
Meu pior Inimigo
Capítulo 2
Não costumo sonhar ou ter pesadelos, mas essa noite me causou tantas sensações ruins, geralmente os comprimidos me fazem apagar totalmente e esquecer de tudo ao redor, não tinha palavras para explicar como me sentia, a boca amargava de uma maneira inexplicável, parte disso tudo eu sei que é psicológico.
Acordei extremamente tarde, uma forte enxaqueca tomava conta da minha cabeça, levantei calmamente, tentando não fazer muito esforço, cada passo fazia meu corpo doer, parecia que eu tinha levado uma surra, só que é apenas uma das reações que tenho após uma crise de ansiedade, meu corpo inteiro sofre.
O relógio do celular mostrava já ser bem tarde, eu havia perdido os dois alarmes da manhã, tudo por causa daquela maldita conversa da noite anterior, ou melhor, a péssima notícia foi o que me desconcertou totalmente, nem sabia se tinha forças o suficiente para encarar esse dia, todos os meus pensamentos voltavam para o mesmo ponto e isso é desgastante.
Entrei no chuveiro e senti a água gelada descendo sobre minha cabeça e corpo, sem pensar em nada, após sair do banheiro percebi haver demorado mais de 1 hora no banho, o que não era de costume, no entanto, eu precisava daquele momento, a forma como a água gelada parece tirar todas as minhas frustrações e cansaço chega a ser mágica.
Precisava ir ao abrigo que ajudo, porém, ainda dava tempo de tomar um bom café da manhã, frutas e um copo grande de suco de preferência e foi o que fiz, desci as escadas vagarosamente, por sorte não encontrei meu pai, ele não costuma estar em casa nesse horário mesmo.
Comi calmamente, o quanto consegui, o silêncio e toda a calmaria me fez lembrar da noite anterior e toda a conversa, a garganta queria fechar e os olhos marejaram levemente, tenho certeza que se eu fosse dizer algo naquele momento, minha voz sairia embargada.
Entrei no meu carro e segui rapidamente para o abrigo, a melhor parte era que não precisei topar com meu pai pelos corredores, ainda estava magoada com ele por tudo, de certa forma foi a má gestão dele que nos trouxe a esse ponto.
Entendo suas mágoas e frustrações por causa da minha mãe, mas eu também estou ferida.
Cheguei já estourando meu horário, faz um bom tempo que trabalho voluntariamente aqui, em outros dois lugares, apesar de amar todos, aqui é onde me sinto ainda melhor e não gosto de ficar um dia sequer longe.
— Boa tarde, querida, eles estão te esperando! — disse a irmã Marie na porta, sorri gentilmente para ela antes de seguir para a sala de leitura.
— Boa tarde, meus amores! — um mar de "oi, tia" surgiu, eram esses momentos que aqueciam meu coração.
Este é um lar para crianças carentes, eu leio para elas todas as segundas e ajudo com doação financeira, amo cada segundo que passamos juntos, faz lembrar o quanto sou privilegiada e eu agradeço muito por isso e uso minha posição para ajudar quem precisa.
Os outros 2 locais que sou voluntária e colaboradora são um ong de animais de rua, na qual eu orgulhosamente digo que ajudei a expandir muito, e onde havia apenas 50 cachorros e 15 gatos quando a conheci, por falta de espaço e recursos, hoje temos um espaço maior e mais adequado, com mais de 200 animais, que recebem amor e carinho, essa ong precisa demais de mim, pois além da minha visita semanal para ajudar nas atividades, eu também estou sempre participando dos projetos de arrecadação e doação, temos conseguido intermediar muitas adoções também, o que é uma grande conquista.
A terceira instituição que ajudo é um asilo, foi o primeiro lugar que decidi ajudar, e que despertou esse meu amor pelo trabalho voluntário, pois infelizmente não conheci meus avós, e sempre quis ter alguma figura por perto que suprisse a falta deles, então na época, pesquisando, descobri que a irmã da minha avó materna, a qual teve um desentendimento na família, residia nesse lar de idosos por não ter nenhum familiar para cuidar dela, minha mãe nunca teve contato com sua tia, e como ela não tinha filhos, eu fui a única pessoa que a visitei até o dia de sua morte.
Queria tê-la levado para morar comigo, porém precisava de muitos cuidados médicos e meu pai não foi conivente com a ideia, pelo contrário, ele repudiava tudo que o fazia lembrar da minha mãe.
