
Cem Mil Euros: O Preço da Traição
Capítulo 3
"Doze horas, Miguel."
A minha voz era fria, desprovida de qualquer emoção que sentira momentos antes.
"Eles não vão guardar o rim para mim. Se o dinheiro não estiver lá, eles dão-no à próxima pessoa da lista."
"Eu entendo, Clara. Vou resolver. Vou falar com umas pessoas, pedir um empréstimo..."
As desculpas dele eram fracas, vazias. Cem mil euros não aparecem do nada. Ele sabia disso. Eu sabia disso.
"Porque não me contaste?"
"Eu não te queria preocupar. Já tens tanto com que lidar. Pensei que conseguia resolver isto antes que precisasses do dinheiro."
Ele não me queria preocupar. Ele mentiu, escondeu, roubou o meu futuro, e agora dizia que era para meu bem.
A enfermeira entrou no quarto.
"Senhora Clara, o Dr. Almeida quer falar consigo sobre os próximos passos."
Acenei com a cabeça, incapaz de falar.
"Miguel, tenho de ir."
Desliguei antes que ele pudesse dizer mais alguma mentira.
O Dr. Almeida foi direto.
"Clara, esta é uma oportunidade rara. O dador é jovem, saudável, uma compatibilidade quase perfeita. A probabilidade de sucesso é altíssima."
Ele olhou para mim, os seus olhos eram gentis, mas firmes.
"Mas as regras são claras. Sem o pagamento, não podemos avançar. Há outra família à espera, pronta para pagar."
Cada palavra dele era um prego no meu caixão.
Sentei-me na cama, o vestido do hospital a parecer um sudário. Olhei para a minha pele pálida, para as marcas da fístula no meu braço. Aquela era a minha vida. E a oportunidade de a mudar estava a escapar-se por entre os meus dedos.
Por causa dele. Por causa da família dele.
Peguei no telefone novamente. Abri a aplicação do banco. A nossa conta poupança conjunta. O saldo era de 137,45 €.
Cento e trinta e sete euros e quarenta e cinco cêntimos.
Era o que valia a minha vida para ele.
As lágrimas que eu não sabia que estava a segurar começaram a cair, silenciosas e quentes, manchando o tecido fino do vestido do hospital.
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