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Capa do romance Ele prometeu para sempre e me deixou

Ele prometeu para sempre e me deixou

Após perder os pais e a voz, confiei em Josias, meu protetor de infância. Contudo, descobri que eu era um fardo para ele. Humilhada e abandonada por Josias em uma floresta durante uma tempestade para salvar sua namorada, vi minha confiança ser destruída. Três anos depois, ressurgi como uma artista forte e independente. Ao reencontrá-lo em minha exposição, decidi que ele finalmente ouviria tudo o que tentei dizer enquanto estava em silêncio.
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Capítulo 1

Depois do acidente que matou meus pais e roubou minha voz, meu amigo de infância, Josias, jurou que seria a minha voz. Por anos, eu acreditei nele. Meu mundo silencioso girava em torno do garoto que me tirou dos destroços. Eu estava até reaprendendo a falar, só por ele.

Então, ouvi a verdade. Para os amigos dele, eu era apenas a "garota-tragédia da cidade", um fardo que ele estava cansado de carregar.

A crueldade não parou por aí. Ele deixou sua nova namorada me humilhar publicamente e, quando ela fingiu se machucar, ele me forçou a ficar de joelhos para pedir desculpas na frente de todos.

A traição final veio durante uma tempestade. Ele me abandonou na floresta, surda sem meus aparelhos auditivos, me deixando enfrentar o mesmo terror que estilhaçou minha vida anos atrás. Ele a escolheu.

Ele quebrou sua promessa. Ele me destruiu.

Então, eu fui embora. Encontrei minha própria voz, minha própria força. Três anos depois, voltei para minha primeira exposição de arte e, quando vi o rosto dele na multidão, soube que ele estava prestes a ouvir tudo o que me forçou a manter em silêncio.

Capítulo 1

As primeiras palavras claras que ouvi, depois de anos de silêncio, foram as de Josias. Elas me cortaram, mais afiadas que uma navalha. Ele me chamou de "a garota-tragédia da cidade", um fardo que ele estava de saco cheio de carregar. Minha própria garganta, mal se lembrando de como formar sons, virou uma pedra.

Era para ser um triunfo. A Dra. Esteves tinha elogiado meu progresso. "Suas cordas vocais estão se fortalecendo, Graça. Logo, você estará falando frases completas." Eu pratiquei por horas, as vibrações desconhecidas no meu peito eram ao mesmo tempo emocionantes e aterrorizantes. Eu queria surpreender o Josias. Ele tinha sido minha rocha, minha sombra, minha voz, desde o acidente.

O acidente tinha roubado meus pais e minha capacidade de falar. O metal retorcido, o cheiro de borracha queimada, o silêncio depois dos gritos — tudo se fundiu em um nó na minha garganta. Josias estava lá. Ele me tirou dos destroços, com o braço quebrado, o rosto manchado com o sangue dos meus pais. "Eu vou ser a sua voz, Graça", ele sussurrou, suas palavras um voto sagrado naquele caos. "Sempre."

Por anos, ele foi. Ele era meu protetor, traduzindo meus gestos, antecipando minhas necessidades, me defendendo dos olhares de pena e dos sussurros cruéis. Meu mutismo seletivo não era uma escolha; era uma jaula construída de medo e luto. Mas Josias era a chave, ou assim eu pensava. Ele parecia navegar pelo mundo com facilidade, o capitão popular do time de futebol, sempre com uma multidão ao seu redor, mas sempre pronto para intervir por mim. Sua lealdade era minha âncora. Sua presença, um zumbido constante e reconfortante no meu mundo silencioso.

Minha sala de terapia era uma pequena caixa à prova de som. Passei inúmeras horas lá, reaprendendo sons, sílabas, palavras. O processo foi lento, árduo e muitas vezes frustrante. Mas a ideia de finalmente contar ao Josias, contar de verdade, o quanto ele significava para mim, me manteve firme. Eu tinha um segredo, uma frase pequena e perfeitamente formada que guardei só para ele. Eu a sussurraria, uma promessa de um futuro onde eu não seria apenas a garota por quem ele falava, mas uma parceira que poderia falar por si mesma.

