
Cinco Anos Para Recomeçar
Capítulo 2
Dez anos. Dez anos se passaram em um piscar de olhos, mas cada dia foi uma eternidade. O destino nos uniu, mas também nos preparou uma armadilha cruel, um ciclo de amor e dor que parecia não ter fim. Eu acreditei que nosso amor era uma fortaleza, mas era apenas um castelo de areia, esperando a maré subir para desmoronar e levar tudo com ela. Eu amei Leo com toda a minha alma, e por dez anos, pensei que ele me amava também, mas no final, no meu momento de maior desespero, a verdade se revelou, fria e cortante.
O cheiro de desinfetante invadia minhas narinas, e a luz branca do teto do hospital queimava meus olhos. Cada respiração era um esforço, um som áspero que ecoava no quarto silencioso. Meu corpo estava quebrado, destruído em um acidente de carro que eu mal conseguia lembrar. Máquinas apitavam ao meu redor, um coro monótono que marcava os segundos que me restavam. E ali, no meio daquele pesadelo, ele apareceu. Leo. Meu marido. Ele segurava minha mão, mas seu toque era estranho, distante. Seus olhos, que um dia me olharam com tanto amor, agora estavam cheios de uma pressa que eu não compreendia.
"Elara, você precisa assinar isso" , ele disse, a voz baixa, quase um sussurro. Ele empurrou uma prancheta para perto da minha mão inerte, com uma caneta presa a ela. Meus olhos mal conseguiam focar, mas vi as palavras no topo do papel: "Formulário de Consentimento para Transferência de Bens" . Meu cérebro, lento e confuso pela dor e pelos medicamentos, tentou processar. Transferência? Por quê? Nós construímos tudo juntos.
"Leo... o que... o que é isso?" minha voz saiu como um arranhão.
Ele não me olhou nos olhos. Em vez disso, olhou para a porta, depois para o relógio. "É só uma formalidade, querida. Para facilitar as coisas. Você sabe, com o seu estado... os médicos não têm muita esperança. Eu preciso cuidar de tudo."
Naquele momento, uma enfermeira entrou no quarto, seu rosto era uma máscara de profissionalismo. Ela se virou para Leo e disse, com uma voz firme, "Senhor, a paciente Sofia está chamando pelo senhor. Ela está muito agitada."
O nome me atingiu. Sofia. A melhor amiga de Leo. A mulher que ele jurou ser apenas uma amiga. O sangue gelou em minhas veias. Leo soltou minha mão como se ela queimasse. Ele olhou para a enfermeira, depois para mim, e um pânico culpado cruzou seu rosto. Ele pensou que eu estava sedada demais para entender, mas a adrenalina da traição cortou a névoa da medicação. A verdade me atingiu com a força de um soco. Sofia também estava no acidente. Eles estavam juntos.
"Eu já vou," Leo disse para a enfermeira, a voz tensa. Ele se virou para mim, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos. "Eu preciso resolver uma coisa rápida. Assine o papel, Elara. Por favor. Facilite para mim." Ele insistiu, empurrando a caneta contra meus dedos. A crueldade na sua voz era inconfundível. Ele não estava preocupado comigo, estava preocupado com os bens, com a vida que ele planejava ter sem mim, com ela.
De repente, o monitor cardíaco ao meu lado começou a apitar descontroladamente. Um alarme alto e agudo encheu o quarto. A enfermeira correu para o meu lado, gritando por um médico. Meu peito doía, uma pressão esmagadora. Eu estava morrendo. E a última coisa que vi não foi o rosto de um marido amoroso e em luto, mas o de um homem impaciente, um traidor que só queria minha assinatura para poder correr para os braços de outra mulher. Ele olhou para o monitor, depois para mim, e em seus olhos eu vi a decisão. Ele deu um passo para trás, deixando a prancheta cair no chão, e saiu do quarto, me abandonando para morrer.
Enquanto a escuridão me envolvia, um único pensamento queimava em minha mente: vingança. O som dos alarmes se tornou um zumbido distante, a dor desapareceu, e tudo ficou preto. Então, uma luz. Não a luz fria do hospital, mas a luz do sol da manhã entrando pela janela do meu quarto. O quarto que eu dividia com Leo. O cheiro não era de desinfetante, mas de café fresco. Eu me sentei na cama, o coração martelando no peito. Meu corpo... não doía. Não havia máquinas, nem tubos. Eu olhei para minhas mãos. Elas estavam perfeitas. Olhei para o calendário na parede. A data era de cinco anos atrás. Cinco anos antes do acidente. O destino não tinha terminado comigo. Ele me deu uma segunda chance. E desta vez, eu não seria a vítima. Eu seria a caçadora.
Você pode gostar





