
Herdeira Renascida: Vingança e Amor Verdadeiro Encontrado
Capítulo 2
Ponto de Vista de Beatriz:
O branco estéril do quarto do hospital era um contraste gritante com a decoração luxuosa, porém sufocante, da suíte de recuperação em que me encontrei. Uma gaiola dourada, talvez. Minha cabeça latejava, uma dor surda que espelhava o vazio em meu peito. Eu me mexi, os lençóis de seda sussurrando com meu movimento.
Caio, que estava sentado perto da janela, virou-se instantaneamente. Seu rosto era um retrato de preocupação ensaiada, uma carranca preocupada gravada entre suas sobrancelhas perfeitamente cuidadas.
"Bia, você acordou", disse ele, sua voz um murmúrio suave, do tipo que costumava me derreter. Ele se moveu em direção à cama, sua mão buscando a minha. "Como você está se sentindo, meu bem?"
Eu recuei ligeiramente, puxando minha mão antes que ele pudesse me tocar. O calor fantasma de sua mão, um calor que eu antes ansiava, agora parecia uma marca de ferro. Seus olhos piscaram, um flash momentâneo de algo indecifrável antes que a máscara de preocupação se acomodasse de volta no lugar.
"Estou bem", eu disse, minha voz plana, desprovida da emoção que costumava surgir sempre que ele estava perto.
Ele se sentou na beira da cama, uma postura confortável e familiar que agora parecia invasiva.
"Olha, Alessandra está muito chateada com o que aconteceu. Ela se sente péssima", ele começou, a mesma velha ladainha. "Ela não queria que você se machucasse, você sabe como ela pode ser impulsiva."
"Impulsiva?", eu o cortei, um tom afiado na minha voz. "Ela tentou me matar, Caio. Isso não é impulso, é tentativa de homicídio." As palavras tinham gosto de cinzas na minha boca.
Ele suspirou, passando a mão por seus cabelos escuros.
"Eu sei que parece ruim, mas você tem que entender minha posição, Bia. Minha família... os Dantas... eles finalmente me aceitaram. Este noivado com Alessandra, é crucial. Solidifica meu lugar." Ele alcançou minha mão novamente, seus dedos roçando os meus. "É tudo por nós, Bia. Assim que eu garantir minha posição, poderemos ficar juntos abertamente, sem todo esse drama."
Ele falava de 'nós', de 'nosso futuro', mas as palavras eram ocas, desprovidas de qualquer significado real. Lembrei-me dele me dizendo a mesma coisa depois que Alessandra denunciou anonimamente minha inscrição para bolsa de estudos de arte por plágio, quase arruinando minha carreira acadêmica. "É apenas um contratempo temporário, querida", ele disse, segurando meu rosto em suas mãos. "Assim que eu estiver estável, construiremos um império juntos." Eu via através da performance agora, a pretensão cuidadosamente elaborada de um sonho compartilhado.
"Não existe 'nós', Caio", afirmei, minha voz firme apesar do tremor em minha alma. Eu olhei para ele, realmente olhei para ele, e vi um estranho. O homem que eu amava era um fantasma, substituído por esta casca ambiciosa e manipuladora.
Seus olhos se arregalaram, a confusão nublando-os.
"Do que você está falando? Claro que existe um nós! Estamos juntos há três anos, Bia. Você não se lembra de todos os nossos planos?" Ele parecia genuinamente perplexo, como se minha clareza repentina fosse uma anomalia, não uma consequência de suas ações. Ele até tentou um pequeno sorriso suplicante, um que costumava torcer meu coração de afeto. "Por favor, Bia. Não jogue tudo isso fora."
Eu me inclinei para trás contra os travesseiros, uma risada seca e sem humor escapando dos meus lábios.
"Planos, Caio? Você quer dizer seus planos para eu ser sua enfermeira e saco de pancadas conveniente e não remunerada enquanto você subia na escala social?" Minha voz se elevou, uma maré amarga. "Você me sacrificou, Caio. Noventa e nove vezes, você a deixou me machucar, e na centésima vez, você estava pronto para deixá-la me matar por sua preciosa herança."
Naquele momento, a porta se abriu com um estrondo. Uma enfermeira, com o rosto pálido, entrou correndo.
"Sr. Dantas, a Srta. Guerra está ferida! Os médicos estão chamando por você imediatamente!"
A cabeça de Caio se virou para a porta, sua fachada cuidadosamente construída rachando. Seus olhos, que momentos antes me suplicavam, agora se encheram de alarme genuíno por Alessandra. Ele se levantou abruptamente, sem um olhar para trás.
"Estou indo!", ele gritou, sua voz tensa de urgência. Ele saiu correndo, a porta se fechando atrás dele, deixando-me sozinha no quarto silencioso e estéril.
