Capa do romance A vingança de Cleópatra

A vingança de Cleópatra

9.0 / 10.0
Criada em um abrigo, Cleo foca nos estudos para ser delegada, até que um encontro com Victorio muda seu rumo. Apesar de evitar o amor, ela se entrega a uma paixão perigosa. Após anos juntos, uma tragédia ocorre e ele a abandona no pior momento. Uma década depois, Victorio ressurge implorando por ajuda. Entre mistérios e mágoas, essa história de resiliência e força feminina questiona se o perdão é possível após uma traição que transformou toda uma vida.

A vingança de Cleópatra Capítulo 1

A todos e todas que um dia souberam fazer de suas dores, aprendizado. É sempre tempo de aprender a ser melhor.

A Maria Flor, minha bobinha e meu melhor acontecimento.

Ao Hop, meu gato siamês bagunceirinho, e aos doces roubados da geladeira, meus grandes companheiros de escrita nas madrugadas.

A Deus.

Aos meus pais, Ananias e Tânia; irmão, Ananias Junior (meu leitor-beta mais sincero), e toda minha família, por me incentivarem à leitura e escrita desde a primeira infância. Os primeiros “culpados”!

Aos meus professores (todos e todas!), do jardim de infância à faculdade.

Aos amigos e colegas de trabalho, que sempre deram força, com palavras positivas e broncas. “Escreve sim, termina logo, sua procrastinadora, ansiosa(o) pra ler!” rs Em especial, Matheus Merlim e sua mãe, tia Andrea; Elena Wesley, Thuany Dossares e Aretha Dossares (obrigada pelo laboratório em direito médico e civil haha); e Lia Oliveira, prima, irmã e ser humano inspirador.

A todas as Cleópatras do século 21, que vencem diariamente o grande desafio que é ser mulher.

Violência contra a mulher é crime. Denuncie 180.

Prólogo

Sexta-feira à noite, 35 graus, Lapa. Uma rotina de pelo menos oito anos. Naquela noite, o Braga tinha decidido parar de beber pela quadragésima nona vez, e a Claudinha, fingindo que acreditava, também jurou que dali em diante não fumaria mais. Faltavam alguns minutos para meia-noite e o bar já estava abarrotado. Comecei a pensar que em breve teríamos que achar outro lugar para jogar conversa fora. Além do tumulto, a mesmice de tantos anos começava a me entediar.

— E aí, Cleo, faz dupla comigo hoje? — Murilo chamou, enquanto afiava com giz um dos tacos.

— Não tô pra sinuca hoje. Deixa pra próxima. - respondi e pisquei.

Assim como com aquele bar, fazia tempo que meu encanto pela sinuca tinha se perdido também. Talvez eu estivesse ali muito mais por conveniência do que por prazer. Encontrar os colegas, debater coisas inúteis como trânsito, salários, clima. Falar mal do chefe. Resumindo, era o ponto de refúgio depois de uma semana estressante. Mas o que deveria ser uma fuga da rotina estava tão previsível que nem eu sabia mais o que fazia ali. Decidi ir pra casa mais cedo, não deixaram.

— Que isso, nem completou sua cota da noite! — Braga falou, com a voz já embargada pelo chopp – Sua garrafa de vinho por uma torre de chopp, esqueceu? Olha aí, não tomou nem uma caneca!

— Cleo e sua mania de vinho. Se bebesse cerveja, já tinha descido umas cinco latinhas. Fica de frescura.

Murilo não queria perder o posto de mais implicante do grupo, principalmente se a implicância era comigo. Se meu humor estivesse em cem por cento, talvez eu discursasse mais uma vez sobre o porque preferia vinho à cerveja. Mas todos os presentes já sabiam a minha história de cor, e ser repetitiva nunca foi a minha praia.

— Cleo está precisando é que o namorado a ponha nos eixos. — instigou Claudia, sorrisinho de lado, fazendo aspas com as mãos.

