
Cinco Anos Para Recomeçar
Capítulo 3
O cheiro do café da manhã feito por Leo enchia a casa. O mesmo cheiro que por anos significou segurança e amor, agora me causava náuseas. Eu me olhava no espelho do banheiro, a água fria correndo sobre minhas mãos. O rosto que me encarava era mais jovem, sem as linhas de preocupação e tristeza que a vida futura me daria. Mas meus olhos... meus olhos eram velhos. Eles carregavam o peso da traição e da morte que eu tinha acabado de experimentar. Era uma sensação horrível, estar presa em um corpo jovem com uma alma quebrada. Cada canto desta casa era uma lembrança dolorosa do que estava por vir.
Leo entrou no quarto, sorrindo. O mesmo sorriso que ele me deu antes de me pedir para assinar aqueles papéis. "Bom dia, meu amor. Dormiu bem?" Ele tentou me beijar, mas eu me virei instintivamente, fingindo estar ocupada secando o rosto.
"Dormi," respondi, a voz seca. Eu não conseguia olhá-lo nos olhos. Vê-lo ali, agindo como o marido perfeito, sabendo que em cinco anos ele me deixaria para morrer por outra mulher, era uma tortura.
Ele pareceu não notar minha frieza, ou escolheu ignorá-la. "Fiz seu café do jeito que você gosta. Com um pouco de canela." Ele me abraçou por trás, e eu tive que lutar contra o impulso de afastá-lo. Seu toque, que antes me confortava, agora parecia o de uma cobra. "Aconteceu alguma coisa? Você parece... distante."
"Só um pesadelo," menti, forçando um sorriso fraco. "Foi muito real. Acordei assustada." Era a única verdade que eu podia lhe dar. A realidade era que meu pesadelo tinha sido a minha vida anterior.
Nos dias que se seguiram, eu vivi em um estado constante de alerta. Leo continuava com sua rotina de marido atencioso, me trazendo flores, planejando jantares românticos, falando sobre nosso futuro. Cada palavra de amor era como veneno em meus ouvidos. Eu o observava, procurando por rachaduras em sua fachada. E elas começaram a aparecer. Pequenas coisas, no início. Um telefonema que ele atendia em outro cômodo. Uma mensagem de texto que ele apagava rapidamente quando eu me aproximava. Desculpas vagas para chegar tarde em casa.
Comecei a mudar meus próprios hábitos. Eu sempre odiei café amargo, mas comecei a tomá-lo sem açúcar, um pequeno ato de rebeldia, uma forma de me lembrar que eu não era mais a mesma mulher. Eu, que sempre deixava ele cuidar das finanças, comecei a pedir extratos bancários, a fazer perguntas sobre nossos investimentos. Ele ficava irritado, mas disfarçava.
"Por que essa obsessão repentina com dinheiro, Elara? Você nunca se importou com isso," ele disse uma noite, a voz carregada de impaciência.
"Estou apenas tentando ser mais responsável, Leo. Saber o que está acontecendo com a nossa vida," respondi calmamente, enquanto olhava para uma retirada suspeita no extrato do cartão de crédito. Um jantar caro em um restaurante que nunca fomos juntos.
O primeiro grande sinal veio em uma sexta-feira à noite. Ele disse que tinha uma reunião de trabalho que iria até tarde. Um jantar com clientes importantes. Ele me beijou na testa e disse para não esperá-lo acordada. Na minha vida anterior, eu teria acreditado. Teria feito um lanche para ele e o deixado na geladeira. Mas a nova Elara era diferente. Uma hora depois que ele saiu, liguei para o escritório dele. A secretária, uma senhora simpática que me conhecia, atendeu.
"Oi, Clara, é a Elara. O Leo ainda está por aí?" perguntei, tentando manter a voz casual.
"Elara, querida! Não, o Leo saiu no horário normal hoje. Ele disse que estava se sentindo um pouco mal e ia para casa mais cedo," ela respondeu, com genuína preocupação.
Meu coração afundou. A mentira. Tão descarada, tão fácil para ele. Ele não estava em uma reunião. Ele não estava doente. Ele estava com ela. Com Sofia. Eu desliguei o telefone, as mãos tremendo. A dor era familiar, mas desta vez, estava misturada com uma raiva fria e calculista. Ele pensou que eu era a mesma mulher ingênua e confiante. Ele não sabia que estava lidando com um fantasma. Um fantasma com uma memória perfeita e um desejo de vingança que crescia a cada dia. O jogo havia começado. E desta vez, eu faria as regras.
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