Capa do romance MUITO MAIS QUE SONHOS

MUITO MAIS QUE SONHOS

8.9 / 10.0
Íris sonha com a família ideal, mas seu namorado não partilha desse desejo. A estabilidade do casal é abalada quando um estranho misterioso passa a invadir as noites dela. Seria apenas o seu subconsciente ou algo real? Sem respostas e temendo perder essas visões etéreas, ela começa a pintar cada encontro noturno para imortalizá-los. Entre o real e o místico, Íris mergulha em uma jornada romântica e sensual onde a lógica não dita as regras do coração.

MUITO MAIS QUE SONHOS Capítulo 1

Não sei se era o lugar mais lindo do mundo, mas à primeira vista parecia um pedaço do paraíso. Me sentia dentro de uma pintura impressionista. As pinceladas foram generosas nas cores das flores e nos vários tons de verde, desde os que revestiam a grama até os das folhas das árvores mais altas, em tons mais amarelados por conta da iluminação do sol.

Era uma aquarela e eu estava dentro dela. Meu vestido amarelo contrastava com as flores de pétalas tão azuis quanto um céu de verão. Sentia o tecido esvoaçar enquanto eu corria por entre as flores do campo. Parei e olhei para cima, apesar de muitas árvores, eu conseguia ver o céu claro do meio dia e totalmente livre de nuvens.

Só uma coisa estava muito estranha nesse lugar: não havia som algum. Era como se alguém tivesse apertado a tecla mudo do controle remoto da televisão e tudo ficou em suspenso. Eu via os pássaros sobrevoando no céu, as árvores balançando ao sabor do vento e nada de som.

— Tem alguém? — Gritei, mas a minha voz não saiu.

Senti uma presença. Dei uma volta em torno de mim mesma e não vi ninguém em lugar algum, mas tenho certeza que senti que havia mais alguém além de mim naquele lugar. O mais incrível é que eu não tive medo nenhum, pelo contrário, eu sabia que não havia motivos para temer.

Um vento mais vigoroso fez com que as árvores ficassem ainda mais alvoroçadas e enquanto seus galhos se curvavam e algumas folhas se soltavam deles, um perfume chegou até mim, mas não eram aromas herbais, típicos das florestas. Era um perfume marcante, daqueles que fixa, deixa rastros e chega antes mesmo da pessoa.

Eu me senti inebriada com aquele cheiro que penetrou em minhas narinas e alcançou todo o meu corpo. Senti uma vontade imensa de sorrir e logo depois quis chorar de felicidade, mas o vento ficou mais forte, tão forte que as folhas não se soltavam mais das árvores, elas se desmancham e se dissolvem, pingando na grama feito tinta escorrendo pela tela.

Eu tremia de frio e me sentia só de novo, porque o cheiro havia se dissipado e agora era levado para longe de mim. Comecei a esfregar as minhas mãos pelos meus braços arrepiados diante do vento gelado que destoava do clima ameno de minutos atrás. Meus pés estavam úmidos e, ao olhar para baixo, pude ver que a grama também havia se dissolvido e agora uma poça de tinta verde com pequenas rajadas azuis alcançaram os meus tornozelos, me afundando em um mar de cores e abandono.

— Socorro! — tentei gritar e, novamente, o som não sai.

Me debati em desespero, pois agora a poça havia se tornado profunda e a tinta alcançava o meio de minhas coxas, sujando a barra do meu vestido.

— Socorro, por favor, alguém me ajude!

Acordei assustada e tremendo de frio. A sensação de incompletude me invadiu e eu senti uma saudade de algo que nem sabia o que era. Aqueles sentimentos nostálgicos sempre me invadiam depois de alguns sonhos, mas esse, em especial, me deixou muito mais abalada.

As portas duplas que dão para a sacada do meu quarto estão escancaradas. A cortina flutua pelo quarto tal qual um véu de uma noiva em fuga.

Ainda é muito cedo, olhei para o relógio sobre a mesa de cabeceira ao lado da cama e vi que passava só um pouco das cinco da manhã. Apesar do frio, me levantei e fui até as portas pensando em fechá-la, mas desisti ao ver o sol despontando no horizonte e me encaminhei para a sacada, debruçando-me sobre o guarda-corpo de madeira que a margeava.