Explodi. Ou melhor, fingi que explodi para poder ir embora.

— Que é? Vocês não têm suas vidas pra cuidar não? Tsc. — Levantei da cadeira, larguei o dinheiro na mesa e meti a mochila nas costas. — Tô com dor de cabeça, vou pra casa dormir.

Todo mundo estranhou. Eu não era de explodir. Quando agia assim, era na brincadeira e logo voltava ao normal, me entregando às risadas. Mas dessa vez o tédio e a sensação de que algo ruim estava para acontecer estavam tão insuportáveis, que eu preferi desmentir a brincadeira só no dia seguinte. Queria ir pra cama mais cedo, queria ver o Bingo. Queria sumir.

Capítulo 01

O dia mais esperado da semana por todos os assalariados. O dia do lixo, da paz interior, exterior, multilateral. O dia do descanso divino. Sábado. Infelizmente todas essas denotações universais sobre o sábado nunca se aplicaram à minha realidade. Quando o dia resolve dar o ar da graça antes do meio-dia, então...Sei que o resto do fim de semana será um inferno. E mais uma vez não me enganei. Lucas tinha se levantado para trabalhar no meio da madrugada como de costume. E como de costume, tinha esquecido a chave e estava feito louco tocando seguidamente a campainha para me acordar. Ou foi o que pensei.

— Porra, Lucas, outra vez ess.. Você não é o Lucas. — digo, atordoada com a imagem inesperada do homem à minha frente.

— Não, não sou.

Fico sem ter o que dizer. Toda a revolta por ter sido acordada em plena manhã de um sábado sagrado é substituída por uma onda de ansiedade. Merda, esqueci completamente que ele viria hoje.

— Tá muito ocupada? — ele tenta interromper o silêncio mortal entre nós.

Bom, é sábado de manhã, o apartamento está revirado, minha cara amassada e estou vestindo um micropijama. Dá pra sobreviver.

— Não. Ocupada, não. Na verdade, não sei. Acabei de acordar, não costumo raciocinar bem antes de meio-dia. — respondo, sincera.

— Desculpe.

— Tá. Tudo bem.

— …

Um longo minuto se passa enquanto nos encaramos. Apesar de achar impossível que ele queira entrar depois de me ver neste estado, e torcer mentalmente para que suas desculpas se estendam a um “Acho melhor vir outra hora” ou ainda “Acho melhor não vir nunca mais”, ele parece irredutível, com uma das mãos apoiada no batente da porta. Ao passo que tento disfarçar o nervosismo, segurando firme a porta entreaberta, ele permanece na posição inicial, aparentemente confortável. Para completar, solta um risinho, prolongando o clima martirizante entre nós. O que pode ele querer agora, depois de tantos anos? Que o convide para entrar e tomar um cafezinho? Poupe-me.

— Então? — questiono, sem me atrever a soltar a porta.

— Posso entrar? — ele indaga, com firmeza na voz.

Pronto, a pergunta que eu mais temia. Como esquecer do seu atrevimento sem limites? Como  esquecer de como ele sempre acabava dominando o território e o diálogo sem que eu sequer percebesse? Foi há tanto tempo, mas bastava meio segundo daquele olhar sobre mim que é como se não tivesse passado uma semana. Uma avalanche de momentos ótimos e péssimos vêm à tona para me confundir.

— A pergunta é: eu deveria? — jogo, tentando manter a postura.

— Não, não. A pergunta é: você quer? Prometo não demorar mais que vinte minutos.

— Parece pouco, depois de doze anos. — afirmo, oferecendo o melhor do meu tom ácido.

E então ele ri mais uma vez. De fato, irredutível. Sempre foi. Um dos poucos, talvez o único, que sempre soube me tirar do estado de convicção, fazendo pouco caso do meu jeito irônico.

—  Eu avisei que viria. Não pode alegar que está surpresa. — ele joga na minha cara, sem piedade.

