfeito... – disse eu, ainda sob o impacto daquela

negativa.

Ela voltou-se muito familiarmente para mim, e disse

com a voz firme:— Pensou certo. Seria o romance ideal, mas é uma

pena eu não ter te conhecido antes. Ainda assim, quero que

saiba que, igual ao bilhete que você se ocupou em me trazer, meu querido: as coisas boas só chegam em minha vida

tarde demais, quando já não adianta muita coisa.

— Não diga isso... Por quê?

— Estou à beira do abismo, senhor Archibald. Ou melhor, de um “beco sem saída”, que está logo ali na frente,

pronto para me hospedar até Deus sabe quando. Minha vida

está em ruínas, meu empresário ferrou comigo, não tenho

mais espaço na mídia. Estou vivendo de bicos.

— Vem comigo pra Nova York! Eu posso ajudá-la a

recomeçar.

— Não posso. Se eu fizer isso, terei de pagar uma série

de multas rescisórias.

— Tem certeza de que é somente esse o motivo? –

perguntei.

— Não. – respondeu ela – Tem mais coisas, sim.

Pedi outra taça de vinho e ela então começou a

revelar:

— Vou te contar. Eu me envolvi com o meu empresá-

rio. E, por mais que ele tenha destruído a minha vida, não

consigo ficar sem ele.

— Entendo. É como se fosse a sua droga.

— Mais ou menos isso.

— E acha que naquele beco, onde mal se vê a entrada,

você irá se livrar desse vício?

Ela então devolveu a pergunta:

— E ir para Nova York com um estranho resolverá?— Isso não quer dizer nada. Seu ex-empresário não era

nenhum estranho e ainda assim ferrou com você.

— Não é só por isso. É que eu não quero entrar num

relacionamento pra esquecer outro. Ou você prefere se envolver com uma mulher que ainda ama outro homem?

— Claro que não.

— Então, se você gosta de mim de verdade, espere eu

retornar do beco com meu problema resolvido.

Respirei fundo, e disse:

— Tá bem. Combinado. Voltarei um dia pra te buscar.

— Não precisa, o beco pode estar aqui ou em Nova

York, Tóquio ou Dubai, São Paulo ou Rio. Ele está na mente de cada um de nós, e você só consegue enxergá-lo porque

está compartilhando este momento comigo.

— Que história fantástica! Acho que consegui a inspira-

ção para o meu novo livro! E você será meu par romântico.

— Fechado!

Dizendo isso, ela então cedeu, e finalmente nos beijamos.

Ficamos assim, entre um gole e outro, trocando carícias

até o alvorecer, como se o relógio fosse apenas um adereço

sem qualquer utilidade. Em pouco tempo estávamos falando de assuntos diversos, num desses encontros que a vida

não sabe explicar.

— Me conte uma coisa, senhor Archibald: tem algum desejo com que você se sente frustrado por não ter

realizado? – perguntou ela bem abraçada a mim, enquanto eu acariciava seus cabelos.

— Não ter sido ator. Essa foi, sem dúvida, minha maior

frustração. E a sua, qual foi?— Ela acaba de ser resolvida.

— Sério? Como?

— Agora, com você.

— Vai me dizer que seu sonho era namorar um escritor?

— Não, não é isso. É que, até hoje, só me relacionei

com caras que amavam a Anna Júlia das revistas, sabe? Era

horrível. Eu me sentia um objeto... – Ela tomou um gole

de vinho e prosseguiu: – Sabe o que meu último namorado

disse? Que, antes de me conhecer, fez sexo solitário várias

vezes, olhando para a minha foto nua nas revistas. Chegou

a me dar nojo...

Engoli em seco e, meio sem graça, tentei desviar o

assunto.

— Quando você e seu ex-empresário romperam?

— Na semana passada, depois que eu recebi “o

chamado”.

— Chamado?

— Sim, esse bilhete que você veio me trazer.

— Meu Deus! – exclamei, preocupado. – Veja isto. – E

mostrei-lhe a nota de 2 € que eu havia recebido de troco no

café da rue Vieille du Temple naquela tarde.

— Lamento lhe dizer, meu querido, mas você também

recebeu o chamado.

Alguns segundos de silêncio. De repente, ela começou

a rir.

— Está rindo do quê? – perguntei, completamente

confuso.

— De você. De quem mais seria? Pensei que, por ser

um escritor, fosse mais dedutivo.— O que eu poderia deduzir de uma nota escrita “beco

dos desesperados”?

— Raciocine comigo: você veio a Paris buscar inspira-

ção para o seu novo livro, certo?

— Correto.

— Daí, sem inspiração, você entraria em decadência

e, inevitavelmente, seu destino seria se hospedar naquele

beco. Aí, você conhece uma parisiense desesperada, e eis

que surge o seu novo sucesso literário: O Beco dos Desesperados.

— Ei, então, pelo que entendi, para ter a inspiração, eu

precisava viver um novo amor. É isso?

— Exatamente.

— Vou ficar te devendo essa – disse eu.

Voltei a beijá-la intensamente, acariciando seus cabelos, que derramavam-lhe em fartos anéis sobre a brancura do pescoço, caindo em trêmulas madeixas ao lado

do rosto.

Enfim, chegamos naquele momento em que a alma

parece derreter-se na saturação dos vapores do prazer.

Nossos hálitos, impregnados de vinho, e os nossos perfumes se misturavam, despertando sentidos que entorpecem

o espírito, embriagam ainda mais o sangue, fazendo o corpo ceder a todo tipo de volúpia. Instante em que mais deliciosamente gemem os violinos – que, naquele momento,

tocavam She, de Charles Aznavour. Era como se tudo ali

fosse o cenário de um típico longa parisiense: a música,

nossa trilha sonora, o garçom, os violinistas e os poucos

fregueses, meros figurantes. Restava saber se eu e AnnaJúlia, os protagonistas, estávamos no início de uma história romântica ou no fim de um drama, encenando uma

triste despedida.

— Chegou a minha hora – disse ela, meio sem graça –

Você me acompanha até a entrada do “beco”?

— Claro – disse eu, um pouco surpreso e decepcionado.

Então, contra a minha vontade, acompanhei Anna ao

seu destino. Chegando lá, fiquei observando a entrada daquele lugar curioso e enigmático...

De fora, o Beco dos Desesperados tinha o aspecto de

um local vago, sem qualquer indício de habitação. Essa

sensação foi quebrada quando Anna tocou a campainha estridente e apareceu o mestre de cerimônia, um senhor careca, olhos fundos, rosto pálido e sem vida, trajando terno de

cor preta, que a introduziu ao interior do recinto com uma

cortesia respeitosa.

— Pois não, Mademoiselle?... Seja bem-vinda!

— Oh, merci* – respondeu ela. [*obrigado!]

— S’il vous plaît, deixe eu lhe ajudar com seus pertences – disse ele, pegando sua mala de viagem.

Neste momento, dei o último beijo em minha amada,

que adentrou o local, meio desconcertada. Enquanto isso, o

mestre de cerimônias, olhando para mim – mantendo aquele mesmo sorriso receptivo – começou a puxar, lentamente,

as duas abas do enorme portão de imbuia maciça, talhado

com detalhes góticos do século XVIII.

— Com licença, cavalheiro. – disse ele, no meu

idioma.

Depois disso, apenas ouvi o barulho triste e abafado dabatida do velho portão, seguido de uma forte poeira cinza e

densa em meu rosto.

Fechei e abri os olhos. Então, como se fosse uma miragem, aquele local simplesmente desapareceu.

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