Eu amo a natureza, a vida pulsante que há em cada uma de suas ações, sejam os ventos tórridos ou a leve brisa, seja o calor de verão ou o frio do inverno. É tudo perfeito, tal qual uma obra de arte, pintada pelas mãos do maior de todos os artistas.

Dali de cima eu tinha uma vista privilegiada de Belo Horizonte. Enquanto o sol despontava por trás da Serra do Curral, eu corria os olhos para admirar as torres da igreja de Nossa Senhora da Conceição de um lado e o cemitério do Bonfim, do outro.

Moro em um dos vários sobrados do bairro de Lagoinha, patrimônio da cidade, mas segundo Rafael, o meu namorado, é apenas um bairro pobre que não combina com o nosso futuro estilo de vida, já que pretendemos nos casar assim que ele terminar a residência.

Só quero ver quando isso vai acontecer, visto que ele nunca faz o pedido de noivado e eu não tenho coragem de tomar a iniciativa, já que, das poucas vezes que toquei no assunto, ele mostrou uma certa resistência.

“Amor, não quero passar anos noivando, então só vamos fazer isso quando eu tiver terminado os estudos, aí a gente casa em seguida.”

Paro de contemplar o sol e entro no quarto assim que o despertador toca. Pego as minhas coisas e corro para o banheiro que fica no corredor entre o meu quarto e o de Camila, uma amiga que se tornou minha irmã desde que veio morar comigo.

__________

Desço as escadas de madeira escura e me encaminho para a cozinha, guiada pelo aroma delicioso que se expande por todo o ambiente.

— Hum, já disse que você é a melhor amiga do mundo?

— Para de me tapear que sei que o elogio é só por conta do café.

— Seu café é divino, mas você sabe que te amaria mesmo que fizesse um chafé tipo o meu, né?

Camila veio morar comigo assim que meus pais se mudaram para uma cidade do interior.

Depois que todos os meus irmãos casaram e eu, a caçula, entrei na faculdade, meus pais disseram que iriam cuidar da minha avó que acabara de ficar viúva e nem sonhava em voltar para a cidade grande. O sobrado onde moro hoje foi herança dela e de meu avô, uns dos primeiros a formar o bairro. Eles praticamente construíram a própria casa e hoje durmo no quarto que um dia foi deles, antes de ser dos meus pais. O que posso dizer, sou uma garota da cidade grande, mas gosto de tradições.

— O Rafael saiu bem cedo, mandou dizer que preferia tomar banho em casa antes de ir para o hospital. — Camila me avisa.

— Então foi ele que deixou as portas abertas, acordei congelando de frio.

— Ainda não instalou o ar-condicionado no quarto?

— E nem vou instalar, aquilo não combina com a arquitetura do sobrado, amiga — respondo.

— Estamos em janeiro, Íris, pleno verão, tem gente que morre de calor nessa época.

— Rafael pode muito bem dormir com o ventilador, como sempre fiz. E aqui nem é tão quente assim, isso é frescura dele.

Camila sorri de canto, arqueia as sobrancelhas e eu sei que essas expressões sempre vêm acompanhadas de um mas.

— Vocês divergem sobre quase tudo, né? Quero só ver quando se casarem.

Não a respondi, sei para que lugar aquela conversa vai, porque já aconteceu outras milhões de vezes, apenas sento-me e me delicio do café e bolo de fubá feitos por minha amiga incrivelmente boa na cozinha.

— E João?

— Está dormindo ainda, chegou agora há pouco, hoje os nossos horários não se encontram.

— Vou de bicicleta hoje, pode usar o carro se quiser. Ou então — sorrio, já sabendo a sua resposta. —, pode ir de bike comigo, assim endurece essas coxas.

— Tá me chamando de molenga?

— Eu? Jamais diria isso sobre você, amiga, só chamo de sedentária mesmo.

Camila come uma fatia do bolo e revira os olhos de excitação.

— Eu mando bem na cozinha, né?

Eu aceno em confirmação, já que não podia falar com a boca cheia de mais um pedaço de bolo. Ela sorri orgulhosa de si mesma.

— O que lhe falta em modéstia, lhe sobra em preguiça.

— Eu sei que preciso me exercitar, mas subir todas essas ladeiras na volta do trabalho está fora de cogitação. — Toma o café enquanto olha o relógio. — Eu tenho que ir, vou ficar na UTI com aquele paciente misterioso.

