
MUITO MAIS QUE SONHOS
Capítulo 2
Pedalo devagar, quase parando, cansada da subida. Agora quero apenas contemplar a paisagem antes de entrar em casa. Paro, deito a bicicleta na calçada e faço o mesmo com o meu corpo exausto. De onde estou, consigo avistar toda a lateral do primeiro andar da minha casa e me assusto ao ver um pássaro se debatendo na janela do banheiro. Seus gritos ecoam por toda a rua.
Como ele entrou ali? Não sei a resposta, mas sinto o seu desespero por liberdade e resolvo entrar em casa para aliviar o sofrimento do pobre, mas antes mesmo de me levantar do chão, ouço gritos de outras aves, milhares delas, e me encanto com o que vejo no céu.
Periquitos jandaias aos montes sobrevoam em círculos antes de pousarem em várias árvores que surgem ao meu redor. De repente, não estou mais em minha rua, mas aquele lugar não me parece desconhecido.
Com o apoio das mãos, ergo o meu tronco do chão e percebo que estou numa floresta, sentada na grama densa e macia. Levanto-me e começo a caminhar pelo lugar. Algumas das aves me seguem, seus sons são ensurdecedores e, por mais que eu acelere o passo até começar a correr, tentando fugir delas, elas sempre me alcançam.
De repente as aves começam a se dissipar até sumir do meu campo de visão. Ouço apenas seus sons ao longe, mas agora são harmoniosos e se misturam com um barulho novo. Paro de correr a tempo de ver que estou na beira de um precipício.
O som da água caindo em cascatas me convida a fechar os olhos e relaxar. Os pássaros cantam ao fundo, a água sussurra em meus ouvidos e uma melodia começa a se formar em meu íntimo. Sinto uma leveza que me acolhe de forma surreal. Será que eu morri e estou no paraíso?
O que é isso?
Me assusto com um estalo atrás de mim. É como se fossem passos sobre gravetos. Tenho receio de olhar, mas não por medo de me assustar e sim pelo imprevisível. Seja lá o que for que me segue, não é ruim, sinto isso.
Subitamente, um perfume toma conta do ambiente. Eu já senti esse cheiro antes, mas onde?
Abraço o meu corpo querendo chorar. Eu quero me virar, quero ver o que ou quem está ali, mas não consigo. O que me impede de olhar? Não há nada me segurando, mas minhas pernas não obedecem a minha vontade. Estou travada no mesmo lugar como quando brincava de estátuas com os meus irmãos, na infância.
“Você não me pega, você não me pega.”
Escuto um deles caçoar de mim e meu lado desaforado me estimula a virar, mas me arrependo na hora, pois tenho a cabeça golpeada por uma bola que surge não sei de onde. Olho para a frente e já estou de volta à minha rua, a mesma em que moro desde que nasci.
Minha cabeça dói, levo a mão à testa e mal tenho tempo de alisá-la quando outra bola é jogada em minha direção. De repente são várias bolas, muitas delas, e eu grito:
— Mãe!
Abro os olhos assustada e viro-me para o lado, guiada pelo som do ronco de Rafael. Foi só um sonho, mas o estranho é que parece ter sido no mesmo lugar do sonho que tive semana passada.
Eu, hein!
Levanto-me da cama e me direciono à sacada do meu quarto, que novamente está aberta. Ah, Rafael!
O sol já nasceu, algumas pessoas caminham pelas ruas, provavelmente se dirigindo ao trabalho. Volto para o quarto e olho para o cavalete de pinturas imprensado ao lado da cômoda de mogno. Ele está ali há muito tempo. Comprei as tintas na semana passada, mas não abri nenhuma delas até hoje. Talvez seja o momento de aproveitar o dia de folga para recomeçar a fazer o que tanto amo.
Tento puxar o cavalete, mas ele está bem preso entre a cômoda e a parede, melhor deixar para fazer isso quando Rafael acordar. Olho para o relógio e percebo que ele não demorará a despertar. Hora de fazer um café, dessa vez a minha gênia da cozinha não poderá me salvar.
