Capa do romance O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor

O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor

9.3 / 10.0
Em O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor, a escritora Clara enfrenta traumas do passado em Vila Branca. Neste romance e mystery story, ela se une ao biólogo Miguel para investigar desaparecimentos no mar, unindo segredos e paixão nesta envolvente modern novel disponível para ler.
Resumo de O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor
Clara, uma escritora traumatizada pela perda dos pais no mar, evitou o oceano por anos. Ao aceitar um projeto literário em Vila Branca, ela reencontra seus medos. Lá conhece Miguel, biólogo que investiga sumiços misteriosos na costa. Enquanto ele busca respostas científicas para tragédias, Clara confronta feridas antigas. Entre segredos e uma paixão latente, ambos descobrem que o passado e as ondas escondem perigos capazes de transformar suas vidas para sempre.
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O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor Capítulo 1

O cheiro do mar era uma faca. Fino, salgado, cortante. Clara sentiu-o assim que desceu do ônibus que a deixara na entrada de Vila Branca, aquele vilarejo escondido entre falésias e pinheiros, onde o vento parecia sussurrar lembranças que ela lutava para esquecer.

A residência literária ficava no alto de um morro, em uma casa antiga pintada de branco e azul-claro, como todas ali. A brisa úmida do oceano arrepiava a pele de Clara, que carregava uma mochila leve e o coração pesado. Não era a primeira vez que via o mar desde o acidente, mas era a primeira vez que vinha por vontade própria. Mesmo que isso parecesse mais uma armadilha do destino do que uma escolha racional.

A proposta da editora havia sido tentadora: um mês à beira-mar para escrever sobre liberdade, recomeço, e, quem sabe, amor. Uma bolsa generosa. Um quarto com vista para o mar. Uma nova chance. Clara, que estava há meses bloqueada criativamente, aceitou. Por necessidade. E talvez, bem no fundo, por desafio.

Caminhou pelas ruas de pedra, sentindo o estalar dos passos contra o chão molhado. Havia chovido à noite, e o aroma da terra molhada se misturava ao sal. A cidade era silenciosa, quase parada no tempo. Em cada janela, uma planta. Em cada varanda, um olhar curioso.

Quando chegou à casa, foi recebida por uma mulher de voz doce e olhar firme.

— Você deve ser a Clara Martins. Bem-vinda à Casa Ondamar — disse ela. — Sou Teresa, a coordenadora da residência. Espero que a viagem tenha sido tranquila.

Clara apenas assentiu, apertando o casaco contra o corpo.

— Seu quarto é o segundo andar, janela para o mar.

— Claro que é — murmurou Clara, quase num riso amargo.

Teresa a conduziu escada acima. O quarto era simples, com uma cama de ferro, uma escrivaninha de madeira gasta e uma janela ampla que dava diretamente para o azul infinito.

Clara parou diante dela, hesitante. O mar se estendia como um espelho quebrado. As ondas quebravam suaves naquela manhã, mas ela ainda conseguia ouvir o som que a acompanhava nos pesadelos: o estrondo de algo afundando, o grito abafado, o silêncio depois da tragédia.

Ela fechou as cortinas.

---

À tarde, saiu para explorar os arredores. Queria entender onde havia se metido, mas sem se afastar muito da casa. Teresa lhe explicara que Miguel Duarte, um dos anfitriões do projeto e biólogo local, faria uma recepção com os escritores na manhã seguinte.

Seguiu por uma trilha costeira, afastando-se das ruas principais. A paisagem era de tirar o fôlego: o mar de um azul denso, as falésias altas, os barquinhos coloridos balançando ao longe.

Então parou.

O cheiro do mar se intensificou. E junto dele, uma onda de lembranças. Imagens dela criança, segurando a mão do pai enquanto ele contava as histórias de quando navegava. O riso da mãe, chamando-os para o piquenique na areia. O último abraço antes da viagem de barco. E depois… nada. Um telefonema. Um enterro sem corpos.

