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Capa do romance A vingança de Cleópatra

A vingança de Cleópatra

Criada em um abrigo, Cleo foca nos estudos para ser delegada, até que um encontro com Victorio muda seu rumo. Apesar de evitar o amor, ela se entrega a uma paixão perigosa. Após anos juntos, uma tragédia ocorre e ele a abandona no pior momento. Uma década depois, Victorio ressurge implorando por ajuda. Entre mistérios e mágoas, essa história de resiliência e força feminina questiona se o perdão é possível após uma traição que transformou toda uma vida.
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Capítulo 3

Hoje

— Cleo, você não me contou nada sobre jantar fora hoje à noite.

— Estou contando agora. — respondo, friamente, enquanto procuro a chave do carro pela sala. Lucas tinha toda razão de ficar encanado. Eu nunca saía sábado à noite. Pelo menos nunca sem planejar ou avisar.

Era 19h20, Lucas tinha acabado de chegar de mais um plantão cansativo no Hospital das Clínicas e não entendeu nada ao me ver pronta para sair. Por um momento me senti culpada de não tê-lo avisado antes, nem que fosse via mensagem de celular. Mas as explicações ficariam para depois. Precisava achar as chaves e sair o quanto antes. Sempre odiei andar atrasada.

— Só falta o Bingo ter engolido as chaves agora. Bingo! — grito, andando apressada pelos cômodos do apartamento. O barulho que meus saltos fazem enquanto ando ajuda a deixar mais evidente toda minha euforia por estar atrasada.

— Vai voltar a tempo da maratona? — Lucas se referia ao nosso hábito sabático de assistir dezenas de episódios seguidos de séries policiais na TV.

— Não sei, não precisa me esperar. — respondo novamente sem olhar para ele, numa vã tentativa de amenizar minha culpa. É claro que esse clima não se manteria por muito tempo.

— Na segunda gaveta. Como sempre. — meu namorado me entrega as chaves, sem conseguir disfarçar seu aborrecimento.

Nosso lema sempre foi “relacionamento sem amarras”. Não do tipo amizade colorida ou relação aberta, com direito a envolvimento com terceiros. Apenas um namoro sem cobranças. Vidas compartilhadas buscando o prazer, o engrandecimento. Bem filosófico, utópico até. Mas foi o que combinamos e estava dando certo por quase oito anos. Pelo menos até agora.

— Obrigada. — digo, desta vez olhando em seus olhos, e lhe entrego a expressão mais empática que consigo, antes de sair e fechar a porta atrás de mim.

#

O The Carpa estava lotado, como eu já esperava. Era um dos motivos de eu ter escolhido esse lugar. Os outros motivos eram que o estabelecimento tinha um perfil na medida: não era um boteco desleixado mas também estava longe de ser um restaurante refinado. Um lugar ideal para um jantar e uma conversa, não um encontro.

Avistei Victorio assim que encontrei uma vaga para estacionar. De pé, na porta do bar, ele fingia mexer no celular para passar o tempo, e às vezes olhava para os lados, um pouco apreensivo. Ainda faltavam cinco minutos para as oito, o que também me fez estranhar seu excesso de pontualidade. Ele estava levando esse retorno repentino a sério mesmo.

Oi.

Ah, oi. Pensei que fosse chegar do outro lado, por isso não te vi. — ele começou se explicando e abriu um sorriso largo demais para o meu gosto. Ao beijar meu rosto, pensei por alguns milésimos de segundo em não retribuir. Eu ainda me sentia ressentida demais com ele até mesmo para fingir qualquer gentileza.

Hum. Então, vamos entrar?

Sem responder, ele apenas se virou e abriu a porta de vidro, me dando espaço para passar primeiro. Ok, confesso que minha postura de quem estava por cima na situação era uma farsa total. Eu estava muito nervosa e principalmente curiosa para saber o que ele tinha a me dizer. Foram muitos anos no limbo. Muitos anos sem trocar uma palavra sequer, um telefonema, uma mensagem, nada. Muito tempo sem saber o que ele estaria fazendo ou com quem estava vivendo. E do nada, como uma fênix, ele reaparecia para pedir perdão? Certamente se fosse a Claudia, teria o mandado para os infernos, no mínimo. E nunca teria aberto a porta da casa para ele. Mas eu não era a Claudia. Eu era a pessoa que tinha conhecido, ou pelo menos achava que tinha conhecido, a melhor e a pior versão daquele homem. E não, não era um resgate do passado, era só curiosidade. Fiz disso meu mantra do momento em que nos vimos em meu apartamento até aquela hora, no restaurante. Estava ali por curiosidade e só.

