
A Traição Dele, a Fuga Dela de Dublin
Capítulo 2
Ponto de Vista: Fernanda Campos
Mais tarde naquela noite, eu estava fingindo dormir quando um par de braços familiares envolveu minha cintura por trás. O cheiro do perfume de Eduardo, geralmente um conforto, agora revirava meu estômago.
"Desculpa, tive um imprevisto de última hora no trabalho", ele sussurrou contra meu cabelo, sua voz um murmúrio baixo. "Você não esperou, né?"
Eu não respondi. Fiquei ali, rígida como uma tábua, cada músculo do meu corpo gritando.
Ele pareceu tomar meu silêncio como confirmação, e eu pude sentir o alívio na forma como seu corpo relaxou contra o meu. "Boa menina. Eu sabia que você não esperaria. Você odeia o calor."
Ele tentou me dar um beijo no pescoço, mas eu me encolhi e o empurrei, rolando para encará-lo na luz fraca. "Isso mesmo, eu não esperei. Feliz agora?"
Seus olhos se arregalaram, atordoados pelo meu tom ríspido. Por um momento, ele apenas me encarou, a boca ligeiramente aberta. "Fernanda, qual é o seu problema?"
"Meu problema?", uma risada amarga escapou dos meus lábios. "Você me deu bolo noventa e nove vezes pela Bia desde que ela começou, há seis meses. Noventa e nove vezes eu inventei desculpas para você. Eu dizia a mim mesma que você estava ocupado. Eu dizia a você que não esperei para que você não se sentisse culpado. E você simplesmente tomou isso como garantido."
Nesse exato momento, o celular dele, sobre a mesa de cabeceira entre nós, vibrou. A tela se iluminou com uma notificação.
Bia: Boa noite, Dudu. Bons sonhos. <3
Ele pegou o celular, seus movimentos bruscos, e rapidamente o silenciou, virando a tela para baixo. "É só uma coisa de colega de trabalho", ele mentiu, e ele era péssimo nisso. Seus olhos não encontravam os meus.
Ele tentou mudar de assunto, para amenizar a rachadura que acabara de se abrir entre nós. "Temos a festa de despedida da empresa amanhã. Vamos só dormir um pouco."
Ele me alcançou novamente, tentando me puxar para um abraço, mas eu me afastei, movendo-me para a beirada da cama. Seu rosto endureceu. Com um suspiro frustrado, ele se levantou e saiu do quarto, batendo a porta do quarto de hóspedes atrás de si.
O dia seguinte na festa pareceu um pesadelo acordado. Deveria ser uma celebração do nosso próximo capítulo, mas em vez disso, foi a cena final e feia do nosso fim. Bia estava agarrada ao braço de Eduardo, seus dedos entrelaçados nos dele, parecendo em tudo a vitoriosa triunfante.
Quando ela me viu aproximar, fingiu um pânico teatral, seus olhos arregalados. "Fernanda! Não entenda mal. O Dudu só ficou com pena de mim, já que não conheço ninguém aqui, então ele se ofereceu para ser meu par."
Encarei seu olhar, minha própria expressão fria como gelo. "E daí? Não crie drama onde não existe."
Como se fosse um sinal, os olhos de Bia se encheram de lágrimas. Seu lábio inferior tremeu. Era uma performance que ela havia aperfeiçoado nos últimos seis meses.
Eduardo imediatamente se virou para mim, seus dedos apertando meu pulso como um torno. "Fernanda! Já chega? A Bia é minha estagiária. Eu a convidei. Conversamos sobre isso em casa. Agora, peça desculpas para a Bia!"
Eu ri. Um som cru e sem humor que fez as pessoas próximas se virarem. Puxei meu braço de seu aperto, a sensação ardente em minha pele um eco surdo da dor em meu peito. "E se eu disser não?"
Seis meses. Bia estava aqui há seis meses, e ele havia brigado comigo mais nesse tempo do que nos nove anos e meio anteriores combinados. Tudo o que ela precisava fazer era parecer triste, e eu automaticamente me tornava a vilã.
Virei-me e saí furiosa do salão de festas, meu coração doendo com uma batida familiar e nauseante. Esta não era a primeira vez. Lembrei-me do dia em que cheguei em casa e encontrei Bia em nosso quarto, um colar que Eduardo me dera de aniversário preso em seu pescoço. Ele nem me deixou explicar antes de gritar comigo por "deixá-la desconfortável".
Quando voltei para o apartamento, ele já estava lá, andando de um lado para o outro na sala. Seu rosto era uma máscara trovejante de impaciência.
"Fernanda, você pode parar de ter ciúmes por nada? É exaustivo", ele disse, no momento em que fechei a porta.
"Você está certo", eu disse, minha voz plana e desprovida de toda emoção. "É exaustivo." Olhei-o diretamente nos olhos. "Vamos terminar com isso. É melhor para todo mundo."
Ele me encarou, sua mandíbula trabalhando em silêncio. Eu esperava que ele discutisse, gritasse, tentasse me manipular novamente. Em vez disso, ele apenas assentiu lentamente, um olhar sombrio em seus olhos.
"Tudo bem. Vamos dar um tempo." Ele deu um passo mais perto, inclinando-se para que sua voz fosse um sussurro baixo e ameaçador. "Mas me escute, Fernanda. Aquele formulário de transferência ainda pode ser editado até a meia-noite de hoje."
Ele sorriu, aquele velho sorriso confiante que eu costumava achar tão charmoso. "Olhe meu perfil no LinkedIn com atenção, Fernanda. Não preencha errado."
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