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A TENTAÇÃO DO CEO

Arthur Kamau ergueu um império gastronômico no Rio de Janeiro sob rígida disciplina, ocultando uma paixão antiga por Natália Rocha. Ela, agora uma assessora determinada e mãe solo, carrega marcas de um passado difícil. O reencontro reacende sentimentos sufocados, mas a lealdade de Arthur a Bernardo Rocha, seu melhor amigo e irmão de Natália, torna esse amor proibido. Entre segredos e deveres, eles lutam contra uma atração que desafia a razão e as aparências.
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Capítulo 2

Nathalia

Meses depois…

— Bom dia, meu amor!

Cantarolo ao entrar no quarto do meu filho e, como sempre, abro as cortinas para a luz do dia invadir o cômodo. Lucas se espreguiça na cama e abre o primeiro sorriso matinal, que mexe com o meu coração de mãe.

Retribuo o seu sorriso.

— Bora acordar, garotão?

— Mamãe!

E lá está a empolgação que tanto amo. Não seguro mais o sorriso quando ele abre os braços para mim, e não meço distância para me aproximar dele. Contudo, não o abraço, porque ele não suporta toques. Lucas tem TEA — Transtorno do Espectro Autista, nível três. Ele é uma criança que precisa de rotina severa, de previsibilidade e de poucos vínculos. O mundo dele é pequeno. Seguro. E eu faço parte dele.

— Bom dia, querido!

Abraços, nem pensar. Mas ele ama encostar sua testa na minha, e isso é o bastante para mim.

— Hora do banho, garotão. — Faço um som divertido, porém contido.

— Banho. Banho.

— Isso, banho.

Excesso de carinho o desorganiza, então um beijo calmo em sua bochecha o tranquiliza. Confesso que não teria sido fácil sem o apoio da minha família. Bernardo, meu irmão mais velho, é meu braço direito, e o Lucas é completamente apaixonado por ele. Ah, e falando em rotina… banho, café da manhã, escola, psicólogo, fonoaudiólogo, terapia, fisioterapia, e jogos de blocos. Este último ajuda o Lucas a se conectar com o mundo.

— Pronto, você ficou lindo!

— Não quero ir para a escola — reclama, como sempre.

Contudo, levo meu indicador embaixo do seu queixo e o faço olhar para mim. Lucas luta contra o meu olhar.

— Olhe para mim, Lucas — peço. — Olhe aqui nos meus olhos — insisto. E ele o faz, mesmo contra a sua vontade. — Você precisa ir à escola.

— Não quero.

— Mas a Maia vai estar lá. E ela gosta muito de você.

— Maia.

— Isso.

— Eu gosto da Maia.

Sorrio.

— Sim, você gosta da Maia. E precisa ir para a escola. Precisa cuidar dela, certo? — insisto.

— Certo.

— Ótimo. Que tal um café da manhã?

— Cereais.

— Hum, eu gosto de cereais.

— Eu também gosto.

Estendo a minha mão para ele e logo saímos do quarto.

— Bom dia, querida! — diz Renata ao entrarmos na cozinha.

Renata Lisboa é psicopedagoga e é a pessoa em quem mais confio nesse mundo para cuidar do Lucas na minha ausência. É ela quem transforma as tardes do Lucas em pequenas missões de descoberta — jogos de memória, histórias coloridas e exercícios que ajudam meu filho a entender um mundo que, muitas vezes, parece alto demais para ele. Ela me ajuda a organizar as rotinas dele, trabalha as habilidades sociais, dá apoio no processo escolar e, nas horas vagas, é minha melhor amiga e confidente.

— Bom dia, Re!

— E bom dia para você, garotão!

— Bom dia! — Lucas responde, acomodando-se no seu lugar à mesa. — Cereais — diz, após se sentar na cadeira.

— Coloridos. — ela completa, levemente animada. Afinal, entusiasmo demais o deixa aturdido.

— Coloridos — Lucas repete, como se experimentasse a palavra.

— Seu café da manhã, Nati. — Bia, uma das poucas empregadas que mantenho em casa, diz, colocando na mesa uma xícara de café com bastante leite e caramelo.

— Obrigada, Bia! — falo, bebericando um pouco do café e, após me acomodar à mesa, pego apenas uma fatia de queijo branco.

— Dia cheio hoje? — Renata pergunta, sentando-se ao lado de Lucas.

— Um pouco.

— Não esqueça que você tem uma reunião com a professora do Lucas hoje.

— Coloquei um lembrete para não me esquecer.

— Sua sessão com a doutora Júlia está marcada para o final desta tarde.

— Tudo bem. Estarei lá.

Observo enquanto ela cuidadosamente ajuda meu filho a limpar o canto da boca e, após um diálogo rápido, o convence a ir com ela para a escola. E, quando ponho os pés para fora de casa, me transformo na pessoa que assume o controle quando o assunto são os eventos da Rocha & Partners — o mais conceituado e respeitado escritório de advocacia do estado do Rio de Janeiro, e também o escritório da minha família, onde meu irmão é o CEO, meu pai o vice-presidente e eu cuido das relações públicas. É aqui que me desligo do meu universo e projeto todos os meus fracassos do amor.

Amor. Nem sei por que ainda uso essa palavra no meu vocabulário.

— Ok, organizem as possíveis perguntas para a entrevista com o Dr. Bernardo — falo, levemente autoritária para a minha equipe. — Nada deverá sair do roteiro. O Bernardo precisa fazer esse escritório brilhar.

— Certo, Nati.

— Amanda, como estão os preparativos no auditório?

— As credenciais já foram distribuídas. Apenas repórteres autorizados poderão entrar. Organizamos as cadeiras em fileiras, assim fica mais fácil a visibilidade.

— Perfeito. Certifique-se do tempo. Bernardo tem uma audiência em duas horas.

— Pode deixar.

Apenas meneio a cabeça.

Preciso de outra xícara de café. Esse puro, forte e sem açúcar. Penso, e olho ao meu redor. Ver todo mundo empenhado me traz um ar de satisfação, e decido ir até a copa antes que a onda de flashes chegue a esta empresa.

— Bom dia, Marta! — digo, um tanto animada, para a copeira que está de costas para mim, organizando a pia.

— Bom dia, querida. E como está o pequeno Lucas?

É impossível não sorrir para essa pergunta.

— Uma gracinha. Precisa ver como ele está esperto.

— Eu trouxe algo para ele. É o meu presente de aniversário atrasado.

— Oh! — exclamo quando ela seca as mãos e vai até a sua bolsa.

— É um dinossauro. É um presente simples, mas dado com muito amor.

— Não tenho dúvidas disso, Marta. E eu sei que ele vai adorar.

Olho as horas.

— Ah, droga, eu preciso ir.

— Uma correria, não é?

— Você não faz ideia — retruco. Seguro a minha xícara de café e caminho apressada para a saída.

Contudo, paro bruscamente bem no meio do corredor quando percebo uma conhecida algazarra no final dele. Meu coração dispara ao vê-lo. Está tão bonito e atraente quanto eu me lembrava. Arthur Kamau ainda tem aquele sorriso adolescente que mexe comigo. O jeito como fala com meu irmão. Como gesticula com as mãos. Ele ainda faz o meu coração bater errado.

E isso é tão injusto!

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