
Entre o medo e o Desejo - Resistindo a você!
Capítulo 3
« Nihara Vitti»
Dúvidas atormentam-me, e não consigo dormir. Levanto-me da cama e desço até a cozinha, num estado de torpor. Desatenta, coloco o copo de água num lugar qualquer, e som de vidro quebrando ecoa pela casa. Preocupada, rezo mentalmente para que a minha mãe não tenha ouvido, mas a vida nem sempre atende os nossos desejos. Ela aparece atrás de mim, reclamando como todas as mães fazem.
Em silêncio, juntas arrumamos a bagunça que fiz. Num gesto inesperado, a minha mãe abraça-me, sem dizer uma palavra. É um abraço apertado, mas reconfortante, que me faz sentir menos sozinha nesse momento de despedida iminente. Conversamos sobre a minha partida, e dona Cândida aconselha-me com a sabedoria que só as mães têm.
Por fim, ela segura as minhas mãos e abençoa-me, o que me deixa emocionada e grata. Prometo manter contacto sempre, e ela abraça-me novamente, como se não quisesse soltar-me. As lágrimas escorrem pelo meu rosto, enquanto digo adeus ao meu lar e à minha família, com certeza de que a saudade será minha companheira fiel.
Eu ainda me estou a acostumar com a ideia de deixar tudo para trás e começar uma nova vida num país estrangeiro. Sento-me assustada, mas, ao mesmo tempo, animado com a possibilidade de conhecer novos lugares, pessoas e culturas. Em meio a esses pensamentos, meu telefone toca — já passa das treze horas —, uma ligação do trabalho, pensei que não tivesse deixado nenhum pendente. Despeço-me da minha mãe e saio; assim que chego sou surpreendida com uma festa de despedida organizada pelos meus colegas de trabalho.
A sala de convívio está decorada com balões e flores coloridas, e há uma mesa repleta de comida deliciosa. Todos sorriem para mim, dando boas-vindas com palavras e abraços afetuoso.
Não posso deixar de sentir uma emoção indescritível ao ver que eles se importam tanto comigo. As lágrimas humedecem os meus olhos quando os meus colegas entregam-me cartões e lembranças carinhosas. Eles desejam-me boa sorte na minha nova jornada e prometem manter contacto comigo sempre que possível.
Dirijo-me para casa, com o coração alegre, o sorriso não abandona o meu rosto. O sol já demarca nas nuvens raios alaranjados, anunciando a noite, amena. Essas, quatros, horas foram inesquecível, cheia de amor e alegria. Eu estava rodeada de pessoas que me amavam e apoiavam-me na minha decisão de ir para o exterior. Agora eu sei que, embora esteja a deixar para trás muitas coisas importantes na minha vida, sempre terei uma família e grupo de amigos verdadeiros que me acompanharão, onde quer que eu esteja.
Sinto o meu telefone tocar, me tirando dos devaneios, olho a tela e logo o meu sorriso desaparece, Nilza está a ligar-me.
***
Nilza se aproxima com passos hesitantes, os ombros caídos, revelando o peso de um segredo guardado por tempo demais. Os seus olhos cansados se encontram com os meus, e eu sinto uma mistura de tristeza e curiosidade. Por que ela finalmente decidiu falar?
Convido-a a sentar-se e pedimos as nossas bebidas e sanduíches, enquanto o silêncio constrangedor preenche o espaço entre nós. Eu esforço-me para não ser rude, mas a presença dela deixa-me tensa.
Finalmente, Nilza quebra o silêncio. A sua voz é baixa e trémula, e eu preciso inclinar-me para ouvir as suas palavras. Ela começa a contar-me sobre a sua história com Bráulio, o noivo que eu tanto amava e confiava.
A verdade é chocante, e eu sinto o meu coração apertar enquanto ela me revela a traição e o vídeo íntimo que ele usou para ameaçá-la. Agora é mais fácil para mim compreender porque ela me deixou no escuro pensando que me casava com um bom homem.
— Desculpa-me, eu não fazia ideia de tudo isso. Por isso, sempre foste hostil com ele?! — Ela balança a cabeça, e limpa o seu rosto.
— Desculpa-me você, por não contar antes. E desculpe pelas fotos — olhei-a com o cenho franzido.
— Fotos?
