
Entre o medo e o Desejo - Resistindo a você!
Capítulo 2
«Nihara Vitti»
Da varada do meu quarto observo o brilho intenso do círculo de prata, solitária apesar de rodeia de pontos brilhantes. Assim como eu. Passara-se seis meses desde que soube da traição do meu ex, mais as cicatrizes do meu coração ainda doem como se dias nenhum tivessem passado.
Tentei seguir em frente, distrair-me com o trabalho, com os amigos, passatempos, mas nada parece tira-me do estado de dor e tristeza profunda. Sempre me pego pensando nele, nas lembranças felizes que compartilhamos, e então a dor é mais aguda quando percebo que tudo não passou de uma mentira.
Eu ainda tenho pesadelos. Sonho com ele e com a outra mulher, com a humilhação que senti quando descobri tudo no altar em frente a mais de cem pessoas. E mesmo acordada ainda sinto uma sensação de aperto no peito como se o mundo estivesse a desmoronar ao meu redor.
Dou uma pausa na escrita, no meu diário e encaro novamente o brilho da lua, suspirando cansada. Preciso recupera-me, preciso de voltar a brilhar assim com a lua, independente do tamanho da minha dor, talvez precise de estar longe daqui, de tudo que me lembra aquele fatídico dia. Falo em voz alta.
Leandra surgi agora no meu pensamento, ela sempre desejou ter-me junto dela lá em Berlim, "nem que fosse por um dia", como ela disse da última vez que falamos.
Levanto-me deixando o diário de lado, entro no quarto e pego o telefone na cabeceira da cama, absorvo o ar com veemência e o libero morosamente antes de buscar pelo número de Leandra, a minha irmã que vive na Alemanha a sete anos.
Não demora ela atende.
— Oi, Léah como você está?
— Oi mana, estou ótima e você como tens passado?
— Ah, tentando curar-me antes que essa ferida se torne crónica.
— Eu… sinto muito — murmura, depois de uma curta pausa —, por que não vens passar uma temporada aqui? Não tem nada melhor que viajar para esquecer uma desilusão amorosa.
— É por esse motivo que te liguei — digo, hesitante.
— Você finalmente vai ACEITAR O MEU CONVITE? NÃO BRINCA?
Volto a pôr o telefone no ouvido depois de o ter afastado dos gritos dela.
— Sim. E penso ficar por tempo indeterminado.
— Não tem problema nenhum, você e su…, SIMON SAIA DAÍ JÁ. Desculpe Niah, esse miúdo não para quieto,
— Simon, como ele está?
— Está grande, com dois anos já, a minha dor de cabeça e, ao mesmo tempo, meu paracetamol.
Leandra se perde em pensamentos.
— Ah, quero muito conhecê-lo, e apertar aquelas bochechinhas fofas.
— Finalmente vais poder conhecê-lo. Mas voltando ao assunto. O que eu dizia mesmo? Ah, você tem um sentido de oportunidade excelente...
— Por que dizes isso? Levanto uma sobrancelha, curiosa.
— É que nesse momento na empresa onde trabalho a vaga para diretor de criação está desocupada, e o meu chefe incumbiu-me de fazer as entrevistas com possíveis candidatos à vaga e, eu devo selecionar apenas três portfólios, para que ele mesmo escolha o candidato perfeito, cito as suas palavras.
— Espera... ainda trabalha como assistente de rh na agência de publicidade metamorfose? Não, — exclamo levando a mão desocupada a boca e, volto a sentar-me na beira da cama.
— Sim, meu bem.
— Meu Deus, isso é ótimo.
— Né? Azar no amor, sorte no trabalho.
— Na verdade, é sorte no jogo, Leandra.
— Tanto faz. Envia agora mesmo seu Curriculum e portfólio.
Corro até ao escritório/biblioteca que fica no mesmo corredor entre o meu quarto e o quarto da minha irmã. Tudo no meu quarto está organizado nos mínimos detalhes e aqui no escritório não é diferente, os livros físicos estão organizados por género e ordem alfabética e no computador o mesmo, os documentos, fotos, músicas, vídeos e livros digitais, em pasta diferentes, por isso não demoro para achar os documentos que preciso. Abro o correio eletrónico e anexos os arquivos, e envio. Uma nova vida espera-me, sussurro, segundos depois recebo a confirmação de que o correio eletrónico foi lido, e minutos mais tarde ela responde.