Dou uma olhada em Rafael antes de sair do quarto. Ele está com o lençol cobrindo apenas parte do seu quadril. Rafael é muito calorento, sempre dorme com pouca ou nenhuma roupa. Admiro o seu abdômen bem trabalhado. Apesar de não gostar de esportes ao ar livre, sempre que tem um tempo, corre para a academia.
Ele se remexe, claro que seu organismo já está se preparando para levantar. Ele é muito disciplinado com o trabalho. Seu rosto bonito arqueia uma das sobrancelhas. Confesso que foi a beleza estonteante que me atraiu até ele. Que homem!
Abaixo o meu corpo, me debruço sobre ele e toco meus lábios nos seus, bem de leve. Não quero acordá-lo antes da hora, mas bem que poderíamos fazer uma atividade na cama antes dele ir para o hospital, pena que a vida real de médico não é que nem nas séries de televisão, onde o povo transa mais do que trabalha. A gente só falta marcar um horário entre um plantão e outro. Como será quando tivermos filhos? Não quero ser a mãe ausente, mas também não quero deixar de trabalhar.
Mas por que estou pensando nisso? Ainda nem somos noivos e até casar e ter filhos, vai demorar tanto que as coisas podem se ajeitar até lá.
Saio do quarto e, do alto da escada, eu sinto cheiro de café. Camila voltou mais cedo do plantão?
— Oi, bom dia!
João, o namorado de Camila, encontra-se na cozinha com uma samba canção e um avental que parece pequeno em seu corpo.
— Bom dia! — respondo. — Então é você que vai me salvar hoje?
Ele sorri simpático. Todos sabem que o meu forte não é café. Na verdade, sou um zero à esquerda na cozinha, e olha que minha avó e minha mãe tentaram muito me ajudar, porque eu implorava, mas não tinha jeito.
— Obrigada Deus! — Brinco com as mãos unidas. — Quer ajuda?
— Não precisa, já fiz tudo. — Apontou para o forno. — Tem um bolo no forno, já está assado, mas mantive lá dentro para ficar quentinho. Tem pães de queijo também, tá no ponto.
— Meu Deus, que homem perfeito minha amiga arranjou. — Visto uma luva e tiro as coisas do forno, colocando-as sobre um descanso de panela que já estava sobre a mesa. — Já pode casar. — Brinco.
João fecha a garrafa térmica e vira-se para mim.
— Então, queria falar com você sobre isso. — Puxa uma cadeira e senta-se na mesa, despejando café em sua caneca e estendendo a garrafa em minha direção. — Eu não consegui dormir direito, por isso acordei cedo e vim cozinhar.
— Que terapia maravilhosa. — Sorrio para ele enquanto coloco café em minha caneca também. —E o que isso tem a ver com casar?
João toma um gole generoso do café e eu o acompanho. Está maravilhoso, tão bom quanto o de minha amiga. Ele olha para o alto da escada e depois para a porta dos fundos, certificando-se de que ninguém o escutará.
— Eu comprei a aliança.
Meus olhos se arregalaram diante do segredo.
— E quero pedi-la em noivado ainda hoje. — Ele parece nervoso. — Será que ela vai aceitar?
— Que mulher não aceitaria casar com você, João? — Meneio a cabeça. — Você é lindo, com todo o respeito, cozinha divinamente, uma das melhores características, e ainda desperta os melhores sorrisos em minha amiga. Ela não poderia ter um marido melhor.
— Mas ela não fala em casar, não parece ter essa vontade toda assim como... — pigarreia.
— Nossa, pareço tão desesperada assim?
— Não acho desespero, a gente já espera isso quando namora por tanto tempo e já tem a vida estabilizada.
— Pena que o Rafael não pensa dessa forma. — Sorrio sem humor.
João levanta-se e corre para subir as escadas, sem dizer nada. Eu fico só imaginando o sorriso de Camila ao ser pedida em noivado. Ela e João parecem almas gêmeas, combinam em tudo, ou quase, ele é muito mais romântico do que ela, mas sempre tem alguém que é assim no casal, normal.
Ouço passos apressados descendo as escadas e não me surpreendo quando vejo João entrando esbaforido na cozinha.
