
Destino Quebrado
Capítulo 2
O telefone tocou, um som estridente que cortou o silêncio pesado da pequena casa. Ricardo atendeu, a mão tremendo um pouco por causa do cansaço do dia de trabalho na oficina.
"Alô?"
A voz do outro lado era calma, profissional e fria. Era de um hospital. A voz falou sobre um acidente de moto, sobre um entregador de comida. Falou o nome do seu filho, Felipe.
O chão pareceu desaparecer sob os pés de Ricardo. O ar ficou denso, difícil de respirar. As palavras do médico eram como marteladas em sua cabeça, mas ele não conseguia absorver o significado completo. Fatal. A palavra ecoou no vazio que se formou dentro dele. Felipe. Seu filho. Morto.
"Não... não pode ser", ele sussurrou, a garganta seca, a voz um fiapo. "Tem que haver um engano."
Mas não havia engano. Os detalhes batiam. A moto, a mochila de entregas, os documentos no bolso do seu filho. O mundo de Ricardo desabou em um instante. Um zumbido tomou conta de seus ouvidos, e a sala modesta, com seus móveis gastos e cheiro de trabalho honesto, começou a girar. Ele precisava de Sofia. Precisava de sua esposa.
Ele desligou a chamada com o hospital e discou o número dela, o coração batendo descontroladamente contra as costelas. Chamou uma, duas, três vezes. Caixa postal. A voz gravada e alegre de Sofia soou como uma zombaria.
"De novo, Sofia... atende", ele murmurou para o telefone, o desespero crescendo como uma maré.
Ele tentou de novo. E de novo. Cada toque não respondido era uma nova camada de agonia. Onde ela estava? Ela sempre dizia que estava fazendo algum bico, limpando uma casa, qualquer coisa para ajudar com as despesas, sempre cansada, sempre se queixando da falta de dinheiro. Ele imaginou-a exausta em algum canto, talvez sem bateria no celular. Mas a necessidade de ouvir a voz dela, de compartilhar aquele peso insuportável, era física.
Ele se sentou no sofá puído, o mesmo sofá onde Felipe, ainda criança, dormia em seu colo. A dor era tão intensa que se tornou física, uma pontada aguda no peito que o fez curvar-se. Ele precisava falar com ela. Agora.
Enquanto Ricardo se afogava em desespero, Sofia estava a quilômetros de distância, em um mundo completamente diferente. Ela estava sentada em um restaurante caro, daqueles com toalhas de mesa brancas e talheres de prata. A luz era suave, o som ambiente era um murmúrio de conversas civilizadas e o tilintar de taças de cristal.
Ela sorria, um sorriso genuíno e radiante que Ricardo não via há anos. Ao seu lado estava Marcos, seu ex-namorado, com um ar presunçoso, vestindo um terno que custava mais do que o salário de um mês de Ricardo. Em frente a eles, Lucas, o filho de Marcos, um jovem atleta de dezessete anos, exibia uma medalha de ouro no peito.
"Um brinde ao nosso campeão!", disse Marcos, erguendo a taça de champanhe.
"Ao campeão!", repetiu Sofia, os olhos brilhando de orgulho enquanto olhava para Lucas. Ela se sentia realizada, como se a vitória dele fosse a sua própria. Ela havia pago pelos melhores treinadores, pelo equipamento de ponta, pelas viagens para as competições. Ela havia dado a Lucas tudo o que, em sua mente distorcida, ela sentia que devia a Marcos por uma ajuda no passado.
"Mãe Sofia, obrigado por tudo", disse Lucas, com a sinceridade ingênua de quem não tem ideia do custo real das coisas. "Sem você, eu não teria conseguido."
"Você mereceu, querido", disse ela, a mão tocando o braço do rapaz com um carinho maternal.
Seu celular vibrou dentro da bolsa de grife. Ela o pegou, viu o nome "Ricardo" na tela e franziu a testa, irritada com a interrupção. O que ele queria agora? Provavelmente para reclamar de alguma conta, do cansaço, da vida dura que levavam. Ela sentiu uma ponta de desprezo. Ele e Felipe não entendiam o que era ambição de verdade, o que era lutar por um lugar ao sol.
Ela recusou a chamada e colocou o celular de volta na bolsa, com a tela virada para baixo.
"Algum problema?", perguntou Marcos.
"Não, nada. Só o Ricardo", ela respondeu, com um aceno displicente. "Você sabe como ele é."
Ela pegou o cardápio de sobremesas, o couro macio sob seus dedos, e voltou a sorrir, imersa naquele momento de celebração que ela mesma havia comprado e pago.
Em sua casa humilde, Ricardo viu a chamada ser recusada. Um frio percorreu sua espinha. Ela não estava sem bateria. Ela tinha visto a ligação e escolhido não atender. Ele tentou mais uma vez, a última gota de esperança se esvaindo.
Desta vez, ela atendeu. A voz dela soou distante, impaciente, com um ruído de fundo de música e conversas que ele não conseguiu identificar.
"O que foi, Ricardo? Eu estou ocupada agora, não posso falar."
A frieza na voz dela o atingiu como um soco. Ele tentou formar as palavras, mas a dor as sufocava.
"Sofia... é o Felipe."
Houve uma pausa do outro lado da linha. Ele podia ouvi-la suspirar, um suspiro de enfado.
"O que tem o Felipe? Ele quebrou alguma coisa? Se meteu em encrenca de novo? Eu não tenho dinheiro para fiança, Ricardo, já te disse."
A suposição dela, a acusação velada, foi a última gota. A imagem que ele tinha de sua esposa, a companheira simples e batalhadora, se estilhaçou. Naquele momento, ele não reconheceu a mulher com quem dividia a vida há vinte anos.
"Ele morreu, Sofia."
As palavras saíram secas, sem emoção, como se pertencessem a outra pessoa.
"Ele sofreu um acidente. Nosso filho está morto."
Houve um silêncio do outro lado. Não um silêncio de choque ou dor. Era um silêncio vazio, oco. Ricardo esperou um grito, um soluço, qualquer coisa. Mas não veio nada.
"Eu... eu tenho que desligar", disse ela, a voz subitamente tensa, mas não de tristeza. De incômodo. "Eu ligo depois."
E ela desligou.
Ricardo ficou olhando para o telefone em sua mão. O som da chamada encerrada ecoou no silêncio da casa. Ele estava sozinho. Completamente sozinho com a notícia que havia destruído seu mundo. A mulher que deveria estar ao seu lado para chorar a perda do filho que ambos amavam o tinha abandonado no momento de sua maior necessidade. Uma semente de raiva, escura e gelada, começou a brotar em meio à devastação de seu luto. Ele não sabia ainda a dimensão da traição, mas sentia em seus ossos que a ausência de Sofia era mais do que uma simples coincidência. Era uma escolha.
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