***
Os raios de sol invadem o meu pequeno quarto, destacando a fragilidade dos cortinados amarelados. Embora deseje ficar deitada o dia todo, lembro que tenho um último trabalho para entregar: a apresentação do site que criei para uma empresa de artigos desportivos.
Caminho lentamente até o casa de banho, ainda sonolenta esfregando os olhos. A água fria escorrendo pelo meu corpo relaxa-me e a minha mente volta no tempo sem que eu perceba.
«O fruto do nosso amor está a caminho, papai e mamãe já estão ansiosos demais»
«Eu sempre soube que esse relacionamento não chegaria tão longe, era bom demais para ser verdade»
«Ela é muito achada lhe mereci»
Levo um susto quando ouço batidas na porta e dou-me conta de que estou a vários minutos presa em pensamentos com a água jorrando em mim sem parar.
As pressas, cubro-me, saio da casa de banho, e já no quarto dou de cara com a Nilza, sentada na beirada da cama, olhando fixa para o quadro de foto em tamanho médio, eu vestida de noiva. Preciso tirar isso daí.
— O que você está a fazer aqui? — Indago, tentando manter a calma.
— E-eu precisava falar com você — disse ela, aproximando-se. — Sinto muito pelo que aconteceu, eu queria ter-te contado, mas eu não pude.
— Você sabia o tempo todo que ele me traía e nunca me disse nada — a minha voz saí tremula de raiva —, e agora você vem aqui tentando se justificar? Não quero ouvir as suas desculpas, Nilza. Eu não quero ver-te nunca mais.
— Por favor, você precisa ouvir-me — ela, segura as minhas mãos. — Eu estava com medo de que você se machucasse ainda mais se soubesse a verdade. Eu não queria que você passasse pelo que passei.
— E o que sabes sobre mim? — gritei, puxando as minhas mãos. — Eu vivia uma mentira, me preparando para casar com um homem que me traía. E você sabia disso e não fez nada para me ajudar.
— E-eu sei — diz ela, soluçando. — Sei que errei e sinto muito. Mas por favor, você precisa entender que eu só tentava proteger-te.
— Proteger? Proteger-me como? Deixar-me casar com um mentiroso? Você não sabe o que é proteção, Nilza. Você só sabe o que é trair uma amiga.
Empurro-a para fora do quarto e fecho a porta com força. Quero gritar, chorar, mas seguro-me. Não vou chorar de novo, por mais ninguém. Sento-me na cama, a minha cabeça girando de emoções.
Eu não sabia como lidar com essa traição, mas eu sabia que nunca mais confiaria em Nilza novamente.
Desço para tomar o pequeno-almoço, e acabo brigando com a minha irmã que permitiu a entrada daquela hiena no meu quarto, mas entre abraços e soluços e terminamos por nos entendermos, e abraçamos-nos eu a minha mãe, minha irmã e o meu irmão, faltando o meu pai nesse abraço. Depois, cada um de nós, deixamos o nosso lar para trás, cada um em direção ao seu destino.
***
Ao final do dia, finalmente estou em casa, exausta após resolver os últimos pendentes do trabalho e da viagem. Subo para o meu quarto, após tomar um banho, de água fria jogo-me na cama e pego no sono.
Acordando minutos depois com o som do telefone. Atendo logo sem olha a tela do aparelho.
— Nihara, ouvi dizer que você está a ir embora do país, isso é verdade?
Empertigo-me, assim que reconheço a voz do outro lado da linha. Como ele ousa, penso.
— Sim, é verdade, Bráulio. Eu estou a ir embora e isso não é da sua conta.
— Por favor, Nihara, não vá embora. Eu sei que errei, mas eu ainda te amo. Por favor, dê-me outra chance — ele implora.
Fecho os olhos com força, tentando controlar a raiva.
— Outra chance, Bráulio? Você acha mesmo que vou simplesmente perdoar-te e voltar para os seus braços? Você é patético. Por favor, deixe-me em paz — responde com veemência.
Bráulio tenta argumentar, mas desligo o telefone, sentindo as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Limpo-as com tanta força quase arrancando parte da pele, promete não chora de novo. É hora de seguir em frente e deixar o passado para trás.
Reúno-me com a minha família a mesa do jantar, e agora penso ser o melhor momento para contar sobre a minha decisão, essa que o maldito Bráulio ficou a saber não sei como. Observo-os conversando, e apenas balanço a cabeça concordando com o que dizem, até que engolindo em seco, abro a boca e deixo-os surpreso e se reação quando lhe digo de repente:
— Vou mudar-me para a Alemanha daqui alguns dias.
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