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Capa do romance O amor no Beco dos desesperados

O amor no Beco dos desesperados

Em busca de fôlego criativo para sua próxima obra literária, o escritor Albert Archibald viaja até Paris. Em meio às ruas francesas, ele acaba encontrando o Beco dos Desesperados, um local singular que funciona como um verdadeiro santuário para aqueles que precisam enfrentar feridas emocionais. Nesse refúgio acolhedor, pessoas buscam superar traumas profundos e resolver conflitos internos, oferecendo a Albert uma nova perspectiva sobre a cura e a escrita.
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Capítulo 3

— Gente! O sujeito com pinta de megaempresário tá

chegando aí. – anunciou Fabrício.

Ao chegar, o camarada olhou para os demais e ao redor, com visível ar de superioridade. E Gerald, curioso

para saber o que um sujeito tão polido fazia ali, foi logo

puxando assunto:

— Ficou pouco tempo no final do beco, senhor!

— Alguns minutos, nada mais, foram suficientes para

me sentir renovado.

— E aí, o que senhor achou? – perguntou Fabrício,

um pouco temeroso da resposta.

— Sabe de uma coisa? Adorei este lugar. Um espetáculo! Um monte de gente na merda acreditando que

o amor, desses romances de folhetins baratos, poderá

salvá-los desta pocilga. Ah! Serei fonte inesgotável de

motivação para esses miseráveis, ainda que tudo pare-

ça perdido! “Mesmo que a vida lhes mostre o contrário,

nunca desistam de seus sonhos!” – disse, com expressão afirmativa. – “Lute com determinação, abrace a vida

com paixão, perca com classe e vença com ousadia”, Sir

Charles Chaplin!

— Frases profundas. O senhor lê muitos livros de autoajuda? – perguntou Fabrício.

— Não só leio como escrevo, dou palestras e tudo

mais.

— Parou por quê? – perguntou Gerald.

— Uma falência inesperada...

— É. Tem muita gente aqui na mesma situação... –

disse Gerald.

— Meu caso é diferente... quero unir o útil ao agradá-

vel, dar a volta por cima neste lugar desprezível e, ao mesmo tempo, conseguir novos leitores ávidos por motivação.

— Ô! Cliente é o que não vai faltar... – disse Astoufo.

— Só não garanto que eles terão condições de comprar os seus livros... – disse Fabrício, irônico.

— Eu sei, um bando de pés-rapados, dividindo a almôndega do almoço pra comer a outra metade no jantar.

Mas ainda assim não desistirei desses pobres diabos. “A

vitória pertence ao mais perseverante”, já dizia Napoleão

Bonaparte.

— Isso. Gostei de ver – disse Gerald, batendo palmas.

– Esta é a fórmula do sucesso: seguir firme, sem perder a

esperança!

E o Palestrante Motivacional Falido (vamos chamá-lo

assim) completou:

— “O sonho e a esperança são dois calmantes que a

natureza concede ao ser humano”, Frederico Primeiro.— Bah. Sei não! Acho que o melhor pra ti é repensar

essa teoria ou tu vai acabar morrendo com uma superdose

desse calmante – ironizou Fabrício.

— De forma alguma! “A esperança é o sonho do homem acordado”, já dizia Aristóteles. Enfim, esperança

nunca é demais!

— Depende! – contrapôs Fabrício. – Aprendi que

acreditar desmedidamente nas coisas pode te levar a um

beco sem saída como este em que nos metemos.

— Pois saiba, meu amigo, para o desgosto dos pessimistas, vou acreditar sempre, mesmo que eu tenha que

deixar de acreditar; pois acredito que, acreditar que deixar de acreditar para depois acreditar que o deixar de

acreditar foi necessário para voltar a acreditar, é de vital importância para acreditar a voltar a acreditar, pois

deixar de acreditar para voltar a acreditar torna possível

inventar uma nova maneira de deixar de acreditar para

voltar a acreditar. Entende?

— Ou seja, você não chega a lugar nenhum! – ironizou Fabrício àquelas palavras totalmente sem sentido.

— Chegar a lugar algum pode ser um grande avanço

para quem está em um beco sem saída como nós. Quiçá,

a solução.

— Então o senhor acredita que conseguiremos sair

daqui? – perguntou Astoufo, animado.

— Lógico que sim! E muito mais fortalecidos.

“Preste atenção no que vou lhe contar: em uma de

minhas palestras, das milhares que dei pelo mundo, falei

exatamente sobre isso. Existe beco sem saída, mas existesaída sem beco, entende? Ou seja, quando você sair desta

merda, não vai haver outro beco pra te infernizar. Será uma

saída ampla com horizontes e possibilidades infinitas!”

