
A TENTAÇÃO DO CEO
Capítulo 2
Nathalia
Meses depois…
— Bom dia, meu amor!
Cantarolo ao entrar no quarto do meu filho e, como sempre, abro as cortinas para a luz do dia invadir o cômodo. Lucas se espreguiça na cama e abre o primeiro sorriso matinal, que mexe com o meu coração de mãe.
Retribuo o seu sorriso.
— Bora acordar, garotão?
— Mamãe!
E lá está a empolgação que tanto amo. Não seguro mais o sorriso quando ele abre os braços para mim, e não meço distância para me aproximar dele. Contudo, não o abraço, porque ele não suporta toques. Lucas tem TEA — Transtorno do Espectro Autista, nível três. Ele é uma criança que precisa de rotina severa, de previsibilidade e de poucos vínculos. O mundo dele é pequeno. Seguro. E eu faço parte dele.
— Bom dia, querido!
Abraços, nem pensar. Mas ele ama encostar sua testa na minha, e isso é o bastante para mim.
— Hora do banho, garotão. — Faço um som divertido, porém contido.
— Banho. Banho.
— Isso, banho.
Excesso de carinho o desorganiza, então um beijo calmo em sua bochecha o tranquiliza. Confesso que não teria sido fácil sem o apoio da minha família. Bernardo, meu irmão mais velho, é meu braço direito, e o Lucas é completamente apaixonado por ele. Ah, e falando em rotina… banho, café da manhã, escola, psicólogo, fonoaudiólogo, terapia, fisioterapia, e jogos de blocos. Este último ajuda o Lucas a se conectar com o mundo.
— Pronto, você ficou lindo!
— Não quero ir para a escola — reclama, como sempre.
Contudo, levo meu indicador embaixo do seu queixo e o faço olhar para mim. Lucas luta contra o meu olhar.
— Olhe para mim, Lucas — peço. — Olhe aqui nos meus olhos — insisto. E ele o faz, mesmo contra a sua vontade. — Você precisa ir à escola.
— Não quero.
— Mas a Maia vai estar lá. E ela gosta muito de você.
— Maia.
— Isso.
— Eu gosto da Maia.
Sorrio.
— Sim, você gosta da Maia. E precisa ir para a escola. Precisa cuidar dela, certo? — insisto.
— Certo.
— Ótimo. Que tal um café da manhã?
— Cereais.
— Hum, eu gosto de cereais.
— Eu também gosto.
Estendo a minha mão para ele e logo saímos do quarto.
— Bom dia, querida! — diz Renata ao entrarmos na cozinha.
Renata Lisboa é psicopedagoga e é a pessoa em quem mais confio nesse mundo para cuidar do Lucas na minha ausência. É ela quem transforma as tardes do Lucas em pequenas missões de descoberta — jogos de memória, histórias coloridas e exercícios que ajudam meu filho a entender um mundo que, muitas vezes, parece alto demais para ele. Ela me ajuda a organizar as rotinas dele, trabalha as habilidades sociais, dá apoio no processo escolar e, nas horas vagas, é minha melhor amiga e confidente.
— Bom dia, Re!
— E bom dia para você, garotão!
— Bom dia! — Lucas responde, acomodando-se no seu lugar à mesa. — Cereais — diz, após se sentar na cadeira.
— Coloridos. — ela completa, levemente animada. Afinal, entusiasmo demais o deixa aturdido.
— Coloridos — Lucas repete, como se experimentasse a palavra.
— Seu café da manhã, Nati. — Bia, uma das poucas empregadas que mantenho em casa, diz, colocando na mesa uma xícara de café com bastante leite e caramelo.
— Obrigada, Bia! — falo, bebericando um pouco do café e, após me acomodar à mesa, pego apenas uma fatia de queijo branco.
— Dia cheio hoje? — Renata pergunta, sentando-se ao lado de Lucas.
— Um pouco.
— Não esqueça que você tem uma reunião com a professora do Lucas hoje.
— Coloquei um lembrete para não me esquecer.
— Sua sessão com a doutora Júlia está marcada para o final desta tarde.
— Tudo bem. Estarei lá.
Observo enquanto ela cuidadosamente ajuda meu filho a limpar o canto da boca e, após um diálogo rápido, o convence a ir com ela para a escola. E, quando ponho os pés para fora de casa, me transformo na pessoa que assume o controle quando o assunto são os eventos da Rocha & Partners — o mais conceituado e respeitado escritório de advocacia do estado do Rio de Janeiro, e também o escritório da minha família, onde meu irmão é o CEO, meu pai o vice-presidente e eu cuido das relações públicas. É aqui que me desligo do meu universo e projeto todos os meus fracassos do amor.
Amor. Nem sei por que ainda uso essa palavra no meu vocabulário.
— Ok, organizem as possíveis perguntas para a entrevista com o Dr. Bernardo — falo, levemente autoritária para a minha equipe. — Nada deverá sair do roteiro. O Bernardo precisa fazer esse escritório brilhar.
— Certo, Nati.
— Amanda, como estão os preparativos no auditório?
— As credenciais já foram distribuídas. Apenas repórteres autorizados poderão entrar. Organizamos as cadeiras em fileiras, assim fica mais fácil a visibilidade.
— Perfeito. Certifique-se do tempo. Bernardo tem uma audiência em duas horas.
— Pode deixar.
Apenas meneio a cabeça.
Preciso de outra xícara de café. Esse puro, forte e sem açúcar. Penso, e olho ao meu redor. Ver todo mundo empenhado me traz um ar de satisfação, e decido ir até a copa antes que a onda de flashes chegue a esta empresa.
— Bom dia, Marta! — digo, um tanto animada, para a copeira que está de costas para mim, organizando a pia.
— Bom dia, querida. E como está o pequeno Lucas?
É impossível não sorrir para essa pergunta.
— Uma gracinha. Precisa ver como ele está esperto.
— Eu trouxe algo para ele. É o meu presente de aniversário atrasado.
— Oh! — exclamo quando ela seca as mãos e vai até a sua bolsa.
— É um dinossauro. É um presente simples, mas dado com muito amor.
— Não tenho dúvidas disso, Marta. E eu sei que ele vai adorar.
Olho as horas.
— Ah, droga, eu preciso ir.
— Uma correria, não é?
— Você não faz ideia — retruco. Seguro a minha xícara de café e caminho apressada para a saída.
Contudo, paro bruscamente bem no meio do corredor quando percebo uma conhecida algazarra no final dele. Meu coração dispara ao vê-lo. Está tão bonito e atraente quanto eu me lembrava. Arthur Kamau ainda tem aquele sorriso adolescente que mexe comigo. O jeito como fala com meu irmão. Como gesticula com as mãos. Ele ainda faz o meu coração bater errado.
E isso é tão injusto!
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