Naquele dia, eu estava adiantada. A Dra. Esteves tinha saído da sala por um momento, elogiando minha clareza. Ouvi trechos de conversa do corredor. Mais alto que o normal. A risada distinta de Josias. Meu coração deu um pulo. Ele devia estar me esperando. Empurrei a porta só uma frestinha, pronta para espiar e surpreendê-lo.

Então eu ouvi. A voz açucarada de Alessandra Menezes, escorrendo falsa simpatia.

"Ah, Josias, você é um santo. Ainda arrastando a coitadinha da Graça muda pra todo lado?"

Uma onda de náusea me atingiu. Eu congelei, minha mão ainda na maçaneta.

"Qual é, Alê", outra voz, Marcos, um dos amigos de futebol de Josias, interveio. "O Josias só tá sendo legal. Não é como se ele quisesse ficar preso com a garota-tragédia da cidade."

Minha respiração falhou. As palavras pareciam golpes físicos.

"Exatamente", Alessandra ronronou. "Mas sério, Jô, já deu, né? Todo mundo sabe que você só faz isso por pena. Ela é um peso morto."

Agarrei a maçaneta, meus nós dos dedos brancos. Meus ouvidos, antes tão pouco confiáveis, agora estavam dolorosamente claros.

"Não é pena", a voz de Josias era áspera. "É... complicado."

"Complicado?", Alê zombou. "Ela nem consegue falar. O que tem de complicado nisso? Vocês estão amarrados por algum pacto de infância mórbido. É sinistro."

Meu peito se apertou. Pacto de infância mórbido. Era só isso para ele?

"Olha", Josias baixou a voz, mas eu ainda podia ouvi-lo. Cada palavra era uma martelada contra minha frágil esperança. "Eu estou cansado. Meu Deus, Alê, você não faz ideia. Todo evento social, todo jogo, toda maldita festa. É sempre, 'Onde está a Graça? Ela está bem? O que ela quer?' Eu não sou a babá dela."

Meu mundo inclinou. As palavras giravam ao meu redor, cada uma um caco de vidro afiado.

"Viu?", a voz de Alessandra era triunfante. "Eu sabia. Você odeia isso."

"Eu não odeio", Josias retrucou, mas seu tom estava carregado de ressentimento. "Eu só... eu quero ser normal. Quero me divertir sem me preocupar constantemente com ela. É como ser babá de um fantasma."

Um fantasma. Era isso que eu era para ele. Um espectro silencioso e pesado de um passado do qual ele não conseguia escapar.

"Bem, você sempre pode simplesmente... não ser", sugeriu Alê, seu tom perigosamente doce. "Ela não é sua responsabilidade, sabe."

"É, Jô", acrescentou Marcos. "Você é o craque do time. Pode ter quem quiser. Por que ficar com a garota muda?"

Josias suspirou, um som profundo e frustrado que ecoou a quebra do meu coração. "Eu sei, eu sei. É que... depois do acidente... eu prometi. É difícil simplesmente largar ela."

Alessandra deu uma risadinha. "Ah, qual é. Faz ela entender. Ela não é burra, só... quieta. Diga a ela que você precisa de espaço. Diga que está seguindo em frente. Que está cansado de estar amarrado à 'garota-tragédia da cidade'."

Josias não respondeu. O silêncio foi mais alto que qualquer grito. Era a sua concordância. Sua afirmação silenciosa e condenatória.

Minha visão embaçou. Eu não conseguia respirar. A fachada cuidadosamente construída da minha vida, erguida sobre a lealdade de Josias, se estilhaçou ao meu redor. Eu cambaleei para trás, fechando a porta com um clique suave que ninguém pareceu notar. Minhas pernas cederam e eu deslizei pela parede, pressionando as mãos sobre a boca para abafar o soluço que arranhava minha garganta. Minha cabeça bateu no gesso frio. As novas palavras que eu havia aprendido, aquelas que eu guardara para ele, se transformaram em um veneno amargo na minha boca.

