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Capa do romance MUITO MAIS QUE SONHOS

MUITO MAIS QUE SONHOS

Íris sonha com a família ideal, mas seu namorado não partilha desse desejo. A estabilidade do casal é abalada quando um estranho misterioso passa a invadir as noites dela. Seria apenas o seu subconsciente ou algo real? Sem respostas e temendo perder essas visões etéreas, ela começa a pintar cada encontro noturno para imortalizá-los. Entre o real e o místico, Íris mergulha em uma jornada romântica e sensual onde a lógica não dita as regras do coração.
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Capítulo 3

Eu o seguro com as duas mãos, ergo-as para o alto e as abro, soltando o pássaro na natureza. Faz uma semana que ele chegou em minha casa, machucado e pedindo socorro, mas agora está livre e saudável, posso ver pelo bater das asas e pela potência com que grita junto aos outros pássaros que sobrevoam o céu.

Protejo os olhos da luminosidade impetuosa do sol do meio da manhã e o vejo partir até sumir de vista. Torço para que fique bem e, no meu sonho de criança egocêntrica, que lembre-se de mim e venha me visitar um dia.

Arqueio o meu corpo para a frente, apoiando as mãos nas coxas para descansar as pernas enquanto sorrio ao me sentir tão importante e inesquecível a ponto de almejar fazer parte da memória de um pássaro que conviveu comigo por apenas alguns dias.

— Patética — digo a mim mesma, e me assusto imediatamente ao perceber que não estou sozinha, pois escuto o impacto de passadas pesadas se encontrando com o chão.

Os passos atrás de mim chegam cada vez mais perto. Posso ouvir a sua respiração ofegante, deve ser alguém que estava correndo e agora está desacelerando.

Aquele lugar inspira movimento, eu mesma tenho vontade de correr, mas não vim preparada para tal, já que a minha única missão ali era soltar o pássaro e por isso saí de casa, ainda descalça, vestida apenas por uma leve camisola. Eu tinha receio de perder a coragem de me despedir dele.

Os passos cessaram e agora sinto uma presença atrás de mim. Eu começo a sentir frio, mesmo com o sol a pino, e percebo os pelos do meu corpo se eriçarem diante de um sentimento desconhecido por mim. Algo preenche a minha traqueia e toma conta de cada partícula de pele, até alcançar as camadas mais profundas, chegando ao sistema nervoso.

Eu quero me virar, quero ver quem é, mas não consigo me mexer. Sinto que não devo ter medo, mas a minha percepção é tomada por uma sensação sem nome ou desconhecida, e eu cerro as pálpebras, tentando me esconder dentro de mim mesma.

Ouço a gritaria dos pássaros, olho para o horizonte e os vejo retornando sejam lá de onde estavam, também escuto o barulho da cachoeira e percebo que estou no mesmo lugar que estive outro dia. Como vim parar aqui? Por que estou sempre voltando para esse mesmo lugar?

Os passos atrás de mim se movimentam e contornam o meu corpo, distribuindo um aroma já conhecido, indo parar logo a minha frente.

É um homem. Então é a ele que pertence aquele perfume?

Ele me olha de forma doce e intensa, fico presa naquele instante e só desvio a atenção do seu olhar quando escuto o seu sorriso e encaro os seus lábios. É um sorriso sincero, posso sentir isso, assim como sinto que os seus lábios estão desejosos dos meus. Ou seria o contrário?

Coro de vergonha ao imaginar desejar beijar um desconhecido sem rosto. Eu consigo ver o seu olhar, sentir o seu sorriso, mas não há um rosto definido. São como peças de um quebra-cabeça. Eu sei que no final verei algo lindo, consigo enxerga-lo como um todo, mesmo sem vê-lo.

O céu, antes limpo e azul, começa a se encher de nuvens carregadas e cinzentas. Os pássaros já não são mais ouvidos e o frio penetra em meus ossos.

