
Legado de Cinzas
Capítulo 2
Eu era a primeira-dama fantasma do palácio do governo, um segredo mal guardado, uma nota de rodapé na biografia oficial de Pedro.
Ele, o novo governador, meu marido, ou melhor, meu ex-marido, brilhava sob os holofotes.
Eu vivia na ala leste, num quarto luxuoso que parecia uma jaula de ouro.
Da minha janela, eu via o jardim perfeitamente cuidado, mas não podia pisar na grama. Eu era como uma peça de mobília antiga, valiosa demais para ser jogada fora, mas embaraçosa demais para ser exibida na sala de visitas.
Eu ajudei a construir cada degrau que Pedro subiu, sacrifiquei minha carreira, meus sonhos, e até minha dignidade, suportando suas traições em silêncio, tudo pela promessa de que um dia, quando chegássemos ao topo, tudo valeria a pena.
O topo chegou, mas eu não estava com ele.
A televisão na parede do meu quarto estava ligada, sem som.
As imagens mostravam Pedro no púlpito, o rosto sério, a postura de um estadista.
O letreiro na parte inferior da tela anunciava: "Governador Pedro anuncia noivado com a socialite Ana Clara" .
Meu coração não acelerou, não doeu.
Ficou dormente, como um membro que perdeu a circulação há muito tempo.
Eu observei seu rosto na tela, os gestos que eu mesma o ensinei a fazer para parecer confiável, a pausa dramática antes de uma frase importante.
Ele era uma obra minha, uma estátua que eu esculpa com meu próprio sangue e lágrimas, e que agora ganhava vida para me renegar.
Eu peguei o controle remoto e desliguei a TV.
O silêncio do quarto era mais ensurdecedor que o discurso dele.
A memória veio sem ser convidada, nítida e cruel.
A noite da eleição, a comemoração, o champanhe.
Ele me segurou pelos ombros no nosso antigo apartamento, os olhos brilhando de ambição, não de amor.
"Conseguimos, Luz. Nós conseguimos."
Ele disse "nós" .
Naquela noite, eu acreditei nele.
Uma semana depois, ele me trouxe para este palácio, para este quarto.
"É temporário, meu amor," ele disse. "Apenas até a poeira baixar, a imprensa se acalmar. A transição é um momento delicado."
Ele mentiu.
A porta do meu quarto se abriu sem aviso.
Era ela, Ana Clara.
Jovem, radiante, vestida com um tailleur branco que custava mais do que eu ganhava em um ano.
Ela me olhou de cima a baixo, um sorriso de desprezo nos lábios.
"Então esta é a famosa Maria da Luz."
Sua voz era suave, mas cheia de veneno.
"A mulher do povo que o Pedro tanto fala. A base, a raiz."
Ela caminhou pelo quarto, tocando meus poucos pertences com a ponta dos dedos, como se estivesse inspecionando a jaula de um animal.
"Sabe, eu ouvi tanto sobre seus sacrifícios. Como você vendeu doces na rua para pagar a faculdade dele. Comovente."
Eu permaneci em silêncio, meu rosto uma máscara de indiferença.
"Mas agora, o lugar dele é outro. E o seu também."
Ela parou na minha frente, perto demais.
"Ouvi dizer que você não pode mais ter filhos. Que pena. Pedro precisa de um herdeiro, um de sangue azul, não de... barro."
Ela olhou para minhas mãos.
"Ele me disse que tiraram a sua filha de você anos atrás, que você não era estável o suficiente. E agora, nem mesmo capaz de lhe dar um sucessor. Você é inútil para ele."
A menção da minha filha, Sofia, a ferida que nunca fechou, me atingiu com força. Mas eu não lhe daria a satisfação de ver minha dor.
"Saia do meu quarto," eu disse, a voz baixa e firme.
Ana Clara riu, um som cristalino e cruel.
"Seu quarto? Querida, nada aqui é seu. Em breve, nem mesmo o ar que você respira."
Ela se virou para sair, mas parou na porta.
"Ah, e o casamento será em um mês. Você não está convidada, claro. Mas poderá assistir pela TV. Em primeira fila."
A porta se fechou, e eu fiquei sozinha com o eco de suas palavras.
A raiva, a humilhação, a dor, tudo veio de uma vez. Eu me abracei, tremendo, tentando conter a tempestade dentro de mim.
Mais tarde, naquela noite, Pedro apareceu.
Ele entrou sem dizer uma palavra, afrouxando a gravata.
Sua presença encheu o quarto, o cheiro de seu perfume caro e de poder.
Ele não me olhou. Foi até o bar no canto, serviu-se de um uísque.
"Ana Clara esteve aqui," eu disse, a voz controlada.
"Eu sei," ele respondeu, virando o copo de uma vez. "Ela me contou."
Ele finalmente se virou para mim, os olhos frios, calculistas. Os mesmos olhos do garoto faminto que eu encontrei na rua anos atrás, mas agora vazios de qualquer calor.
"Ela disse que você foi... hostil."
Eu não consegui acreditar.
"Hostil? Pedro, ela me humilhou. Ela falou da minha filha."
Ele deu de ombros, um gesto de indiferença que dizia tudo.
"Luz, você precisa entender a situação. Ana Clara é de uma família importante. O apoio do pai dela é crucial para o meu governo."
"E eu? O que eu sou?"
"Você é o meu passado," ele disse, sem hesitar. "Um passado do qual eu sou grato, mas que precisa ficar... no passado. Seja razoável."
Ele se aproximou, tentou tocar meu rosto, mas eu recuei.
"Não me toque."
Seu rosto se endureceu.
"Não torne as coisas mais difíceis, Maria da Luz. Você tem tudo o que precisa aqui. Comida, teto, segurança. Muitas pessoas matariam para estar no seu lugar."
"Eu não sou uma prisioneira."
"Não," ele disse, a voz gélida. "Você é uma convidada. E convidados devem se comportar."
Ele me deu as costas e saiu, fechando a porta atrás de si. Ouvi o som inconfundível da chave girando na fechadura do lado de fora.
Eu estava trancada.
Fui até a janela e olhei para o jardim. Lá embaixo, em um canto escuro, havia um balanço velho, de madeira. O balanço onde eu costumava empurrar nossa filha, Sofia, por horas a fio. O som da risada dela parecia ecoar no vento da noite.
Era uma lembrança de uma felicidade tão distante que parecia pertencer a outra pessoa.
Uma felicidade que Pedro havia destruído.
E agora, ele me trancava aqui, com os fantasmas do que fomos, enquanto celebrava sua nova vida, construída sobre as ruínas da minha.
A dor deu lugar a uma frieza cortante.
A vingança não era mais um pensamento.
Era uma promessa.
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