— Fui eu, que enviei as fotos, de um número privado, foi o jeito que encontrei. Não podia ver-te casando com aquele canalha sem fazer nada.
Ficamos em silêncio por segundos nos encarando. Por fim, dou um suspiro e digo.
— Tudo bem, daqui alguns dias nada disso importará mais.
***
Enquanto caminho em direção ao portão de embarque, sinto um aperto no peito e um nó na garganta. Olho para trás e vejo a minha família, pequena e distante, acenando e sorrindo. É difícil deixá-los para trás, mas sei que esta é uma jornada importante para mim.
A voz do alto-falante interrompe os meus pensamentos, atraiu atenção para o meu voo. Sinto um frio na barriga e aperto o pingente de borboleta que papai deu-me, sentindo o peso do ouro nas minhas mãos. É como se uma parte deles estivesse comigo, mesmo estando tão longe.
Ao entrar no avião, sou recebida com um sorriso caloroso da comissária de bordo, que indica o meu assento. Sigo pelo corredor procurando o número do seu assento. Quando finalmente o encontro, vejo um homem sentado no meu lugar. Olho novamente o ‘ticket’ para confirmar o número do assento.
— Desculpe, o senhor está sentado no meu lugar — afirmo com uma expressão neutra no rosto.
O homem encara-me por segundos com um sorriso gentil, os seus olhos atraentes e profundos percorrem todo o meu corpo, provocando-me calafrios.
— Perdoe-me, acho que me enganei. Eu estava distraído com os meus pensamentos e sentei aqui sem perceber. Se você quiser o seu lugar de volta, eu posso mudar para outro assento. Não quero causar nenhum problema
Ele não desgruda o seu olhar dos meus, o verde dos seus olhos intenso e hipnotizantes, o cabelo castanho e bem cuidado penteados para trás.
— Não se preocupe, não é nenhum problema. É posso sentar-me aqui, vejo que você precisa desse lugar mais do que eu — sorri tímida, sentando-me. Ele sorri de volta.
— Obrigada. Já agora sou o Tobias Bernstorff
— Tchissola Vitti — prazer!
«Senhoras e senhores, por favor peço que se recostem aos seus lugares e aperte os cintos decolamos em cinco minutos, obrigada. »
O avião começa a se movimentar na pista, e eu começo a sentir o meu estômago se contorcer de nervosismo. Olho para a janela, vejo a paisagem se mover rapidamente e sentindo a velocidade aumentar. Seguro o meu pingente e inclino a cabeça no assento, respirando devagar profundamente.
Quando o avião começa a decolar, senti no mesmo instante o coração bater mais rápido, abafo um grito com a mão, enquanto cravo as unhas da outra mão, em alguma firme e liso. Olha para os outros passageiros, vendo que a maioria parece calma e serena, como se não fosse nada de mais. Viro-me para olhar o homem do meu lado que segura a minha mão, me passando alguma segurança.
Minutos depois, mas calma, não posso olhar para ele, de tanta vergonha, solto a minha mão da sua e escondo o meu rosto com as mãos posando-as na perna. Ele continua em silêncio, com ar de dúvida ou confusão, não sei dizer ao certo.
— Ah, meu Deus, por favor, desculpe-me — exclamo, puxando a sua mão para o meu colo, preocupada com o pequeno ferimento de unhas que ficou na sua pele extremamente clara — Eu não queria... olha só o que fiz?
— Está tudo bem, não precisa se preocupar… — É a primeira vez que você voa? Ou é algo comum que acontece sempre que viajas.
— Com certeza a primeira opção, em minha defesa não sabia que teria tanto medo assim — respondo enquanto reviro a minha bolsa a procura de adesivo e desinfetante, sempre ando com esse tipo de coisa.
— É as vezes não sabemos como vamos reagir diante de uma situação até enfrentá-la.
— Por favor, me dê a sua mão, — peço quase como uma ordem. — Espero que isso não lhe cause nenhum problema. — Limpo o ferimento e depois ponho o adesivo.
O homem faz algumas caras e bocas assim que ponho o desinfetante, e logo abri um sorriso frouxo quando olha o adesivo colorido de borboleta que cobre o arranhão.
— Desculpa, só tenho estes.
— Não, tudo bem, a minha menina vai amar quando vir isto.
Obs. Olá tudo bem? Está a gostar da história?
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