Capa do romance Mãe por contrato

Mãe por contrato

8.7 / 10.0
Catrina levava uma vida simples até receber uma oferta inesperada de um magnata influente: assumir o papel de mãe de seus filhos. Assombrado pelo luto e convencido de que nunca mais amaria, ele aceita o desafio da jovem para conquistar o afeto dela. Agora, o bilionário enfrenta um dilema complexo, tentando despertar o amor em Catrina sem ceder à tentação de entregar o próprio coração, enquanto lutam contra a forte atração que surge entre eles.

Mãe por contrato Capítulo 1

— Catrina e Will. Preciso falar com vocês. Venham até minha sala, por favor.

Eu jamais imaginei que chegaríamos a essa situação, sobretudo no aniversário de 100 anos da galeria. Fundada em 1920, por Giovanni Valentini, a galeria sempre foi muito próspera, mesmo quando Winy Valentini, sua neta, assumiu a direção da galeria após ele mostrar não ser mais um exímio gerente. Conforme os anos avançavam a galeria vendia cada vez menos. Quando Giovanni faleceu, alguns de nossos melhores clientes nos abandonaram, grande maioria eram seus amigos e por ele ainda permaneciam.

Eu entrei na galeria em 2015, nessa época Bailey, Alana e Carlos ainda trabalhavam aqui, Carlos como gerente, Alana e Bailey vendedoras. Poucos meses depois, Willian foi contratado para substituir Alana, que saiu depois de se casar. Nos tornamos melhores amigos em pouco tempo, não tinha como ser diferente. Willian é uma pessoa muito carismática e alegre, leva luz aonde quer que vá. Não demorou muito para que fôssemos vistos com maus olhos pelos mais antigos, mas isso nunca foi um problema, não até Dona Winy informar que faria um corte. Foi nesse momento que Bailey passou a ser mais competitiva e por muitas vezes grosseira, somente com os funcionários, claro!

Bailey foi demitida após discutir com Willian e ofendê-lo por sua sexualidade. Carlos, que já estudava outra oportunidade de emprego, aproveitou a deixa e saiu da galeria pouco menos de um mês depois. Apesar de seu jeito incomum de ser, Bailey era uma boa vendedora, tinha clientes fiéis. Alguns vieram e continuaram comprando, outros ao sentirem sua falta, simplesmente viravam a cara e iam embora. Com a saída de Carlos acabei pegando seu lugar na gerência. Levei um susto quando Dona Winy chamou William e eu para conversar, temia que a falência houvesse, enfim, chegado para nós.

— Está tudo bem? — pergunto assim que ela pediu para nos sentarmos.

— Sim, sim... Tenho uma proposta para fazer para vocês! Podem tirar essa cara de velório. Não é nada ruim.

— A senhora falou tão séria, pensei que fosse. Do que se trata, Dona Winy? — Willian pergunta enquanto se arruma na cadeira.

— Vocês sabem, muitos clientes que eram atendidos pela Bailey nos deixaram. Como grande maioria não é tão regular, ainda faltam alguns para aparecer. Entre eles está John Pentrana, o maior comprador entre os que ainda restam.

— O que a senhora sugere que façamos? — pergunto.

— Não o percam! Como incentivo, aquele que conseguir fazer John permanecer como cliente ganhará um bônus de 15%, além da comissão habitual.

Olho para Will sem entender nada. Pelo que vejo em seus olhos ele também não entende.

— 15% não é um valor muito alto? Considerando que já temos nossa comissão de venda?

— Meus filhos, eu faria muitas coisas para evitar a falência.

— Ela enlouqueceu! — Sussurra Will em meu ouvido

— Como ela disse: “Muitas coisas para evitar a falência”.

Com um aceno de mão ela nos dispensa. Não sabíamos quando ele apareceria, no entanto, sabíamos que quando aparecesse, não poderíamos perdê-lo.

***

Estava atendendo Dona Lucena, alguns dias depois da inesperada reunião com Winy, quando uma criança entrou correndo pela galeria, esbarrando em alguns vasos, antes de entrar na primeira porta aberta que encontrou.