— O que você acha? — Me mostra a caixinha aberta.
Pego o anel e me emociono com os seus traços. Ele é lindo, simples como minha amiga gosta, mas fino e muito discreto.
— É lindo, João, ela vai amar. — Entrego o anel a ele.
Não consigo evitar que os olhos fiquem marejados.
— Se ele te fez chorar assim só de olhar, deve ser lindo mesmo. — João brinca. — Espero que Camila aprove.
— Aprovar o que? — Por trás da cadeira, Rafael beija o alto da minha cabeça. — Bom dia!
Eu estava tão distraída que nem percebi a aproximação do Rafael.
— O anel de noivado. — Apontei para a caixinha na mão de João. — Ele vai pedir a Camila em noivado.
— Vai se amarrar mesmo, cara? — O puxa para um abraço. — Meus parabéns!
— Obrigada! — João sorri e me olha sem graça. — Mas não me sinto amarrado, me sinto feliz, vai saber disso quando chegar a sua vez.
Rafael sorri, mas nada comenta. Ele pega uma caneca no armário e serve-se de café, sentando-se para nos fazer companhia.
— Vai demorar um pouquinho para chegar a nossa vez, né amor? — Estende a mão dele, alcançando a minha. — A gente quer fazer algumas coisas antes?
— A gente? — Sorrio ironicamente e me arrependo na hora, mas não consegui evitar.
— Estou atrasado, tenho que me arrumar. — Rafael levanta-se da mesa. — Obrigada pelo café, João, estava maravilhoso.
Ele sai da cozinha e logo depois, sobe as escadas.
— Como ele sabe que fui eu que fiz o café e não você?
— É porque ele já tomou o meu.
A gente sorri, mas o clima já não é mais o mesmo. Não quero ser a garota chata que pressiona o namorado a casar, mas já namoramos há tanto tempo, praticamente moramos juntos e temos as nossas vidas estabilizadas, então não entendo essa negativa de Rafael.
Desde o começo eu falei que esse era o meu maior sonho. Se ele sabe disso, por que me cozinha em banho Maria? Por que não desiste de nós logo e diz que não quer? Não é só pelo fato de não querer casar que penso assim, é por tudo. Somos muito diferentes, mas foi por ele que me apaixonei.
— O que é isso? — Um barulho me tira de meus devaneios.
João se levanta e aponta para a janela acima da pia.
— Olha isso. — Há um pássaro bicando o vidro do lado de fora. — Acho que tem alguém querendo entrar aqui.
— Deve estar atrás do seu bolo abóbora, aposto.
Levanto-me e fico atrás de João, mas assim que o susto passa, eu consigo dar um passo à frente e abrir a janela. O pássaro fica parado lá, parece nos encarar.
Não sou grande entendedora de pássaros, mas lembro que meus irmãos gostavam e, pelas penas marrons avermelhadas e cabeça um pouco cinza, esse me parece uma rolinha
Me aproximo dele, que vem para a minha mão com a maior facilidade Coloco-o bem diante do meu rosto, analisando-o e sinto como se ele me olhasse de volta.
João liga a torneira para lavar as mãos e o sonho vem com tudo à minha mente. O barulho dos pássaros, o som da cachoeira, o estalido às minhas costas. Eu encaro o passarinho e me arrepiei por completo.
— Acho que ele gostou de você — João comenta.
Eu sorrio para ele e volto a encarar o passarinho, quando percebo que há um machucado em uma de suas asas.
— Gosta nada, veio atrás da enfermeira para cuidar dele. — Seus olhos transmitem medo. — Tadinho!
Subo as escadas com o pássaro na mão, vou em busca do meu kit de primeiros socorros. Não sou veterinária, mas acho que não custa cuidar do pobre até que eu o leve a algum médico especialista em cuidar de bichos.
— Qual o seu nome, hein?
Claro que ele não me respondeu e nem eu esperava isso.
— Já vi que os meus planos de pintar vão ficar para outro dia, né?
Converso com o pássaro enquanto pego os curativos para tentar ajudar o meu mais novo inquilino.
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