
Herdeira Renascida: Vingança e Amor Verdadeiro Encontrado
Capítulo 3
Ponto de Vista de Beatriz:
A noite caiu como uma mortalha, pesada e sufocante. Eu estava deitada na cama da suíte do hospital, olhando para o teto, o brilho das luzes da cidade pintando padrões abstratos no branco imaculado. O sono era um luxo que minha mente atormentada não podia pagar. Caio não havia retornado. Não que eu esperasse que ele voltasse, não depois do que eu testemunhei.
Uma batida suave interrompeu o silêncio. A eficiente governanta de cabelos prateados da propriedade dos Dantas, Dona Elvira, entrou.
"Senhorita Macedo", disse ela, sua voz seca e formal. "O Sr. Dantas me pediu para informá-la que ele chegará tarde, cuidando de um assunto familiar urgente."
"Um assunto familiar urgente", repeti, um gosto amargo na boca. Um assunto familiar chamado Alessandra Guerra. Eu assenti, dispensando-a com um aceno de mão. Ela saiu, deixando-me sozinha com meus pensamentos e a dor agonizante em meu peito.
Meu celular, agarrado em minha mão, vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido. Minha respiração engatou. Era uma foto. Caio, rindo, seu braço firmemente em volta de Alessandra, a cabeça dela aninhada em seu ombro. Eles estavam em algum restaurante chique, a luz de velas brilhando em suas taças de vinho. Abaixo da foto, uma legenda: "Aproveitando uma noite adorável com meu noivo. Algumas pessoas simplesmente não sabem quando desistir." Era Alessandra, se gabando, esfregando sal nas feridas que ela mesma havia cavado.
Verifiquei a marcação de localização. Era a quilômetros de distância do hospital, em nenhum lugar perto de qualquer "assunto familiar urgente". A mentira, tão casual, tão sem esforço, torceu a faca em minhas entranhas. Ele nem se deu ao trabalho de inventar um álibi convincente. Eu não era nada.
Uma calma estranha se instalou sobre mim, fria e absoluta. Meus dedos, agora firmes, digitaram um endereço no aplicativo de mapas. Era o endereço do restaurante. Levantei-me da cama, ignorando os protestos do meu corpo ainda em recuperação. A dor era irrelevante. Apenas a clareza permanecia.
Chamei um táxi, o ar fresco da noite fazendo pouco para acalmar o fogo em minhas veias. O restaurante era um farol de luzes suaves e risadas abafadas. Paguei o motorista e caminhei em direção à entrada, meu coração batendo um ritmo lento e deliberado. O manobrista, reconhecendo-me de minhas visitas anteriores com Caio, acenou educadamente.
"Boa noite, Senhorita Macedo. O Sr. Dantas está lá dentro, com a Senhorita Guerra." Seu tom era deferente, inconsciente da tempestade que se formava dentro de mim.
Passei por ele, meu olhar fixo na sala de jantar privativa que eu sabia que Caio preferia. A porta estava ligeiramente entreaberta, uma fresta de luz e o murmúrio de vozes escapando. A voz de Caio. Meu sangue gelou.
"Beatriz Macedo? Ela é uma artista patética e grudenta", ele zombou, sua voz alta o suficiente para passar pela fresta. "Sempre tão emotiva. Honestamente, não sei o que vi nela."
Uma onda de risadas seguiu suas palavras.
"Oh, Caio, você é muito gentil", uma voz de mulher ronronou. "Todos nós sabemos que você sempre teve olho para qualidade. E Beatriz... coitadinha, ela era simplesmente ingênua demais." Era uma das bajuladoras de Alessandra.
A própria voz de Alessandra cortou, afiada e triunfante.
"Ela realmente achou que podia competir, não é? Depois de tudo que você fez por ela, Caio, ela ainda acreditava que era indispensável."
