
A Vingança é Doce: Casar com Seu Pior Inimigo
Capítulo 2
Kênia Ayres POV
A liberdade teve um gosto doce por exatas quarenta e oito horas antes de virar cinzas.
Eu estava em um motel caindo aos pedaços na Baixada, tentando descobrir como desaparecer com apenas cinquenta reais no bolso.
O celular pré-pago que comprei com dinheiro vibrou contra o criado-mudo de laminado barato.
Não era um número.
Era apenas a palavra CORRA.
Antes que eu pudesse processar, a porta se estilhaçou.
Dois homens de touca ninja preencheram o vão, bloqueando a luz do corredor.
Eles não falaram.
Eles avançaram.
Eu lutei, minhas unhas arranhando inutilmente jaquetas de couro grossas, minhas botas acertando canelas.
Um deles me deu um tapa de mão aberta.
Minha cabeça estalou para trás, e o mundo ficou embaçado nas bordas.
Eles me arrastaram para uma van antes que eu pudesse gritar.
Um saco preto foi colocado sobre minha cabeça, me mergulhando na escuridão.
O ar lá dentro era denso, com o cheiro enjoativo de gasolina e suor velho.
Dirigimos por quase uma hora.
Quando a van parou, eles me puxaram para fora e me fizeram andar sobre o cascalho que rangia.
Eu podia ouvir o rugido do oceano.
O saco foi arrancado.
Estávamos na Mansão da Joatinga.
A propriedade particular de Heitor.
Mas não era uma escapada romântica.
Era um palco.
Fui empurrada para uma cadeira no centro do pátio.
As abraçadeiras de plástico cortavam a pele sensível dos meus pulsos.
Na minha frente, amarrada a outra cadeira, estava Estela.
Ela parecia perfeita, mesmo em perigo.
Seu cabelo estava bagunçado na medida certa.
Sua maquiagem estava intacta.
"Socorro!", ela gritou, seus olhos se movendo para uma câmera montada em um tripé. "Heitor, por favor!"
Heitor saiu das sombras como um príncipe das trevas entrando em sua corte.
Ele segurava uma arma.
Parecia um deus da vingança, com o maxilar cerrado e os olhos escuros.
"Soltem elas", ele rosnou para os homens mascarados.
"Você só pode salvar uma, Chefão", disse um dos homens, sua voz distorcida por um modulador.
"A outra vai para o penhasco."
Ele apontou para o penhasco atrás de nós.
Era uma queda livre direto para as rochas pontiagudas e a água agitada.
Heitor olhou para mim.
Depois olhou para Estela.
Por uma fração de segundo, a máscara caiu.
Vi o brilho de diversão em seus olhos.
Isso não era um sequestro.
Isso era a Pegadinha nº 98.
Eu tinha visto a lista em seu iPad uma vez.
Experimentos sociais.
Testes de lealdade.
Jogos doentios para psicopatas ricos.
"Eu escolho...", Heitor fez uma pausa para efeito dramático, olhando diretamente para a lente da câmera. "Estela."
Ele correu até ela, cortando suas amarras com uma faca que tirou da bota.
Ele a puxou para um beijo apaixonado e cinematográfico.
Os homens mascarados agarraram minha cadeira.
"Não!", gritei, o terror real mesmo que o cenário não fosse. "Heitor!"
Ele nem olhou para trás.
Estava ocupado demais bancando o herói para sua futura esposa.
Os homens empurraram.
Eu tombei para trás.
A gravidade me arrebatou.
Eu caí.
O vento assobiava em meus ouvidos como um grito.
Fechei os olhos com força, esperando o impacto das rochas.
Esperando a morte.
Em vez disso, atingi algo macio.
O ar sibilou violentamente ao meu redor.
Eu quiquei.
Abri os olhos.
Eu estava deitada em um colchão de ar de dublê amarelo gigante no deck inferior da mansão.
Acima de mim, na varanda, Heitor e Estela olhavam para baixo, rindo.
Estela segurava uma taça de champanhe.
"Você tinha que ver a sua cara!", ela gritou.
Heitor se inclinou sobre o parapeito.
"É só um jogo, Kênia", ele gritou, sua voz se espalhando sem esforço pelo vento. "Não seja tão dramática. O colchão de ar custou vinte mil reais."
Fiquei ali, olhando para o céu cinzento.
Meu corpo doía.
Meu coração era uma cratera.
Ele não tinha apenas partido meu coração.
Ele tinha transformado meu terror em conteúdo para sua diversão.
Eu não era uma pessoa para ele.
Eu era um objeto.
E objetos não podem simplesmente ir embora.
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