
Cem Mil Euros: O Preço da Traição
Capítulo 2
O telefone tocou, cortando o silêncio estéril do quarto do hospital. Era a chamada que eu esperava há três anos.
"Senhora Clara, temos um rim compatível."
O meu coração parou e depois disparou. Três anos em diálise, três anos de espera, três anos a ver a minha vida a esvair-se.
"A cirurgia é privada, o custo é de cem mil euros. Precisamos da confirmação do pagamento nas próximas doze horas para reservar o órgão."
Cem mil. O número era enorme, mas não impossível. Eu e o meu marido, Miguel, tínhamos poupado exatamente para isto. Era o nosso fundo de emergência, a nossa apólice de seguro para a vida.
"Sim, claro. Vou falar com o meu marido. Fazemos a transferência imediatamente."
Mal desliguei, disquei o número de Miguel. A alegria fazia-me tremer. Finalmente. Íamos ter a nossa vida de volta.
Ele atendeu ao terceiro toque. O som de fundo era barulhento, com vozes e risos.
"Clara? Aconteceu alguma coisa? Estou em casa da minha mãe."
A voz dele soava tensa.
"Miguel! Conseguimos! Eles têm um rim para mim!"
Gritei, incapaz de conter a emoção.
"Temos de pagar cem mil euros nas próximas doze horas. Podes transferir o dinheiro da nossa conta poupança?"
Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio que durou demasiado tempo. O barulho de fundo desapareceu, como se ele se tivesse afastado.
"Miguel?"
"Clara, sobre o dinheiro..."
A voz dele era um sussurro.
"O que tem o dinheiro, Miguel? Está lá, não está?"
"Eu... tive de o usar."
O chão do hospital pareceu desaparecer debaixo dos meus pés. O zumbido nos meus ouvidos era mais alto que as minhas próprias batidas cardíacas.
"Usaste-o? Como assim, usaste-o? Para quê?"
"A Sofia precisava, Clara. O negócio dela estava a ir à falência. Era uma emergência."
Sofia. A irmã mais nova dele. A menina dos olhos da família, sempre frágil, sempre a precisar de ser salva.
"O negócio dela? Miguel, aquilo era o dinheiro para a minha vida."
A minha voz saiu como um arranhão.
"Eu sei, meu amor, eu sei. Mas ela é família. Eu vou arranjar o dinheiro de volta, eu prometo."
No fundo, ouvi a voz da irmã dele, Sofia, a rir de alguma coisa. E depois a voz da minha sogra, Helena.
"Miguel, querido, vem comer a sobremesa! Deixa o telefone."
Ele não me amava. Ele nunca me amou. Naquele momento, eu tive a certeza.
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