Fabrício se irritou com aquele positivismo exacerbado, arrancou o livro do sujeito e disparou:

— Ah, não! Aí já é demais!

Gerald logo intercedeu, tentando apaziguar.

— Ei, calma! Deixa ele desabafar.

— Desabafar é uma coisa, cuspir besteira é outra!

Gerald puxou Fabrício para o canto e cochichou:

— Fica assim, não! Olha pra esse cara. Num tá vendo que ele tá louco? É só não entrar na pilha dele, entende?

Gerald, Fabrício e Astoufo ficaram observando o sujeito, de expressão débil, que se demonstrava completamente perdido. Mesmo assim, talvez para disfarçar a sua

difícil situação, tentava passar o máximo de segurança

e tranquilidade. Era como se ele estivesse em uma barca encharcada a todo instante por fortes ondas, durante

uma tempestade, no meio do oceano cheio de tubarões e,

ainda assim, procurasse fósforos para acender uma fogueira, tentando chamar a atenção da guarda costeira.

Ele estava totalmente em transe, o que o tornava imune

aos impactos psicológicos de sua complicada situação,

um quadro difícil de reverter, sobretudo em um sujeito

acostumado a tirar pessoas da beira do precipício através

de suas palestras e livros de autoajuda. Sendo assim, os

três degredados deixaram que ele continuasse seu discurso desconexo:— Amigos! Vou lhes dizer! Daqui, deste beco, saíram

grandes homens! É no abismo que entendemos a profundidade do fracasso e quanto são ilimitadas as possibilidades

de sucesso! “Ter sucesso é falhar repetidamente, mas sem

perder o entusiasmo.” Winston Churchill. Já dizia Thomas

Edison: “Eu não falhei. Só descobri 10 mil caminhos que

não eram o certo”.

E blá, blá, blá e blá...

— Bah, Chegaaaaaaaa!!! – esbravejou Fabrício. –

Cara, eu tentei, mas num teve jeito! Eu sabia que a próxima asneira que tu falasse desses malditos livros de autoajuda, que você leu e não te ajudaram pra porra nenhuma,

eu ia te falar umas verdades, abrir teus olhos, guri... pra ti

acordar de vez! – disse Fabrício, furioso.

— Deixa ele, Fabrício! – defendeu Gerald.

Como se estivesse com um colete à prova de balas,

praticamente ileso de qualquer ataque verbal, o Palestrante

Motivacional Falido, numa aparente tranquilidade, disse:

— Liga, não! Deixe que ele continue! Devemos tirar

proveito de todas as situações. “Um homem de sucesso é

aquele que cria uma parede com os tijolos que jogaram

nele.” David Brinkley, jornalista.

— Ah é? Então vamos ver... – Fabrício ameaçou jogar-lhe um tijolo.

Borrando de medo, o Palestrante se encolheu, tentando

se proteger com uma das mãos.

— Ei, calma. Nada de violência – censurou Gerald,

segurando o braço do colega. – Você poderia matá-lo com

essa porcaria. Tá maluco?— Ficar com certeza, maluco beleza... – cantando e

tocando um violão, entrou em cena um sujeito com cavanhaque, cabeludo, óculos escuros, colete e calça boca de

sino, estilo anos 70 do século passado.

— Ihhh! Chegou mais um doido! – disse Gerald, colocando a mão sobre a testa.

— Quem é esse? – perguntou Fabrício.

— É o Cantor de Um Sucesso Só, que hoje não toca

nem em botequim risca faca de quinta categoria.

O sujeito, com fala cantada, dá seu apoio ao palestrante.

— Olha, meu irmão! Tava vendo o teretetê de vocês

e, como soteropolitano, na minha visão poética de musicalidade, tenho que concordar com nosso amigo empresá-

rio palestrante motivacional e outros “gári gáris”. A gente

tem que acreditar! A vitória tá em nossas mãos, tá sabendo? Este beco em que a gente está metido pode ser uma

verdadeira higiene mental...

Astoufo cutucou Gerald e perguntou baixinho:

— Que música ele cantava quando fazia sucesso?

— Linda do Carnaval. Dizem que ficou dois anos nas

paradas.

— Eu me lembro dessa música! – disse Fabrício – Ei,

toque...

— Xiiiii – Gerald fez sinal de silêncio – Pelo amor de

Deus! Não pede pra ele tocar!

— Por quê? – perguntou Fabrício— Desde que ele chegou aqui, não faz outra coisa.

Ele deve ter tocado essa música mais de mil vezes. Pera

aí! Parece que ele vai tocar outra.

— “Ando devagar porque já tive pressa e levo este

sorriso porque já chorei demaaais”...

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