
Legado de Cinzas
Capítulo 3
Passei uma semana trancada naquele quarto.
A comida era trazida por uma empregada silenciosa que não olhava nos meus olhos. A porta era destrancada apenas para a bandeja entrar e sair.
No oitavo dia, a porta se abriu e Pedro entrou.
Ele usava um terno impecável, o cabelo perfeitamente penteado. Ele parecia descansado, satisfeito.
Eu estava sentada na poltrona perto da janela, vestindo o mesmo vestido simples de uma semana atrás. Eu não tinha me arrumado. Eu não tinha feito nada além de pensar.
"Você parece terrível," ele disse, como se estivesse comentando sobre o tempo.
Ele se sentou no sofá oposto, cruzando as pernas.
"Espero que essa semana tenha servido para você refletir. Para colocar as coisas em perspectiva."
Eu o encarei em silêncio.
"Luz, eu preciso que você coopere," ele continuou, o tom agora paternalista, condescendente. "Eu estou construindo algo grande. Para o estado, para o nosso futuro."
"Nosso futuro?" eu repeti, a voz rouca pelo desuso.
"Sim, nosso. Você sempre fará parte da minha história. Mas preciso que você aceite seu novo papel. Com graça."
Ele se inclinou para frente, os cotovelos nos joelhos.
"Ana Clara está grávida."
A notícia caiu no silêncio do quarto como uma pedra.
Então era isso. A pressa, o noivado, a crueldade dela. Um herdeiro. Um de "sangue azul" .
"Eu preciso de estabilidade," ele disse, como se isso explicasse tudo. "A família dela, a imagem de uma família feliz e completa... é politicamente essencial. Qualquer escândalo agora seria desastroso. Você entende, não é?"
Ele estava me pedindo para ser sua cúmplice silenciosa mais uma vez. Para sacrificar o que restava de mim pelo bem de sua carreira.
A raiva que eu vinha reprimindo ferveu.
Eu me levantei.
"Sacrifício? Você quer falar de sacrifício, Pedro?"
Minha voz tremeu, mas não de fraqueza. De fúria.
"Eu sacrifiquei minha juventude vendendo doces para que você pudesse comer e estudar. Eu sacrifiquei meu corpo para ter nossa filha, que você depois tirou de mim dizendo que eu era instável, quando na verdade você só queria se livrar do peso de uma família pobre!"
Eu andava de um lado para o outro, a energia contida finalmente se libertando.
"Eu sacrifiquei noites de sono revisando seus discursos, articulando suas alianças, fazendo o trabalho sujo que sua equipe de playboys não sabia fazer! Eu sacrifiquei minha dignidade, Pedro, fingindo não ver suas amantes, suas mentiras, engolindo cada humilhação, tudo porque eu acreditava na porcaria do seu sonho!"
Eu parei na frente dele, meu peito subindo e descendo.
"E agora você vem me pedir mais um sacrifício? Para eu sorrir e aceitar ser jogada no lixo enquanto você constrói sua 'família feliz' com outra? Para eu abençoar o herdeiro que vai tomar o lugar da filha que você me roubou?"
As lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e amargas.
"Eu não te devo mais nada, Pedro. Nada."
Eu respirei fundo, o ar parecendo rasgar meus pulmões.
"Eu quero o divórcio. Oficial. E quero sair daqui. Agora."
Pedro me olhou, o rosto impassível. Por um momento, pensei ter visto um lampejo de algo em seus olhos – culpa, talvez? Mas desapareceu tão rápido quanto veio.
Ele estava prestes a responder quando a porta se abriu novamente.
Uma menina de uns cinco anos, com grandes olhos castanhos e cabelos cacheados presos em duas tranças, entrou correndo.
"Mamãe!"
Era Sofia. Minha Sofia.
Ela correu para mim e abraçou minhas pernas com força. Eu congelei, o choque me paralisando por um segundo, antes de me ajoelhar e envolvê-la em meus braços, enterrando meu rosto em seus cabelos, inalando o cheiro doce de criança que eu pensei ter perdido para sempre.
"Meu amor, meu amor," eu sussurrei, as palavras se perdendo em soluços.
Pedro se levantou, um sorriso forçado no rosto.
"Sofia, o que eu disse sobre entrar correndo?"
Ele se ajoelhou ao nosso lado, colocando a mão na cabeça dela.
"Veja, filha, sua mãe está um pouco emotiva hoje. Por que você não mostra a ela o desenho que fez na escola?"
Sofia se afastou de mim, os olhos brilhando de excitação, e me entregou um pedaço de papel amassado. Era um desenho colorido de três figuras de palito sob um sol sorridente. Um homem grande, uma mulher grande e uma menininha no meio.
"Somos nós," ela disse, apontando. "Papai, você e eu."
Meu coração se partiu em um milhão de pedaços.
Pedro sorriu para mim por cima da cabeça dela, um sorriso que dizia "Viu? Você não pode me deixar. Pense nela."
Ele estava usando minha própria filha contra mim.
Ele se levantou, ajeitando o terno.
"Eu vou deixá-las a sós por um tempo," ele disse, o tom magnânimo. "Mas depois, Luz, nós teremos que terminar nossa conversa. E espero que você seja mais razoável."
Ele olhou para mim, e seu olhar era frio como gelo.
"Olhe para si mesma. Um farrapo. Você realmente acha que tem condições de cuidar de uma criança? Sozinha, sem mim? Você não é nada sem mim."
Ele se virou e saiu, deixando a porta aberta desta vez.
Sofia olhou para mim, os olhos grandes e preocupados.
"Mamãe, você está chorando?"
Eu rapidamente enxuguei as lágrimas, forçando um sorriso.
"Não, meu amor. É que a mamãe está muito, muito feliz em te ver."
Eu a abracei novamente, com força.
Ela não entendia a crueldade do pai dela, a falsidade daquele momento. Para ela, era apenas uma família reunida.
Eu olhei para seu rostinho inocente e um novo tipo de determinação tomou conta de mim.
Não era mais apenas sobre vingança.
Era sobre proteger Sofia.
E para isso, eu precisava ser mais forte e mais inteligente do que Pedro jamais imaginou que eu pudesse ser.
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