Eu estava tão feliz, tão pronta para compartilhar meu progresso. Eu planejava dizer a ele que conseguia dizer seu nome, um som claro e vibrante. Mas agora, o único som que eu conseguia fazer era um suspiro engasgado, engolido pelo rugido ensurdecedor do meu próprio coração partido. Todos aqueles anos, todos aqueles sacrifícios, toda aquela gratidão não dita... era tudo uma mentira. Ele me via como um fardo. Uma tragédia. Não uma pessoa. Não a Graça.

Minhas mãos tremiam enquanto eu me lembrava de cada olhar compartilhado, cada gesto protetor, cada vez que ele "falou por mim". Não era amor. Era pena. Era obrigação. Era uma prisão para ele, e eu tinha sido cega demais, desesperada demais por conexão, para ver. Ele não tinha sido minha voz; ele tinha sido meu carcereiro, ainda que relutante.

Uma dor aguda e ardente explodiu nos meus dedos. Olhei para baixo. Minhas unhas haviam cravado luas crescentes profundas nas minhas palmas. Minha pele estava rompida. Era uma manifestação física da ferida no meu peito. Eu queria gritar, mas nenhum som saiu. Apenas lágrimas silenciosas e ardentes.

Não. Eu não os deixaria me ver quebrar. Eu não lhes daria essa satisfação. Eu não seria mais a "garota-tragédia da cidade". Não para eles. Não para ele.

Eu me levantei, minhas pernas instáveis. Limpei o rosto com as costas da mão, borrando as lágrimas. O silêncio na sala era esmagador, mas agora era o meu próprio silêncio, um escudo em vez de uma jaula.

Alguns minutos depois, ouvi a conversa do corredor diminuir. A barra estava limpa. Eu me recompus, ajeitei minhas roupas e respirei fundo e tremulamente. Quando Josias finalmente bateu na porta da sala de terapia e entrou, com seu sorriso usual de "amigo leal" estampado no rosto, eu encontrei seu olhar. Meu rosto era uma máscara. Ele não veria os pedaços quebrados. Ainda não.

"Graça? Tudo bem?", ele perguntou, sua voz um pouco alta demais, um pouco alegre demais. Ele estendeu a mão para tocar meu braço, mas eu me afastei sutilmente.

Ele parou, a mão caindo. "Uh, a Dra. Esteves disse que você foi ótima hoje. Muito bem mesmo. Isso é, uh, isso é incrível."

Eu assenti, um movimento pequeno e controlado. Minha garganta doía com palavras não ditas, mas eu as mantive trancadas.

"Então", ele continuou, enfiando as mãos nos bolsos. "Pronta pra ir? A Alessandra e o Marcos estão esperando a gente lá fora."

Eu olhei para ele, olhei de verdade. O rosto bonito, o sorriso encantador, os olhos que agora pareciam vazios. Ele ainda era o capitão popular, mas para mim, ele era apenas um garoto, um garoto assustado, se escondendo atrás de uma fachada de lealdade. Eu estava tão errada.

Eu balancei a cabeça levemente, depois apontei para minha garganta, fingindo desconforto.

"Ah, ainda um pouco dolorida de tanto praticar?", ele perguntou, um brilho de alívio em seus olhos. "Sem problemas. A gente pode só relaxar na minha casa. A Alê tem um filme novo que ela quer assistir."

O filme. Claro. Outra desculpa para ser "normal". Outro fardo para deixar de lado. Eu lhe dei um sorriso pequeno e apertado. Outro aceno. Então me virei, caminhei até minha bolsa e fingi procurar por algo. Ele suspirou, um som quase inaudível de impaciência, e caminhou em direção à porta.

"Só encontra a gente lá, ok?", ele disse por cima do ombro. "Não demora."

Esperei até ouvir a porta externa se fechar. Então, peguei meu celular e comecei a digitar. Essa nova voz, a que eu estava encontrando, não seria para ele. Seria para mim. E a primeira coisa que ela faria seria cortá-lo da minha vida.

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