Ela faleceu de parada cardíaca e desde então eu decidi ser voluntária deste asilo, e também dou assistência financeira, mas sempre que vou lá, percebo que eles preferem conversar com alguém, sentem-se muito sozinhos, hoje eu digo que tenho vários avôs e avós, e a maioria deles me chama de neta.
Após ler para as crianças me despedi carinhosamente de cada uma e retornei para casa rapidamente, só de pensar em não poder ajudá-los financeiramente, fico muito triste, apesar das doações, o valor arrecadado sempre é irrisório, perto do que necessitam.
Subi calmamente para o meu quarto e me joguei na cama, o cansaço tomava conta do meu corpo, sabia exatamente aonde aqueles pensamentos me levariam, se aquela era a única saída aparente, eu precisava aceitar, de maneira alguma ficarei sem poder ajudar aqueles que precisam, me sentiria culpada pelo resto da vida, de certa forma é um ato egoísta, visto que eu tenho como escolher e eles não.
Acabei faltando a faculdade, não estava com ânimo para sair de casa, precisava realmente aceitar essa ideia, por amor ao que faço, me senti obrigada a concordar com a proposta, como meu pai disse, não precisarei ficar casada por muito tempo, apenas o necessário, então poderia viver livre de novo e tudo voltaria ao normal.
Já tarde da noite, após conseguir comer um pouco, lavei meu rosto na pia do banheiro, meus olhos vermelhos de tanto chorar e a aparência desleixada demonstravam toda a minha luta em fazer o que era necessário, não sou do tipo que volta atrás em uma decisão, por isso não vacilei e fui em frente.
Caminhei a passos curtos até o escritório do meu pai, sabia que ele já havia chegado, bati algumas vezes na porta antes de entrar, sua expressão era de surpresa ao me ver ali, eu mesma estava surpresa com minha decisão, após minha reação da noite anterior.
— Estou disposta a fazer isso. — disse calmamente.
Ele me encarou por alguns segundos, acho que ele não esperava por isso.
— Tem certeza? — questionou receoso — Talvez haja alguma outra possibilidade que ainda não vimos, então...
— Não tente mentir para mim, nem você acredita nas suas palavras… — o cortei.
Só queria que tudo fosse rápido, minha força de vontade não é tão grande.
— Certo... tem razão, essa é a saída mais rápida e benéfica para nós, tanto a curto quanto a longo prazo.
— Assim que possível irei pedir o divórcio, não permanecerei nisso mais do que o necessário.
— Claro, não se preocupe quanto a isso, a separação futura de vocês não irá afeta a empresa, creio eu que Jasiel irá entender, ele conhece o filho melhor do que ninguém. — tossiu levemente — Prometo que não irá se arrepender dessa decisão, não sabe o quanto isso é importante para mim, minha filha!
Eu já estava completamente arrependida da minha decisão, mas era o certo, não tinha dúvidas.
— Espero que reconheça o quanto isso é difícil para mim...
Saí da sala sem esperar nenhuma resposta, aquela foi toda a força que tinha pra manter uma conversa com meu pai, mais um pouco e eu acabaria desistindo, a vontade de sumir no mundo era muito grande, mas logo me sentia um pouco culpada internamente, porque foi exatamente o que minha mãe fez… acho que talvez eu a entenda de certa forma, por isso evito falar nesse assunto com qualquer pessoa.
Só espero que ele saiba que não darei uma de boa moça, serei tão cruel com ele quanto ele foi comigo, sei que havia dito que o meu desejo de vingança havia passado, porém foi ele apareceu de novo na minha vida, eu não o procurei, então era mais do que justo devolver na mesma moeda.
Entrei em meu quarto e me joguei sobre a cama, só espero acordar no dia seguinte com essa mesma força de vontade, não quero perder a convicção quando o vir de novo, nem sei qual será a minha reação.
Medo com certeza não é a palavra, farei de tudo para não ser aquela garotinha assustada de anos atrás, preciso sempre demonstrar força e vigor, manter a sanidade mental, Jonas me fez mudar muito, tanto em minha forma de pensar como em agir, mas ele não faria mais nada contra mim.
Fechei os olhos suspirando, a cama me chamava para um sono profundo, porém, minha mente fervilhava em pensamentos, um dos maiores problemas de se ter ansiedade é que sua mente não para quieta, praticamente nunca, dependo dos remédios para isso, chegando a ser digno de pena.
Levantei e fui ao banheiro, sei que não deveria abusar dos remédios para dormir, porém, é uma situação complicada, eu estou sob muito estresse, peguei um dos comprimidos e o coloquei embaixo da língua, em seguida voltei para a cama e me deitei novamente.
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