Meu coração não se partiu. Já havia se estilhaçado em um milhão de pedaços na noite anterior. Isso era apenas mais um caco, caindo no abismo. Fechei os olhos, uma única lágrima quente traçando um caminho pela minha têmpora. Eu era descartável. Ele tinha feito sua escolha.
Lutando contra a dor, lentamente balancei minhas pernas para o lado da cama. O mundo inclinou, mas eu continuei, meu corpo ainda fraco, mas minha determinação dura como ferro. Eu tinha que ver. Eu tinha que testemunhar sua verdadeira lealdade com meus próprios olhos, para queimar isso em minha memória para que não houvesse volta.
Eu mancava pelo corredor imaculado, guiada pelo murmúrio de vozes. Eu os encontrei em um quarto particular, apenas algumas portas adiante. Alessandra, envolta em uma camisola de hospital frágil, estava dramaticamente segurando seu braço enfaixado, seus olhos arregalados e lacrimejantes enquanto olhava para Caio.
"Oh, Caio!", ela choramingou, sua voz teatral. "Foi tão assustador! Ela simplesmente me atacou do nada!"
Caio sentou-se ao lado dela, seu braço envolvendo seus ombros trêmulos, acariciando seu cabelo.
"Shhh, está tudo bem, querida", ele acalmou, sua voz pingando afeto. "Você está segura agora. Não vou deixar que ela te toque de novo." Seu olhar caiu sobre meu reflexo na janela, um flash de irritação cruzando seu rosto. Minha presença era um inconveniente.
Ele se levantou, caminhando em minha direção, sua expressão severa.
"Bia, o que você está fazendo aqui? Você deveria estar descansando." Ele pegou meu braço, seu aperto surpreendentemente firme. "Vamos voltar para o seu quarto. Você está exausta." Ele tentou me levar embora, fingir que tudo estava normal, que eu ainda era sua namorada dócil e amorosa.
Eu puxei meu braço, meus olhos fixos em Alessandra, que agora observava com um sorriso presunçoso e vitorioso.
"Descansar? Depois de você ter acabado de anunciar seu noivado com ela e me chamado de 'degrau descartável'?" Minha voz era baixa, mas cada palavra era um dardo envenenado. "Você quer que eu descanse enquanto sua noiva, a mulher que me aterrorizou por anos, está sendo confortada por você, o homem que deixou isso acontecer?"
O rosto de Caio corou. Ele olhou para trás, um olhar de pânico para Alessandra e a porta aberta.
"Bia, não seja ridícula. Você está emotiva. Alessandra é minha noiva, sim, mas você sabe que é para mostrar, para os Dantas." Ele se inclinou, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Você é meu amor verdadeiro, Bia. Sempre foi. Apenas seja paciente. Vamos superar isso."
Minha espinha se enrijeceu. Paciência? Amor? As palavras eram uma paródia grotesca do nosso passado.
"Você não é meu amor verdadeiro, Caio. Você nunca foi. Você era um parasita, se alimentando da minha bondade, do meu talento, da minha devoção inabalável." Apontei um dedo trêmulo para Alessandra. "E ela era sua cúmplice. Vocês dois se merecem."
O ar crepitou com tensão. A mandíbula de Caio se contraiu.
"Bia, você está fazendo uma cena. E está acusando Alessandra injustamente." Ele se virou para ela, sua voz suavizando mais uma vez. "Querida, por favor, ignore-a. Ela está claramente delirando por causa dos ferimentos."
Alessandra, sempre a atriz, enxugou os olhos.
"Está tudo bem, Caio. Eu entendo que ela está chateada. Mas eu gostaria que ela não fizesse acusações tão absurdas. Eu sempre tentei ser amiga dela."
Caio se virou para mim, seus olhos ardendo com uma fúria fria.
"Peça desculpas, Bia. Peça desculpas a Alessandra agora." Sua voz era baixa, mas continha uma ameaça inegável. "Ou você não vai gostar das consequências."
Eu o encarei, o estranho que ele havia se tornado. Este não era o homem que eu amava. Este não era nem mesmo um homem que eu reconhecia. Era um predador, astuto e implacável, envolto em um falso charme. Minha visão embaçou, não com lágrimas, mas com uma sensação súbita e avassaladora de finalidade. Uma parede de gelo se formou ao redor do meu coração, selando-o da dor, da traição.
"Não há mais nada a dizer, Caio", sussurrei, minha voz assustadoramente calma. "Espero que você e sua nova noiva tenham uma vida maravilhosa juntos."
Então, eu me virei e fui embora, cada passo uma agonia, mas cada passo também uma libertação. Saí daquele quarto, daquele hospital, e da vida de Caio Dantas, sem nunca olhar para trás.
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