Prevendo que não posso fazê-lo desistir, dou-lhe as costas, deixando a porta aberta. Nem perco meu tempo em dizer “Não repare a bagunça”, porque realmente não me importo. Como se ele já não me conhecesse o bastante para saber dos meus hábitos de desorganização, seja em casa ou na vida.

— Pode ligar a tevê, vou só trocar de roupa. — falo em tom de tédio, torcendo falsamente para que a “visita” dure o tempo prometido de vinte minutos.

Ao ir para o quarto, tento manter meus neurônios no lugar. É muita informação para as nove da manhã de um sábado. Ainda mais para um sábado de ressaca. Logo eu, a “rainha da memória”, fui esquecer dessa visita inconveniente. E para quem é, ele foi ridiculamente pontual, o que me dá mais raiva.

— Vamos lá, repassando. Ele é um babaca do passado que provavelmente está na pior e veio pedir uma ajuda. Ou ainda, ele é um babaca do passado que passou por um acesso de insana curiosidade em saber por onde a vítima dele andava. E acabou encontrando, ao que parece. Pronto, melhor encarar do que fugir. — sorrio satisfeita para o espelho após ter trocado de roupa, escovado os dentes e improvisado um rabo de cavalo. Um short de tecido preto, uma blusa simples e chinelos estão mais do que ótimo para a visita que é.

Volto para a sala e lá está ele sentado no sofá, apoiado nos joelhos, cabisbaixo, com o meu cachorro, o Bingo, rodeando suas pernas. Ao sentir a minha volta, ele levanta de súbito. Atitudes de alguém apreensivo, ou posso estar enganada?

— Não quis ligar a tevê? — escolho uma pergunta aleatória para iniciar o inevitável.

— Nada de bom passando nesse horário. — ele diz, em tom presunçoso. — E realmente não quero demorar.

— Ótimo. E então? — repito minha pergunta já tão conhecida em abertura de diálogos.

— Bom, você me conhece. Eu costumo ir direto ao ponto, então…

— É o que eu espero. — exclamo, decidida, e dou-lhe um sorriso amarelo.

— Precisava te ver — ele soltou.

Confesso que fico surpreendida. Uma frase simples, superficial, mas com certeza direta, e que eu jamais poderia prever. Precisava me ver? Por que? Para que? Desde quando?

— Sei lá, não me pergunte porque ainda. Só precisava te ver — ele me surpreende mais uma vez ao responder ao meu questionário mental. — Sei que pode parecer tarde, mas acho que você merece uma explicação — ele segue, escolhendo bem as palavras.

— Jura? Humm.

— É sério, não banca a irônica, vai. É como dizem, antes tarde do que nunca. — ele mantém a voz serena, como se temesse alguma reação explosiva da minha parte.

Se eu já não tinha assimilado sua aparição repentina no meu apartamento, agora mesmo que não conseguia entender. O predador nato de anos atrás está diante de mim, dizendo que mereço uma explicação, numa completa postura passiva. Qual foi a parte que eu perdi?

— Vem cá, é uma piada? — pergunto, não conseguindo me segurar.

Ele arregala os olhos, como se a minha pergunta fosse a mais descabida de todas.

— Eu viria aqui, a essa hora, se não fosse sério? Raciocina. — ele retoma o tom presunçoso, enquanto arqueia uma sobrancelha, oferecendo aquele olhar.

— Ah, de você eu espero tudo — desabafo, evitando olhar diretamente em seus olhos — só quero entender, por que agora? Todas as mulheres do país resolveram te dar um gelo? Tá entediado, ou o que?

Então, ele volta a sentar-se, enquanto eu permaneço de pé, os braços cruzados, completamente  tensa.

— Olha, não é nada disso. Você pode chamar de crise de consciência, de vergonha na cara, o que você quiser. Mas eu só saio daqui hoje se você me desculpar pelo que eu fiz e aceitar...é… — ele gagueja até ter coragem de finalizar o pedido — jantar comigo!

