
A Traição Dele, a Fuga Dela de Dublin
Capítulo 3
Ponto de Vista: Fernanda Campos
Eu bufei por dentro. Ele era tão arrogante, tão absolutamente convencido de seu próprio poder sobre mim, que nem sequer dizia as palavras em voz alta. "Olhe meu LinkedIn." Ele realmente achava que eu veria seu post público sobre a transferência para São Paulo e imediatamente correria para mudar meus próprios planos, como um cão bem treinado.
Eu o empurrei, o contato com seu peito fazendo minha pele arrepiar. "Saia da minha frente."
Tranquei-me no meu quarto. Na minha mesa havia uma caixa fechada. Dentro, um mouse gamer personalizado, um modelo de ponta que eu havia comprado para mim. Lembrei-me de encomendá-lo, um nó de ansiedade no estômago, preocupada em ficar muito sozinha em um novo estado sem ele. Agora, olhando para a embalagem elegante, tudo o que eu sentia era um estranho e vazio alívio.
Na manhã seguinte, fiz as malas. Não demorou muito. Minhas malas estavam surpreendentemente leves. Todas as bolsas caras, as joias, as roupas de grife que ele me comprou ao longo dos anos — deixei tudo para trás. Não eram presentes; eram correntes douradas, e eu finalmente estava me libertando delas.
Quando estava prestes a fechar a última mala, uma onda de pânico me invadiu. Vasculhei o quarto, meus olhos dardejando freneticamente. Tinha sumido.
O HD do meu pai.
Não era apenas uma peça de hardware. Era o trabalho de sua vida. O código-fonte original e inestimável do revolucionário motor de jogo que ele desenvolveu, aquele pelo qual nunca foi creditado. Era meu bem mais importante, a própria razão pela qual eu estava indo para Florianópolis.
Eu o guardava em um pequeno cofre escondido no meu armário. E apenas uma outra pessoa sabia a combinação.
Eduardo.
Uma sensação nauseante se formou em meu estômago. Peguei meu celular e disquei o número dele. Tocou duas vezes e foi direto para a caixa postal. Ele havia recusado a chamada.
Nesse momento, meu celular vibrou com uma mensagem da minha melhor amiga, Clara. Era uma foto do Instagram, postada minutos atrás. Eduardo, em um bar no centro, uma garrafa de uísque pela metade na mesa à sua frente, seus olhos vidrados.
Nem me dei ao trabalho de chamar um táxi. Eu corri.
Quando entrei de rompante no bar mal iluminado, ele estava sozinho, largado em um sofá de couro em um camarote privado.
"Fernanda?", ele arrastou as palavras, um sorriso bêbado se espalhando por seu rosto ao me ver.
Eu o ignorei. Peguei sua pasta do chão, despejei seu conteúdo na mesa e comecei a vasculhar os papéis. Nada. Fui até ele, apalpando seus bolsos, minhas mãos tremendo com uma mistura de fúria e desespero.
Enquanto o revistava, suas mãos dispararam, agarrando minha cintura e me puxando para seu colo. Uma risada baixa e rouca vibrou em seu peito. "Tá com pressa, é?"
O cheiro de uísque velho e seu perfume enjoativo me deram vontade de vomitar. "Me dê o HD, Eduardo."
Ele ignorou meu pedido, seus dedos traçando padrões nas minhas costas. "Para de ser tão bravinha, Fê. É só voltar pro quarto hoje à noite, e eu te devolvo de manhã."
Meu sangue gelou. Aquele código era tudo. Era o legado do meu pai. Uma exposição histórica "Mulheres nos Games" em Florianópolis estava esperando pela minha submissão, pronta para finalmente dar ao meu pai o crédito que ele merecia depois de todos esses anos.
O prazo de submissão era hoje. Meia-noite.
"Me devolva!", eu disse, minha voz fria como aço. Levantei a mão para dar um tapa naquele rosto presunçoso.
Ele segurou meu pulso com uma força surpreendente. "Calma, calma. Que tal uma troca?" Ele se inclinou, seu hálito quente e alcoólico soprando em mim. "Assim que nos estabelecermos em São Paulo, ficamos noivos. Você sempre quis morar numa cidade divertida como essa, não é?"
A hipocrisia era nauseante. Olhei para a hora no meu celular. 23:15.
"Nós terminamos", eu disse entredentes, lutando contra seu aperto. "Me dê o código. Agora. Eu preciso dele para a minha transferência!"
Ele apenas sorriu e deixou a cabeça pender para o lado, fingindo adormecer. "Shhh. Muito barulho, amor."
O desespero me arranhou. Acenei freneticamente para um garçom, pedindo um bule do café preto mais forte que tivessem. Forcei o líquido amargo por sua garganta, mas ele permaneceu mole, um sorriso irritantemente pacífico no rosto. "Qual a pressa, amor? Estou tão cansado. Vamos só tirar uma soneca aqui mesmo."
O pânico era algo físico, subindo pela minha garganta. "Eduardo, isso não é brincadeira! É o legado inteiro do meu pai!"
Meu celular apitou. Um e-mail dos organizadores da exposição. *Lembrete Amigável: As submissões se encerram em 30 minutos.*
Eu implorei. Eu supliquei. Eu até engasguei um acordo com seus termos distorcidos, as palavras com gosto de cinzas na minha boca. "Ok. Ok, São Paulo. Apenas me dê."
Ele apenas continuou sorrindo, seus olhos fechados.
O relógio no meu celular passou da meia-noite. 00:00.
Uma notificação final de e-mail apareceu na minha tela.
[Lamentamos informar que sua submissão não foi recebida dentro do prazo.]
No mesmo exato momento, uma mensagem iluminou o celular de Eduardo, que estava virado para cima na mesa. Era da Bia.
[Dudu, funcionou! A equipe de São Paulo amou o algoritmo! Graças ao código que você me deu, eles já me aprovaram para o cargo de desenvolvedora líder no novo projeto. Mal posso esperar para continuar trabalhando com você!]
Eu encarei a tela. Minhas unhas cravaram nas minhas palmas, tirando sangue.
Eles ousaram. Eles roubaram o trabalho do meu pai, sua alma, para a carreira dela.
Eu não gritei. Eu não chorei. Uma calma fria e aterrorizante tomou conta de mim enquanto eu saía correndo do bar para a noite.
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