Peço licença a Dona Lucena e vou atrás do pequeno fujão. Estou procurando por ele no depósito, onde ele entrou. Não posso negar que ele é uma criança esperta, pois se escondeu muito bem. Ouço alguém gritando, suponho que seja o pai dele, o nome que ele chama é Mason, então, não penso duas vezes antes de tentar.

— Mason?

Escondido atrás de algumas caixas, ele me permite ver seu rosto, enquanto me olha assustado.

— Meu nome é Catrina, pode me chamar de Cat se quiser, está tudo bem com você?

Ele apenas concorda

— O que você acha de sair daí pra gente conversar melhor?

— Você tem medo do escuro, Cat?

— Não. E você?

Ele faz um gesto negativo com a cabeça antes de me dizer: — Senta aqui comigo, por favor.

Eu sorrio e me aproximo dele. Mason é pequeno, se meu chute não for muito ruim, acredito que ele tenha uns quatro anos apenas.

— Meu pai está lá fora, não está?

— Está sim... Por que você fugiu dele?

— Eu não queria vir pra cá. Eu queria ir brincar, mas toda vez é a mesma coisa, a gente só faz coisa chata quando está com o papai.

Algo no tom de voz de Mason me fez vê-lo como uma criança muito madura para sua idade. Parei e olhei para ele, ninguém diria que um menino (pelo qual eu poderia jurar ter apenas quatro anos) de olhos verdes e cabelos castanhos claros, pequeno com ele é, carregaria a maturidade de um menino bem maior, a julgar pela maneira como ele entrou aqui.

— Nós precisamos sair daqui, não acha?

— Eu tô com medo.

— Eu sei. Eu também fiz muita coisa feia quando tinha seu tamanho. Mas seu papai te ama e sempre vai fazer o melhor pra você, mesmo ele achando a melhor opção te trazer para uma galeria de arte. Além do mais, você é um garoto muito inteligente, precisa enfrentar seus medos. Jamais deixe o medo vencer você.

O pequeno segura minha mão e sorri. Um sorriso pequeno, nem mostra seus dentes direito, apesar disso, é suficiente para derreter meu coração. Saímos do depósito encarando um ao outro. É possível ouvir seu pai muito mal humorado falando com Will, contudo isso não abala a confiança de Mason, que segura firme minha mão.

***

— Quanto custa os vasos?

— Eles custam...

— Não se preocupe, eu pago. Cadê Bailey? Ela não virá me atender?

— Ela não trabalha mais conosco, senhor.

— Como assim? Ela é a minha vendedora!

Mason me olha assustado e aperta minha mão

— Vai ficar tudo bem. — Digo para ele e sorrio, enquanto com a outra mão eu cruzo os dedos torcendo para que fique mesmo.

— São informações sigilosas, senhor. — Diz Will apavorado, contudo tentando ser educado. Ele me olha e fica evidente. Ele não sabe como agir diante da explosão do rapaz.

— Com licença, senhor, aqui está Mason — falo calma e educada, ou pelo menos acredito ter sido assim.

O homem vira abruptamente. Enquanto segura firme um bebê em seu colo, ele me olha de cima a baixo, me analisando. Eu faço o mesmo, afinal não estou acostumada a ter uma beleza dessas na minha frente todos os dias. Ao contrário dele, faço o uso da discrição.

— Oi, filho. Vem aqui. — ele abaixa e chama o garoto, o recebendo com um abraço. Após abraçar o menino, volta seu olhar para mim e diz:

— Quem é você? Você entrou no lugar da Bailey?

— Ela é a Cat, papai. Ela me ensinou que temos que enfrentar nossos medos e que o senhor é meu papai e sempre vai estar comigo. — eu sorrio para o menino, o pai dele ainda sério mantém seu olhar em mim.