— Você costuma pedir o que quando vem aqui? — ele pergunta, enquanto folheia o cardápio e claro, tenta tornar o clima mais razoável.

— Batatas. E suco de laranja. — respondi.

Antes de, instintivamente, rebater com um “Sério?”, ele parece ter pensado duas vezes e apenas anuiu, fechando o cardápio. Comecei a me incomodar com o Victorio bonzinho e queria que fosse direto ao assunto. Mas para minha surpresa, depois que fez o pedido ao garçom, não precisei tomar iniciativa. Ele também parecia ansioso.

— Cleo, — senti um arrepio incômodo ao ouvi-lo falar meu nome - como te falei lá no seu apartamento, não estaríamos aqui se o que tenho para te falar não fosse sério. E… — ele pausava, procurando as melhores palavras - não é só um simples pedido de desculpas. Tem mais coisa.

Era o que eu suspeitava. E temia. Especialmente porque ele não fazia o tipo do cara que pesa a consciência. Não o Victorio que eu tinha conhecido. Mas depois de tanto tempo, não saberia mais dizer de que tipo ele era agora. O tipo que começa a amadurecer aos 30, talvez?

— Certo, isso eu já sabia. E que mais coisa seria essa?

— Calma. É que é difícil depois de tanto tempo. Depois de tudo. Tá na cara que você não confia nenhum pouco em mim, então dependendo do que eu disser…

— Não confio mesmo. A culpa é toda sua e você sabe muito bem disso - interrompi. Ao mesmo tempo que estava ali para ouvi-lo, todas as palavras engasgadas também estavam dispostas a sair. Se possível, tudo de uma vez. Mas eu me segurei. Afinal, a mania de interromper e falar mais alto sempre foi dele.

— Sim, eu sei. E é por isso que, dependendo do que eu disser e como eu disser, você não vai mesmo acreditar em mim, ainda que seja verdade.

— Você tem bastante chance de me fazer acreditar em você se parar de enrolar e falar logo o que quer. A verdade é que eu não deveria nem estar aqui. Deveria estar em casa, com meu namorado. Então, o que aconteceu? — pressionei. Minha voz altiva o fez recuar ainda mais na sua postura resignada. Ele entendeu o recado. Se demorasse um pouco mais, eu iria embora e o deixaria ali sozinho.

— Eu estou com um problema grave. Um caso de saúde, risco de morte. — ele despejou a frase entrecortada de uma só vez.

Antes que eu esboçasse qualquer reação, tivemos o clima interrompido pelo garçom que trouxe nosso pedido. Com cara de que estavam apetitosas, as batatas eram apenas um pretexto para continuarmos usando aquele espaço. A verdade é que nenhum dos dois estava com fome. Ou pelo menos, não mais.

— Você não brincaria com isso, né, Victorio? — perguntei, e ele se sentiu ofendido.

— Tá vendo porque eu estava tentando um melhor jeito de dizer? Não, Cleo, não brincaria, como não estou brincando. E principalmente porque a situação não é bem comigo. — ele deu uma pausa, pensativo — mas é como se fosse. É complicado.

— Olha… — inspirei o máximo de ar que pude enquanto escolhia as melhores palavras — complicado é pouco. O que eu preciso entender é, bom, sem parecer insensível, mas — agora eu quem estava enrolando para falar — o que exatamente isso tem a ver comigo? — questionei antes de pegar uma batata do prato.

Victorio não dava nenhum sinal de que estivesse blefando, ou pregando alguma peça de péssimo gosto como já o vi fazer outras vezes. Eu não gostava de admitir mas desta vez ele falava sério. Nem seu típico sorriso sacana, aquele de lado, ele estava deixando escapar. A situação deveria mesmo ser grave. Aliás, grave o suficiente para ele recorrer logo a mim. E dessa forma tão urgente. Foi a partir daí que minha irritação com ele passou a dar lugar a uma preocupação verdadeira que, sinceramente, era a última coisa que eu precisava no atual momento da minha vida.

— Não tem nada a ver com você. — ele respondeu — Mas…

— Mas?

— Mas você foi a única pessoa em quem pensei que poderia me ajudar.

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