Ele sorri para mim, um sorriso levemente triste, mas embutido de promessas. Seus olhos parecem não ter mais vida e aos poucos seu corpo vai se dissolvendo com a força do vento e sendo levado por ele, juntamente com as pétalas de flores que são arrancadas dos caules finos que não conseguem mais segurá-las no chão.

Meu coração parece esmagado de tanta dor. Levo a mão ao peito enquanto me debruço na grama encharcada da chuva que despenca do céu. Choro copiosamente e minhas lágrimas parecem solvente derretendo as cores de tudo ao meu redor, formando uma lama de tinta que me afunda na solidão.

Trovões gritam acima de minha cabeça e eu fecho os olhos, pedindo socorro.

— Íris, acorda!

Mesmo com medo, abro os olhos e vejo Camila sentada na beirada da minha cama. Olho em volta e não estou mais onde queria estar.

— Foi só um sonho? — pergunto.

— Eu diria que foi um pesadelo, olha só o seu estado. — Camila se aproxima, tentando me acalmar.

Apesar da sua presença, me sinto tão vazia, tão sozinha. Ela tenta secar as minhas lágrimas, mas é como se enxugasse gelo, já que elas não param de verter.

Me assusto com o barulho que estronda lá fora e só então percebo que chove aqui também. Eu ainda estou com frio, então sento-me na cama, trazendo o edredom comigo, e recosto-me na cabeceira de espaldar alto, abraçando as minhas pernas enquanto tento assimilar o que houve.

— Não foi só um sonho — falo em voz alta o que deveria ser apenas um pensamento.

Camila me olha concentrada, mas sem julgamentos.

— O que você sonhou que te deixou desse jeito?

— Com um homem.

A minha amiga sorri debochada, mas logo se recompõe ao perceber que eu não achei graça.

— Um sonho tipo...erótico?

— Não! — A corrijo. — Há algumas semanas venho tendo sonhos sempre no mesmo lugar e tem um perfume que vem não sei de onde. — paro para tentar organizar as ideias e parecer o mais clara possível. — E essa noite eu vi um homem, o perfume é dele, mas tem algo mais que não sei o que é.

— Amiga, os sonhos têm vários significados e não sou a pessoa mais capacitada para te ajudar com isso — explica-me calmamente como se falasse com uma criança —,mas a minha avó dizia que sonhos são mensagens para o nosso eu, tanto do futuro, quanto de um passado mal resolvido.

— E você acredita nisso?

— Eu acredito que os sonhos são o nosso subconsciente trabalhando tudo o que nos afeta na vida real. — Dá uma pausa antes de continuar. — Por exemplo, essa sua relação com o Rafael, ela tem te afetado negativamente, porque você espera dele muito mais do que ele está disposto a oferecer.

— Não tem nada a ver com Rafael.

— Sério? Olha só pra você, está chorando por causa de um homem que nunca viu.

— Mas não era qualquer homem.

— Claro que não, Íris, com certeza é o homem que você sonha em ver no Rafael.

Paro para refletir sobre o que ela acabou de falar e me pergunto se ela pode estar certa.

— Você acha que eu não amo mais o Rafael e por isso estou sonhando com outro homem?

— Não foi isso o que eu disse. — Levanta-se da cama e coloca as mãos na cintura, exibindo, sem querer, o anel de noivado que ganhara recentemente. — Mas talvez o Rafa não esteja suprindo você de tudo, e encontrou no sonho uma maneira de conseguir isso.

Choro, agora não mais pelo sonho, e sim pela vida real.

— Eu amo tanto o Rafa, só queria que ele me amasse na mesma intensidade.

— Amiga — Camila volta a sentar na cama. — Sinto tanto por te ver sofrendo, mas nem acho que a culpa seja só do Rafael. Em toda a relação há alguém que sempre ama mais, o problema é que o amor do Rafa não é suficiente para você.

— E o que eu faço?

— Eu não posso lhe dizer o que fazer. — Vira-se para a porta ao perceber que João saiu do quarto e solta-lhe um beijo. — Isso é você quem tem que decidir. Está feliz com a relação de vocês? Será mesmo que quer viver assim para sempre?