— Ainda não encontraram a família dele?

— Nada, ele estava sem documento no momento do acidente e sobreviveu graças a um milagre.

— Acha que ele vai acordar com sequelas?

— Não faço ideia, mas todos os sinais vitais estão perfeitos e ele tem uma boa resistência física. Pelo corpo bem trabalhado, parece que pratica algum tipo de esporte.

— Olha aí, tá vendo? — sorrio debochada. — Atividade física pode salvar a sua vida um dia.

— Pode me matar também. Viu o caso do cara que morreu na esteira da academia?

— Aff, Camila, vai pegar um caso isolado para justificar sua total falta de vontade de mexer o corpo?

— E quem disse que eu não mexo? Só que faço isso de forma bem mais prazerosa.

Nós duas rimos e logo depois Camila se levanta, colocando os pratos sujos na pia.

— Eu cozinho e você lava.

— É justo.

Camila sobe as escadas indo em direção ao quarto para pegar as suas coisas. Ela é enfermeira, assim como eu. Nos conhecemos na faculdade e foi amor à primeira vista. Camila e eu somos diferentes em muitas coisas, mas nossa amizade se fortaleceu de forma inexplicável. Ela é carioca, veio para Belo Horizonte ao passar no Enem, morava numa república antes de convidá-la a dividir o sobrado comigo. Como é próprio, só temos gastos com os serviços básicos e necessários de qualquer moradia. Foi uma excelente solução para nós duas.

Ela e João se conheceram no hospital onde trabalhamos e agora ele praticamente mora aqui também. Ele é psicólogo e os dois se combinam em quase tudo, até mesmo na aversão a atividade física, ao contrário de mim e Rafael. Eu o conheci ainda na faculdade, eu estava entrando e ele saindo, mas me apaixonei perdidamente por ele. Entre idas e vindas, alguns términos e recomeços, estamos juntos há quase sete anos.

Rafael é de uma família abastada de Itaúna, que fez dinheiro com o minério de ferro. Apesar de seus pais serem pessoas simples, Rafael gosta de ostentar e não abre mão de uma vida de luxo. Sempre tentou me persuadir a morar com ele, só por não aguentar dormir algumas noites no meu bairro, mas não saio de casa sem estar casada e confesso que gosto da minha casa, da minha vista, da minha vida simples.

Levanto-me e lavo os pratos antes de calçar a sapatilha, pegar a minha mochila subir na moutain bike que me levará para o trabalho.

Lagoinha, como muitos bairros históricos, sofre com o abandono e falta de revitalização, ao pedalar pelas ruas eu percebo a degradação de um bairro que faz parte da minha história e envelhece junto comigo. Desço as ladeiras das ruas mal cuidadas e logo chego ao centro, onde encontra-se o hospital em que trabalho.

Perto do hospital há uma galeria e eu passo bem devagar em frente a ela. Meu sonho sempre foi ser artista, mas meus pais diziam que arte não enche barriga, então, eu fui fazer faculdade de enfermagem, porque também amo cuidar das pessoas. Na época da faculdade, passei a pintar por hobby, mas a correia com o trabalho e o TCC que estou fazendo para finalizar a pós graduação tirou até isso de mim.

Agindo por puro impulso, estaciono em frente à galeria e desço da bicicleta. Fico parada por um tempo, só admirando a fachada quando uma atendente veio até mim e me convida a entrar. Ainda tenho quase uma hora antes de começar o meu turno. Por que não?

O pensamento inicial era entrar só para dar uma olhadinha, mas saio de lá com uma dívida razoável no cartão de crédito. Como vim sem carro e não posso levar as telas, pinceis e tintas comigo, ligo para a minha vizinha confirmando a sua presença em casa e peço que eles entreguem tudo na casa ao lado. Essa é uma das vantagens de se morar num bairro antigo onde os vizinhos são tão próximos e acolhedores que tornam-se parte de nossas famílias.

Olho para o relógio e vejo que tenho poucos minutos, subo na bicicleta e corro até a entrada do hospital. Um dos porteiros torce os lábios em reprimenda, mas guarda a minha bicicleta para que eu não me atrase. Corro para a recepção a tempo de bater o ponto.

Mais um dia de trabalho me espera.

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