— Meu nome é Catrina, senhor. E, não. Eu já trabalho na galeria há muito tempo. — Eu sorrio, não sei qual será a reação deste homem, parece que ele não gostou muito de mim. Ele me encara, sustenta seu olhar avaliador por um tempo, até finalmente sorrir e, só então paro para analisar a obra de arte ambulante em minha frente. Imagino que ele tenha seus 1,80m de altura, é claramente um praticante de atividade física, seus belos músculos não diriam o contrário disso. Seu sorriso perfeito combina excessivamente com os olhos castanhos.

— Então, obrigado, Cat. Eu sou John Pentrana. Desculpe minha reação, meu filho é tudo pra mim.

— Não tem pelo que agradecer ou desculpar. Se me der licença, não quero atrapalhar. — Antes de me virar sinto sua mão sobre meu braço, seus dedos gelados sobre minha pele me causam arrepios.

— Eu gostaria que você me atendesse. — ele diz assim que eu volto minha atenção a ele — Se não for incômodo ao — ele olha para Will e lê o nome em seu crachá e sorri aparentemente sem graça. — Willian.

Eu olho para ele e para Will, não sei o que dizer. Will está segurando o riso, se não fosse pelo nosso cliente estaria rindo a vontade da minha cara.

— Imagina, senhor, não é incômodo nenhum. — Will me dá uma piscadela, e sussurra: — Você venceu.

Mason segura minha mão e me acompanha pela galeria enquanto apresento as obras para seu pai. Estamos no quarto quadro quando o bebê começa a ficar agitado, é claro que John é um bom pai, embora deva dizer, sem muita prática.

— Posso?

— Como? — Ele responde sem entender

— Posso pegar o bebê?

— Ah, sim — ele me entrega o bebê, que já está chorando.

— Vai ficar tudo bem, pode se acalmar — sussurrei no ouvido do bebê, enquanto o balançava. O olhar de John estava atento a mim, envergonhada sorri, e ele retribuiu. — Tem mamadeira com o senhor?

— Sim, me deixa pegar. — Em pouco tempo ele volta com uma bolsa nos braços e a mamadeira na mão. Eu dou a mamadeira para o pequeno, que mama tudo, arrota e logo adormece. John está me olhando fixamente. — Você tem um dom.

Eu sorrio com o comentário.

— Imagina, só acho que galerias de arte não são os favoritos dos bebês.

— Concordo, onde acha que devia levá-los? — Ele sorri provocativo.

— Bom, ele é pequeno para muitas coisas. Tem um lugar no centro que agradaria muito, tanto ele quanto Mason.

— Você me levaria lá?

— Como?

— Quero que você vá lá comigo. Para me mostrar.

— Eu não... — Antes que eu possa continuar, a senhora Winy, chega ao meu lado.

— Pode ir, querida, nós nos viramos por aqui e falta pouco pra acabar seu expediente.

Olho para John que ainda espera minha resposta. Não há muito o que responder, não podemos perder esse cliente, e mesmo que eu pensasse em negar, Winy praticamente me obrigou a dizer sim.

— Está bem. Vamos.

— Vamos! Só preciso fazer uma coisa... — ele acompanha Winy ao caixa, enquanto eu fico com o bebê nos braços o observando.

Entro no carro de John e o acompanho até o Imperial Park após explicar o endereço ao motorista. Passamos boa parte do caminho em silêncio, em alguns momentos percebi o olhar de John sobre mim. Depois da terceira vez, (terceira vez? Acho que é isso mesmo) eu decido quebrar o silêncio.

— Gostaria de me desculpar pelo meu comentário sobre trazer os meninos para galerias.

— Não tem por que se desculpar, você tem razão. Desde que minha esposa faleceu, eu tento separar pelo menos dois dias da semana para me dedicar a eles, às vezes é preciso levá-los a galerias, mesmo que eles não gostem muito disso. — ele sorri. Alguém poderia dizer a esse homem para não fazer isso na minha presença? Sério! O sorriso de John é fascinante. E perdoe-me por dizer, essa vibe viúvo bonitão... Nossa!

Por sorte meus pensamentos são interrompidos pelo motorista que avisa da nossa chegada.

— Vamos lá? — digo me recompondo.

