Capa do romance Casa de bonecas: 1 - A Boneca

Casa de bonecas: 1 - A Boneca

8.9 / 10.0
Pietra vive marcada por escolhas erradas que impactaram drasticamente todos ao seu redor. Diagnosticada com um tumor, ela se sente desamparada e acredita que a própria filha a abandonou. No entanto, sua realidade sofre uma reviravolta ao encontrar uma enigmática jovem loira em uma residência isolada diante de um milharal. Nesse cenário, ela aprenderá que traumas profundos deixam cicatrizes eternas e que cada erro do passado exige um acerto de contas inevitável.

Casa de bonecas: 1 - A Boneca Capítulo 1

No início, eu ficava entediada, eu gritava e tentava fugir... Eu tentava escapar, e tentava muito... Contudo, por algum motivo, sempre acabava voltando para esta casa. Talvez, este seja o poder da mestra.

Sim, esta casa tem um dono, ou melhor, uma dona. Porém, não fique tão ansioso, logo mais, ela estará aqui... Tenho certeza que ela já sabe que você está comigo. Quando ela começar a brincar, você se arrependerá de ter vindo, mas já será tarde.

Você deve estar se perguntando que chiqueiro imundo é esse?

Assim que cheguei aqui, eu ficava me perguntando sempre isso... Agora, tanto faz.

Você deve estar se perguntando onde estamos. Aqui, é lugar nenhum! Você pensou no desenho do Coragem, o cão covarde, confesse? Pensando bem, a casa branca de estilo caipira no meio deste deserto lembra bastante. Embora, ainda ache aquele milharal coisa de filme de terror...

A propósito, nunca entre no milharal. Se entrar, não diga que não lhe avisei.

Quando digo lugar nenhum, não estou dizendo que estamos longe, estou falando que não estamos em nenhum lugar e em nenhuma das dimensões...

Existem portais em torno da casa ou buracos de minhoca, como você quiser chamar, afinal... E, é assim que todos nós chegamos aqui, inclusive você.

Por algum motivo desconhecido, estamos entre os mundos e algumas pessoas são atraídas para cá, como insetos são atraídos pela luz... Não sei se é alguma coisa com a energia, estilo de vida, algum sentimento ou pensamento na hora que se está perto de um desses vórtex. O que sei é que, uma vez estando aqui, você nunca mais consegue sair... Não interessa o que você faça.

A mestra? Ah sim, a dona da casa... Não sei ao certo se ela foi atraída para cá como nós, ela me parece ser uma humana. Eu passei muito tempo sem entender o que havia acontecido comigo, até que percebi o que ela tinha feito, foi só então que me toquei... Seja lá o que aquilo for, não existe nenhuma criatura como ela.

Talvez, a existência dela nesse local signifique aquela máxima de que todo o castelo tem uma princesa, pode ser que ela seja o local ou até mesmo que ela o tenha criado. Talvez, estejamos aqui presos com ela, para que ela não fique entediada ou talvez, alguma força superior esteja nos punindo ou até mesmo que nós sejamos a punição dela.

Seus olhos de plástico, não demonstravam a quão pensativa estava olhando para fora da varanda da casa de madeira branca, pro chão de saibro vermelho, para o fim de tarde com seus tons de rosa e vermelho. O extenso milharal, todo banhado por uma luz vermelha, balançava suavemente com a brisa morna e o espantalho solitário, continuava sendo ignorado pelos pássaros que gorjeiam longe.

Para aqueles que moravam na casa, sempre que olhavam para porta, podiam ver, claramente, as grandes espirais negras que traziam as criaturas de outras dimensões até aquele local. Para os moradores daquela casa, nada mais era, do que buracos negros de onde às vezes surgiam pessoas, animais ou alguma outra distração momentânea, que terminaria quando a mestra percebesse.

Não era permitido a ela que saísse de dentro da casa, o limite que podia ir era até a soleira da porta de entrada. Observando, não viu sua mestra do lado de fora e uma esperança aqueceu seu coração. Talvez, ela tivesse partido, desaparecido ou, com muita sorte, morrido.

Esse sútil alívio se tornou uma esperança no desejo de jamais ver aquela criatura novamente, mas o som de um par de coturnos, pisando no chão preguiçosamente, chamou a sua atenção. Levantou a cabeça para poder olhar e lá, parada a seu lado, o rosto sardento sorriu, dizendo:

— Achei você!

As mãos pequenas e sujas a pegou pela cintura e a colocou encostada em seu ombro, enquanto se afastavam da porta. Ela estende as mãos e os frágeis braços, implorando o mais alto que seu corpo permitia:

— Socorro!

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