Fico me perguntando onde será que as câmeras estariam escondidas. A grande maioria das pessoas pode achar que não tem nada demais um “velho conhecido” ressurgir das cinzas do esquecimento e chamar para sair, numa boa. Realmente, eu até concordaria que não há nada demais, exceto pelo fato de que esse velho conhecido chame-se Victorio e tenha sido responsável pelas marcas da dor de um passado não tão distante.

Solto todo o ar dos meus pulmões, numa tentativa de me equilibrar emocionalmente e não voar em cima dele. Sou acometida por um misto de desprezo e compaixão que me deixa ainda mais confusa, se é que isso seja possível. Em nome de todas as vezes que o amaldiçoei, xinguei verbal e mentalmente, em nome de todo choro reprimido e suprimido durante exatos doze anos, porque não entrar mais uma vez em seu jogo e ver até onde isso vai parar?

— Ok — digo, apenas.

Seus olhos arregalados de surpresa quase me fazem rir, a não ser pelo resquício de ódio que ainda faço questão de guardar em algum canto. Ele se levanta e de um jeito bem autêntico se aproxima de mim, aparentemente sem intenções extras.

— Só...ok? Por me perdoar ou por aceitar sair comigo?

— Pelo jantar. Essa história de perdão, francamente, é ridícula. — cuspo.

Ele pigarreia e coça de leve o topo da cabeça, um gesto típico de um Victorio que mede as palavras antes de soltá-las.

— Tudo bem. Não sou ansioso. — ele titubeia ao receber meu olhar de reprovação — Não mais, acredite.

— Ótimo. Às oito, hoje, no The Carpa. Agora você pode ir.

É claro que ele não esperava que eu dissesse onde seria o tal jantar. Acostumado a ter o controle, no mínimo já tinha em mente o dia, hora e local, mas eu não poderia perder a chance de aproveitar a minha posição daquela “que perdoa”. Enquanto a minha sanidade estiver resguardada, quem dá as cartas sou eu, penso. É isso ou ele volta para o pretérito buraco das lembranças de onde ele nunca deveria ter saído.

— Tudo bem. — Victorio repete, em seu estranho modo resignado.

Quando ele sai e a porta é trancada, meu cérebro parece estar fora de órbita. O que foi isso? O vilão do meu passado infernal esteve na minha sala de estar pedindo perdão e me chamando para sair. Nem em dezenas de séculos uma cena como essa poderia ser imaginada pela minha mente. Nem se uma cartomante do Paraguai dissesse que isso poderia acontecer, eu acreditaria. A surpresa e a incredulidade foram tamanhas que eu mal tive tempo de pensar na consequência de ter esse homem ao meu convívio outra vez. “Por pior que a pessoa seja ou aparente ser, ela tem o benefício da dúvida”, a agente Diana repetia incansavelmente na sala de operações na delegacia. Mas isso não era tão aplicável em crimes em flagrante, por exemplo. Minha situação com Victorio poderia ser considerada um crime em flagrante, com total isenção de benefício da dúvida. Enganar, abandonar e brincar com os sentimentos de alguém pode não ser crime, mas na minha concepção sempre foi tão desprezível quanto.

Procurando afastar tantos devaneios confusos, me atiro de volta à cama, na tentativa de recuperar o sono interrompido. Afinal, ainda era 10h15, e não fosse por essa visita incidental, meu descanso se estenderia até uma da tarde, no mínimo. “Eu viria aqui, a essa hora, se não fosse sério? Raciocina.” Tudo que consigo pensar é por que, por que, por que? Logo agora que meu relacionamento com o Lucas estava entrando nos eixos e cogitávamos até morar juntos em definitivo. Por que? Enrolo-me nos lençois na busca por uma resposta, mas tudo que recebo em troca é insônia e silêncio. E aquele olhar…

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