Clara respirou fundo, tentando afastar os pensamentos. Foi quando ouviu passos.

— Você voltou — disse uma voz masculina atrás dela.

Ela se virou, surpresa.

Ali estava ele.

Alto, de postura tranquila. Cabelos castanhos curtos e bagunçados pelo vento. Pele dourada de sol. E olhos… olhos escuros e profundos, como se carregassem o próprio oceano dentro deles.

— Desculpe… você é?

— Miguel. Miguel Duarte — ele estendeu a mão. — Acho que sou seu anfitrião.

Clara apertou sua mão, cautelosa.

— Vim escrever. Só isso.

— Ninguém encara o mar só por trabalho — ele respondeu, com um meio sorriso. — Alguma parte sua ainda quer entender o que aconteceu naquela noite, não é?

Ela o encarou, engolindo seco.

— Você me conhece?

— Não pessoalmente. Mas conheci seu pai. Ele salvou meu irmão uma vez, há muito tempo. No mar.

Clara sentiu o chão sumir por um instante. A mão escorregando da borda do barco, a onda levando tudo, o eco de um nome nunca mais pronunciado.

— Isso… isso é sério?

— É. Meu irmão se chamava Lucas. Tinha 18 anos. Seu pai o puxou da correnteza. Nunca mais nos vimos. Mas lembro do rosto dele. E do seu. Você estava lá. Tinha uns oito, talvez nove anos.

Clara deu um passo para trás, o ar rarefeito.

— Preciso ir.

— Claro. Só queria dizer que, se precisar de alguma coisa… estou por aqui.

Ela não respondeu. Apenas caminhou de volta à casa, os pensamentos embaralhados.

Ele conheceu meu pai. Ele me viu criança.

Por que isso parecia mais do que coincidência?

---

Naquela noite, Clara não dormiu.

Sentou-se na escrivaninha e abriu o caderno.

A tinta deslizou pela folha sem que ela pensasse.

> “O mar guarda histórias que não contamos em voz alta.

Ele carrega os nomes dos que perdemos, e devolve, às vezes, quem nunca esperávamos encontrar.”

Ela rabiscou até que a mão doesse.

Pela primeira vez em meses… estava escrevendo.

---

Pela manhã, um bilhete a esperava na porta:

“Encontro às 10h no farol. Vai valer a pena. — Miguel”

Ela ficou olhando para as palavras como se fossem um convite a outro mundo.

O farol ficava ao norte da vila, numa elevação que exigia coragem para escalar. O lugar onde, segundo Teresa, os pescadores iam “conversar com os mortos”. Um lugar de histórias. De despedidas.

Ela hesitou. Depois vestiu o casaco, amarrou o cabelo e partiu.

---

O farol era velho, mas imponente. O vento ali era mais forte, assobiando entre as pedras. Miguel já a esperava, encostado em uma pedra, olhando o mar como quem conversa com ele.

— Achei que não viria — disse ele, sem tirar os olhos do horizonte.

— Ainda não tenho certeza se vim.

Ele sorriu.

— Sabe por que gosto desse lugar? Porque daqui a gente enxerga o mar todo. O começo e o fim.

— E o que tem no meio?

— As correntes. Invisíveis, fortes. Levam o que queremos esconder. Trazem o que precisamos enfrentar.

Clara cruzou os braços.

— E por que me trouxe aqui?

Miguel olhou para ela.

— Porque você precisa encarar. Você veio até aqui por uma razão. E não é só pelo livro.

Ela sentiu raiva. Ele nem a conhecia.

— Você não sabe nada sobre mim.

— Talvez não. Mas o mar sabe.

Ela se calou.

Ali, com o vento soprando as lembranças e a solidão do farol ao redor, Clara percebeu: havia algo naquele lugar que pedia para ser desenterrado.

E Miguel… talvez fosse a chave.

Ou talvez fosse mais uma onda prestes a quebrar sobre ela.

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