
Desejo Sombrio ( Desejo Sombrio)
Desejo Sombrio ( Desejo Sombrio) Capítulo 1
Capítulo: 01.
Desperto sobressaltada às cinco da manhã, arrancada do sono por gritos abafados que ecoam da rua.
O coração dispara. Corro até a janela, afasto as cortinas com um gesto apressado, tentando entender de onde vêm os pedidos de socorro.
Mas tudo o que vejo é a neblina densa de um início de manhã silencioso.
Fico ali por alguns segundos, tentando captar algum som, qualquer sinal. Mas só o frio cortante e o murmúrio distante de uma cidade que ainda dorme me fazem companhia
Penso que talvez tenha sido apenas fruto da minha imaginação. Ontem à noite, antes de dormir, resolvi assistir a um filme de terror — uma escolha nada inteligente.
Sem sono e ainda inquieta, decido não voltar para a cama.
Vou direto para o banheiro e tomo um banho quente e demorado.
Deixo a água cair sobre meus ombros por quase meia hora, tentando lavar o medo junto com a espuma.
Depois, sigo para o closet. Escolho um vestido preto, justo até os joelhos, com um decote em V discreto, mas marcante. Nos pés, salto alto preto. Para suavizar o visual, um blazer branco.
Prendo os cabelos escuros em um rabo de cavalo firme, e a maquiagem é leve — só o suficiente para destacar o verde dos meus olhos.
Na cozinha, preparo um café forte, acompanhado de ovos mexidos.
Ao checar as horas, percebo que ainda são 8h30. Mesmo faltando quase duas horas para começar o expediente, resolvo sair.
Volto ao quarto, pego minha bolsa e a pasta com os materiais do dia. Antes de sair, faço o checklist mental: portas trancadas, luzes apagadas, tudo em ordem.
Na garagem, entro no carro e ligo o rádio. Yellow, do Coldplay, começa a tocar, e me deixo embalar pela melodia enquanto enfrento o trânsito da manhã.
Meia hora depois, estaciono na garagem do prédio e pego o elevador que me leva até o sétimo andar onde fica a Akil Imagem, onde trabalho há cinco anos como diretora de marketing.
Como previsto, ainda está tudo calmo por aqui.
A maioria dos funcionários costuma chegar mais tarde.
Vou direto para minha sala e começo a organizar o que preciso para iniciar o dia.
Pouco depois, a porta se abre. É Léo, meu assistente, entrando
cantarolando uma música indecifrável.
— Bom dia, Júlia! Como você está essa manhã? — Pergunta ele, largando a mochila sobre a mesa com seu típico bom humor.
— Bom dia, Léo. Estou bem. Mas você não chegou cedo demais?
— Sim, mas precisava te contar uma novidade quentinha que surgiu ontem, depois que você foi embora — ele sorri com ar misterioso. — Temos um novo modelo. Escolhido pela Sra. Victoria.
— Sério? — pergunto, interessada. — Quem é ele?
— Não é brasileiro. Pelo que entendi, veio da Inglaterra.
— E ele fala português? - Pergunto.
— Acho que sim — diz, se aproximando. — Mas ouvi dizer que ele é… lindo. E um tanto misterioso.
A palavra “misterioso” acende algo em mim. Curiosidade? Ou um pressentimento?
— E já temos foto dele disponível em nosso sistema? - Pergunto.
— Infelizmente não, chefe. Mas ouvi dizer que ele tem aquele tipo de beleza que faz a gente esquecer o próprio nome.
— Então vamos guardar nossa curiosidade até ele chegar — Digo, tentando manter a compostura.
Começamos a trabalhar, e as horas passam sem grandes acontecimentos.
Até que, pontualmente às 11h30, a porta se abre novamente.
Sra. Victoria entra, acompanhada por um homem que, no instante em que cruzamos olhares, parece arrancar o ar dos meus pulmões.
Ele é alto, elegante. Há algo em sua presença que vai além da aparência — um magnetismo sutil, porém arrebatador.
Ao se aproximar, meus instintos disparam. Um arrepio percorre minha pele, como se meu corpo reconhecesse algo que minha mente ainda não entende.
— Júlia, querida — diz Victoria com entusiasmo. — Quero que conheça a nova cara da AKIL IMAGEM.
Ele dá um passo à frente, estende a mão e diz, com uma voz que mistura firmeza e suavidade:
— Prazer em conhecê-la. Meu nome é David Jacobson.
Quando nossas mãos se tocam, um arrepio percorre meu corpo. Ele sente também. Eu vejo nos olhos dele — dois abismos azuis que me analisam com mais atenção do que estou acostumada.
— O prazer é meu, Sr. Jacobson — respondo, com a voz quase em um sussurro.
Com seu olhar tão intenso que me paralisa por um momento, ele sorri levemente. E só então percebo que ainda estamos de mãos dadas.
Uma espécie de energia corre entre nós, algo estranho e ao mesmo tempo... delicioso. Ruborizada, retiro minha mão.
— Seja bem-vindo à empresa — digo, tentando recuperar a postura.
— Obrigado. Mas... É senhora ou senhorita? — ele pergunta, arqueando uma sobrancelha com charme provocador.
— Senhorita — respondo, sem hesitar.
Ele sorri, como se gostasse da resposta. E eu não sei o que pensar disso.
— Vamos, David — intervém Victoria. — Ainda temos muito para te mostrar. Mas mais tarde continuaremos essa conversa no almoço. Você vem com a gente, Júlia?
Hesito. O plano era almoçar sozinha, colocar a agenda em ordem..., mas recusar esse convite parece quase um sacrilégio.
— Claro, contem comigo — respondo com um sorriso.
Eles se despedem e saem da sala, me deixando sozinha com os pensamentos embaralhados e o efeito devastador que David Jacobson acabara de causar em mim.
O restante da manhã passou em câmera lenta. Tentei focar no trabalho, revisar as campanhas que estavam em andamento, aprovar orçamentos e alinhar cronogramas com a equipe.
Mas, entre uma tarefa e outra, meus pensamentos escapavam, inevitavelmente, para aquele sorriso. Para aqueles olhos azuis que pareciam decifrar minha alma em segundos.
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