Minhas mãos se fecharam em punhos, meus nós dos dedos brancos. Meu coração batia forte, mas era um tambor de fúria, não de dor. Era isso. A verdade final e inegável.
"Indispensável?", Caio zombou, uma risada cruel se seguindo. "Ela foi útil, nada mais. Uma distração conveniente, um tapa-buraco até que eu pudesse garantir o que era meu por direito. Mas agora, com a família de Alessandra me apoiando, minha posição é inegável. Beatriz é notícia velha."
Ele continuou, sua voz espessa com uma arrogância egoísta.
"Alessandra é o futuro. Ela traz status, poder, conexões reais. Beatriz trouxe... aquarelas e dívidas de estudante." Mais risadas. O som arranhou minha alma.
Pensei nas longas noites que passei cuidando dele em seus episódios cardíacos, nos turnos extras que peguei para cobrir suas extravagantes contas médicas, na maneira como pintei encomenda após encomenda, sacrificando minha própria visão artística para manter um teto sobre nossas cabeças. Tudo por um homem que me via como nada mais do que um inconveniente temporário.
A voz de Alessandra interrompeu meus pensamentos, mais perto agora. Espiei pela fresta e a vi se levantar, taça na mão, movendo-se em direção a Caio. Ela se inclinou, seus lábios quase tocando sua orelha.
"E sabe, querido", ela sussurrou, sua voz tingida de um triunfo venenoso, "estamos juntos há muito mais tempo do que ela jamais suspeitou. Todas as vezes que ela veio chorando para você sobre mim, eu já estava com você."
Minha respiração engatou. O mundo inclinou. Não 99 atos de crueldade. Noventa e nove atos de tortura orquestrada, com Caio como seu cúmplice silencioso e voluntário. A dor era física, uma agonia aguda e lancinante que ameaçava me partir em duas.
Alessandra se afastou, seus olhos encontrando os de Caio.
"Ela realmente acreditava que você a amava, não é? Mesmo quando eu disse a ela, você sempre foi tão bom em fazê-la duvidar de si mesma." Seu olhar mudou, seus olhos se fixando nos meus através da estreita fresta na porta. Um sorriso lento e arrepiante se espalhou por seu rosto. "Considere este seu aviso final, Beatriz. Fique longe do Caio, ou você se arrependerá muito mais do que pode imaginar."
Caio, seus olhos vidrados de álcool e triunfo, não notou o olhar sinistro de Alessandra. Ele tropeçou ligeiramente, passando por ela com uma risada bêbada.
"Saia, Beatriz! Saia da minha vida!", ele arrastou as palavras, acenando com uma mão desdenhosa, como se eu fosse uma mosca incômoda.
Meus olhos, fixos nos dele, ardiam com uma fúria fria e clara. A raiva, pura e emocionante, lavou todos os últimos vestígios de dor. Ele era um monstro. Um verdadeiro monstro. E eu o amei. Mas não mais. Minha mão disparou, pegando uma garrafa de vinho meio vazia de uma mesa próxima. Com um grito que rasgou de minhas entranhas, eu a balancei, não para ele, mas para o caro lustre de cristal pendurado acima de sua cabeça. O vidro se estilhaçou, chovendo fragmentos, cada caco um reflexo do meu coração partido.
"Você me quer fora, Caio?", gritei, minha voz rouca, ecoando pelo silêncio atordoado da sala. "Tudo bem! Mas prepare-se, porque da próxima vez que você me vir, você desejará nunca ter visto!"
Eu me virei, meus olhos encontrando os de Alessandra. Seu sorriso vacilou, substituído por um lampejo de medo genuíno. Eu lhe dei um sorriso lento e predatório.
"Isso não acabou, Alessandra. Nem de longe."
Com isso, saí, deixando para trás os destroços do meu amor e entrando na noite fria e implacável. O engano, a traição, as mentiras - tudo estava exposto. E em seu lugar, uma nova e aterrorizante determinação havia nascido.
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