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Capa do romance Destino Quebrado

Destino Quebrado

Após perder o filho Felipe em um acidente, um pai descobre a traição cruel de sua esposa, Sofia. Enquanto ele sofria, ela vivia uma vida de luxo secreta com outra família, financiada pelo esforço do próprio filho. Com uma doença terminal e a revelação de que o herdeiro de Sofia causou a tragédia, ele desiste do divórcio. Sua última missão não é o perdão, mas garantir que a esposa carregue a culpa eterna, transformando os meses finais em um acerto de contas.
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Capítulo 3

O caminho até o necrotério foi um borrão. Ricardo não se lembrava de ter pego o ônibus nem de ter andado pelas ruas. Ele se moveu em piloto automático, seu corpo um invólucro vazio enquanto sua mente se recusava a aceitar a realidade. O cheiro de desinfetante e a iluminação fria e azulada do corredor do hospital o trouxeram de volta a si.

Um funcionário de aparência cansada o guiou até uma sala de metal. Com um movimento mecânico, ele puxou uma gaveta e afastou o lençol branco.

Era Felipe.

A pele pálida, os lábios levemente azulados, um corte feio na testa que alguém havia tentado limpar. Mas era ele. O mesmo cabelo escuro e rebelde que ele sempre tentava domar. As mesmas sobrancelhas grossas. O filho que ele tinha ensinado a andar de bicicleta, que ele ajudava com o dever de casa, que sonhava em ser engenheiro para dar uma vida melhor aos pais.

A confirmação oficial, a visão do corpo sem vida de seu filho, quebrou a última barreira de autocontrole de Ricardo.

Uma onda de náusea o atingiu. Ele se virou cambaleando, correu para o banheiro mais próximo e vomitou violentamente na pia. Esvaziou o estômago, mas a dor continuava lá, um nó apertado e ardente que parecia queimar suas entranhas. Ele apoiou as mãos na louça fria, o corpo tremendo incontrolavelmente. Olhou para seu reflexo no espelho: um homem envelhecido dez anos em poucas horas, os olhos vermelhos e fundos, o rosto marcado por um sofrimento que parecia ter sido esculpido em sua pele.

Ele chorou. Não um choro silencioso, mas soluços altos e guturais que rasgavam sua garganta. A dor de um pai que perdeu seu único filho, seu orgulho, seu futuro. Ele socou a parede, uma, duas vezes, a dor física em seus nós dos dedos um alívio momentâneo para a dor insuportável em sua alma.

De volta para casa, o silêncio era uma tortura. Cada objeto parecia gritar a ausência de Felipe. Os tênis gastos perto da porta, o livro de física aberto sobre a mesa da cozinha, o cheiro fraco do perfume barato que ele usava. Ricardo sentou-se na poltrona velha, sentindo-se um fantasma em sua própria casa.

Ele ligou a televisão, buscando qualquer ruído para preencher o vazio. Passou pelos canais sem ver nada, até que uma imagem o fez parar. Era um noticiário local, uma matéria sobre a competição de natação juvenil que havia acontecido naquela tarde. E lá estava ela.

Sofia.

Ela aparecia no fundo da imagem, atrás do jovem campeão, Lucas. Ela sorria para a câmera, aplaudindo com entusiasmo. Usava um vestido elegante que Ricardo nunca tinha visto, joias discretas que brilhavam sob as luzes da reportagem. Ela parecia feliz. Realizada. A imagem durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente. Aquela era a "reunião importante" dela. Aquele era o motivo pelo qual ela não podia atender o telefone.

A cena era tão surreal, tão grotescamente fora de lugar com a sua própria realidade, que por um momento Ricardo pensou que estava alucinando. Mas não estava. A imagem de sua esposa celebrando enquanto o corpo de seu filho esfriava em um necrotério era real.

A raiva que antes era uma semente gelada agora explodiu dentro dele, quente e violenta. Era uma traição de uma magnitude que ele não conseguia compreender. O controle que ele lutava para manter se desfez completamente.

Ele se levantou e varreu com o braço tudo o que estava sobre a pequena mesa de centro. Copos, um cinzeiro, um porta-retrato com a última foto da família. O vidro se estilhaçou no chão, o som ecoando pela casa silenciosa. Ele chutou uma cadeira, que bateu contra a parede com um baque surdo. Ele gritava, um som animal de pura dor e fúria, amaldiçoando o nome dela, amaldiçoando Deus, amaldiçoando o mundo.

Exausto, ele caiu de joelhos no meio dos cacos de vidro. Precisava encontrar algo, qualquer coisa, que fizesse sentido. Talvez uma apólice de seguro, os documentos de Felipe. Ele começou a remexer nas gavetas da cômoda onde guardavam os papéis importantes.

Foi então que sua mão tocou uma caixa de sapatos velha, escondida no fundo, debaixo de velhos lençóis. Ele não se lembrava daquela caixa. Curioso, ele a puxou e a abriu.

O que ele encontrou o deixou sem ar.

Não havia velhas fotografias ou lembranças de família. Havia extratos bancários. Dezenas deles. De uma conta que ele não conhecia, em nome de Sofia. Os saldos eram chocantes. Havia milhares e milhares de reais ali. Depósitos regulares, vultosos, de uma fonte que ele não identificou. E as retiradas... eram ainda mais assustadoras. Pagamentos para escolas de elite, lojas de artigos esportivos de luxo, agências de viagem. Recibos de joias, roupas de grife, aluguel de um apartamento em um bairro nobre.

E, no fundo da caixa, um segundo celular. Um smartphone moderno, muito diferente do aparelho simples que ela usava na frente dele. Ele o ligou. Não tinha senha. A galeria de fotos estava cheia de imagens de Sofia com Marcos e Lucas. Em praias, em restaurantes, em festas. Rindo. Felizes. Uma família.

A verdade o atingiu com a força de um trem desgovernado. A pobreza era uma farsa. A vida de sacrifício era uma mentira. Sofia não estava apenas ausente; ela estava vivendo uma vida dupla. O dinheiro que ele e Felipe ganhavam com tanto suor, as horas extras, os fins de semana trabalhando, o sonho de Felipe adiado para ajudar em casa... tudo aquilo era uma fachada para que ela pudesse sustentar o luxo de outra família.

Felipe não morreu apenas em um acidente. Ele morreu porque acreditava em uma mentira. Ele morreu trabalhando para aliviar um fardo financeiro que não existia.

Ricardo ficou ali, no chão, cercado pelos destroços de sua vida e pela prova irrefutável da traição de sua esposa. A dor do luto se misturou a um novo sentimento, mais frio e cortante: o ódio.

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