— E o que eu vou fazer? Jogar sete anos de namoro fora? Acredito no amor e acho que devo lutar por ele. Sete anos não são sete meses, Camila.

— Íris, tempo não define as boas relações. — Levanta-se da cama. — Eu queria muito te ajudar, mas tenho que ir, daqui a pouco começa o meu turno.

Se afastou do quarto, mas parou ao olhar o cavalete montado ao lado da cômoda.

— Tá na hora de tirar o branco dessa tela. — Alisa a textura do algodão cru. — Talvez pintar te ajude a pensar. Aproveite o dia de folga.

Camila sai do quarto e eu também, Não adianta ficar presa na cama o dia todo. Visto um roupão quentinho e desço as escadas. O cheiro do café chega até mim.

— João, meu amigo, jura que quando casar não vai embora dessa casa? Não vou conseguir viver sem você e Camila.

— Sua interesseira de uma figa. — Coloca o café na mesa e só então olha em meu rosto. — O que houve?

— Ah, isso? — Aponto para os olhos que sempre ficam vermelhos quando choro. — Não é conjuntivite, lhe garanto.

Adoro o João e sinto-me muito à vontade ao conversar com ele, mas não quero apadrinhá-lo com os meus problemas logo cedo. O coitado atende o dia todo, escuta sobre os mais diversos problemas que angustiam todos os tipos de pessoas, atender em casa é sacanagem.

— Tive um sonho bobo e acordei chorando, foi só isso.

— Sabe o que Freud diz sobre os sonhos?

— O que?

— Ele explica que os sonhos são manifestações dos desejos e ansiedades mais profundos. Com o que você sonhou?

Como dizer que sonhei com um homem quando tenho um namorado? Como explicar que o olhar, o sorriso e até o perfume desse homem me fez acordar em prantos pela sua ausência?

— Com um lugar bem bonito. Eu sinto a energia e até o aroma da vegetação. Não é estranho? — Não menti, só não contei tudo. — Tenho sonhado com esse mesmo lugar há algumas noites e sempre acordo instigada.

— Olha, ainda pegando o gancho de Freud, ele acreditava que os sonhos, não importava quais fossem, tinham a ver com a liberação da tensão sexual. — Sorriu timidamente. — Talvez devesse acampar com o seu namorado em algum lugar paradisíaco. O que acha?

— Acho que Rafael não aceitaria um convite para dormir em um lugar que não envolvesse colchões macios e lençóis de milhões de fios.

João fica levemente sem jeito e se afasta, indo até o forno pegar umas torradas com alho e manteiga. Eu não resisto a perguntar.

— Você também acha que eu e o Rafael não combinamos?

João morde o canto inferior dos lábios e meneia a cabeça, notadamente desconcertado.

— Se você tomou a coragem de me fazer essa pergunta, é porque já sabe a resposta. — Ele coloca as torradas sobre uma cesta de vime forrada com um tecido e me encara antes de levar a forma vazia para a pia. — Sinto muito, Íris.

— Não sinta. — Mordo uma das torradas, tentando controlar a vontade de chorar. — Obrigada pela sinceridade.

Mastigo cada uma das torradas apenas para alimentar o corpo, mas não sinto o seu sabor, só um amargor que parece vir de dentro contamina tudo o que coloco na boca.

Agradeço pelo café e subo as escadas. A chuva cai em demasia lá fora, os trovões se revezam entre os mais tímidos e os mais escandalosos e eu resolvo que não vale a pena disputar com o céu para ver quem chora mais.

Pego as tintas, os pincéis, os trapos e posiciono tudo sobre a mesa da sacada. Tiro o cavalete do quarto e o levo para lá também. Apesar da chuva e da umidade, resolvo que pintar ao ar livre pode me fazer bem. Visto um avental e começo a dar as primeiras pinceladas. O verde em seus vários tons começam a tomar conta da tela, fazendo o branco desaparecer aos pouquinhos.

Uma sensação de bem-estar me invade e, pela primeira vez desde que acordei, eu sorrio de verdade.

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