— Vamos, Srta. Catrina, me apresente esse paraíso. — ele sorri. Penso comigo mesma, por favor, pare! Se continuar sorrindo assim, até o fim do dia estarei apaixonada.

Entramos no prédio e começo a apresentar tudo para ele.

— Então, como você pode ver, é um lugar bem espaçoso, à esquerda fica esse espaço reservado para bebês ou crianças dispostas a dormir.

— Oi, Cat. Qual o nome do anjinho? — a atendente pergunta.

— Noah — responde o pai orgulhoso.

Entregamos Noah para ela e seguimos para a sala do outro lado do vasto corredor.

— Essa parte aqui é a maior, eu costumo chamá-la de paraíso infantil.

— Posso entrar, pai? — Mason pergunta quando chegamos à porta. John me olha como se esperasse meu próximo passo. Procuro dentro da sala uma conhecida para mostrar tudo a Mason.

— Lexie? — a menina vem em minha direção — Oi, tudo bem? Esse é Mason. É a primeira vez dele aqui, poderia apresentar o lugar para ele?

Antes de responder ela olha de cima a baixo para John, que curiosamente parece não ter gostado muito disso.

— Claro — diz ela, antes de lançar uma piscadela para John.

— Você fará sucesso aqui. — digo.

— Se meus filhos forem bem cuidados, sem problemas. O que fazemos agora? Esperamos aqui?

— Ah! Eles serão! — Voltamos a andar, agora indo para o único local ainda não apresentado. — Aqui é o paraíso dos pais. Daqui é possível ter uma visão de ambos os ambientes, dependendo de onde você sentar a visão é melhor ainda. Daquele lado ficam os banheiros, — indico duas portas no canto esquerdo — e ali ficam as lanchonetes. Eles alugam esse espaço para eventos também, ou você pode apenas vir comemorar aqui com a família. É agitado, porém, pra quem não quer fazer uma baita festa e ainda assim divertir a todos é perfeito. —

— Estou me segurando para perguntar como você conhece esse lugar, sem parecer interessado demais.

Olho para ele desconfiada, então decido ignorar a parte do interesse, acho que ele queria dizer curioso demais.

— Eu venho aqui com meu sobrinho às vezes. Ele tem sete anos e adora esse lugar.

— Posso imaginar o porquê. Agradeço pela indicação. É um ótimo lugar para trazer os meninos, normalmente eles ficam com as babás, com meu trabalho é difícil me manter sempre próximo, desde que a mãe deles faleceu não sei bem o que fazer.

— Eu sinto muito. — Antes que eu possa continuar ele dispara.

— Não faça isso, não tenha dó de mim. Eu não sou o primeiro marido a perder a esposa no nascimento do seu filho.

Sem pensar coloco minha mão sobre a sua.

— Não estou com dó de você, é compaixão, algo totalmente diferente... E acho que você está fazendo um ótimo trabalho. Você está com seus filhos, você luta por eles. Você é um ótimo pai, Sr. Pentrana.

— Obrigado, por favor, me chame de John.

— John. — Ele sorri e eu o acompanho. Nesse momento percebo que ainda seguro sua mão, instantaneamente tiro minha mão de cima da sua, ele me analisa como se quisesse saber o que se passa na minha cabeça. Por sorte ele não lê mentes, pois olhando em seus olhos só consigo pensar na paz e na tormenta que eles me trazem.

Após quase duas horas divididas entre amenidades, olhar os meninos e apresentar as demais vantagens do espaço, decidimos ir embora. Voltamos para a galeria, visto que eu precisava pegar meu carro. Abri a porta para descer, antes que eu pudesse sair, John segurou minha mão.

— Só um minuto. Eu quero te fazer uma pergunta.

— Sim?

— Você aceitaria sair comigo e com as crianças de novo?

— Sim... — digo indecisa. — Me avise quando quiser minha companhia. Você sabe onde me encontrar. — Ele sorri e solta minha mão. Eu desço e o observo partir. Mesmo me repreendendo por isso, não consegui impedir que um sorriso aparecesse em meu rosto.

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