
A TENTAÇÃO DO CEO
Capítulo 3
Nathalia
- Tudo bem com você? - Fernando, um dos advogados da empresa, pergunta. Percebo a preocupação em suas retinas. Desvio os olhos de cima do homem extremamente alto e de pele negra, e respiro fundo, me recompondo no mesmo instante.
- Está tudo bem - falo com uma naturalidade inconfundível. - Por que não estaria?
Sorrio de modo profissional.
- É que... você parece meio... perdida. Sei lá. Algo te incomoda?
- Meu nome é Nathalia Rocha. Não há nada nesse mundo que me incomode - garanto.
- Imaginei que não. - Ele rebate sem graça.
- Se me der licença, eu preciso ir trabalhar.
- Senhorita Rocha! - Fernando me abre passagem e, respirando fundo de modo sutil, caminhando direto para o meu setor. Algumas horas de entrevista comercial no auditório da R.P devem me ajudar a organizar as ideias, e pôr tudo no seu devido lugar.
É só o Arthur, Nati. Digo para mim mesma. O melhor amigo do seu irmão. O cara que nunca te deu bola na vida, e que você fez questão de esquecer, lembra?
É isso. Está esquecido. E bem longe dos meus pensamentos.
***
Algumas horas depois da entrevista...
- Mandou me chamar? - pergunto, adentrando o escritório da presidência, e encontro meu irmão atrás de sua mesa. Sem esperar, puxo uma cadeira e me sento de frente para ele.
- Sim. Quero saber como estão os preparativos para o jantar beneficente? - inquire com seu tom sério. Profissional. Sem demora, abro minha planilha e verifico algumas anotações.
- Deixe-me ver. Quantidade de pessoas, bebidas, pratos, taças, copos, talheres... está tudo aqui. - Abaixo o tablet para encará-lo. - Só falta escolher o local para o evento. Estive pensando no Palácio dos Leões. É um lugar magnífico e tem um jardim de tirar o fôlego. O que você acha?
- Na verdade, andei conversando com o Arthur mais cedo.
A simples menção desse nome me faz ajeitar a postura na cadeira.
- Conversou, é? Sobre o que conversaram?
- Sabia que ele vai inaugurar outra filial aqui no Rio? Bem na orla carioca?
Meu irmão sorri maravilhado, alheio às perturbações que estão acontecendo dentro de mim. Contudo, mantenho um tom firme e profissional ao respondê-lo.
- Eu não sabia. - Tão seca e tão fria como jamais fui.
A verdade é que deixei de me importar com os passos do senhor Kamau faz muito tempo. O que ele faz, o que fala ou pensa não é da minha conta. Pelo menos não deveria ser.
- Que legal!
Forço outro sorriso profissional.
- Legal? - Bernardo parece indignado com o meu descaso. - Nati, isso é perfeito!
Perfeito para quê?
Oh, Deus, espero que ele não!
- O Arthur cedeu o espaço do novo restaurante para o evento da Rocha & Partners. - Meus ombros simplesmente se enrijecem e eu seguro um xingamento. - Nati, teremos um salão amplo, sofisticado, climatizado, e ele tem uma equipe grande que poderá nos servir. Não teremos nada com que nos preocupar. E você não vai precisar trabalhar tanto.
Devo admitir, Arthur Kamau sempre foi um visionário.
Quer dizer, ele comprou um restaurante falido do tipo que ninguém daria nada por ele e o transformou em uma rede de restaurantes greco-italianos de sucesso em poucos anos, espalhada por todo o Brasil. Entretanto, decidiu administrar todo o seu império gastronômico bem aqui, no Rio de Janeiro, bem do meu lado.
Tão próximo de mim. Bem debaixo do meu nariz. Exceto pelas viagens esporádicas que precisa fazer anualmente.
Droga, isso só pode ser brincadeira do destino! Arthur e eu trabalhando juntos será o meu inferno aqui na terra.
- Marque uma reunião com ele, Nathalia. - Desperto quando Bernardo fala. - Ele vai te ajudar a decidir o melhor cardápio para uma noite tão especial para os nossos convidados.
Ergo os olhos para o meu irmão, mas confesso que a sua voz parece distante agora.
- É claro. - Continuo impondo firmeza na minha voz. - Eu vou ligar para ele agora mesmo.
Esse é o meu lado profissional falando. Mas o meu lado mulher está se desmanchando por dentro. Algo que não deveria acontecer. Quer dizer, construí as minhas muralhas ao longo desses anos. Vesti uma armadura incapaz de ser arranhada, e de repente me sinto nua. Completamente despida, deixando meus sentimentos à mercê de qualquer um.
Respiro fundo.
Fique calma, Nathalia. Não será nada demais. Será apenas mais uma reunião de negócios que você vai tirar de letra, como sempre faz.
Ah, a quem eu quero enganar?!
- Faça isso, Nati. - Bernardo confere as horas no seu relógio de pulso. - Eu tenho que ir. - Ele beija rapidamente a minha testa e sai apressado do escritório.
Olho para o meu celular. Meus dedos chegam a tropeçar uns nos outros. Contudo, aperto o botão de ligar quando encontro o contato na minha agenda.
- Restaurante Vino & Thalassa, em que posso ajudar? - Uma voz feminina diz do outro lado da linha.
- Ah, bom dia. Meu nome é Nathalia Rocha. Eu gostaria de marcar uma reunião com o senhor Kamau.
- Só um momento. Vou verificar a agenda dele.
Pressiono os lábios.
- O senhor Kamau está livre esta noite. Posso agendar?
À noite? Quem em sã consciência trabalha à noite?
- Ah, à noite eu não posso.
- E que tal na próxima sexta, na marina, às sete da manhã?
Ela está de brincadeira comigo?
- Me desculpe, mas será uma reunião rápida. Não há um horário comercial disponível?
- O senhor Kamau é um homem muito ocupado. Mas posso verificar diretamente com ele.
- Sim, por favor!
O silêncio toma conta da linha.
- Senhorita Rocha? - A atendente me chama segundos depois.
- Sim?
- O senhor Kamau irá recebê-la agora.
Encolho os olhos.
- Você disse... agora?
- Sim. Na verdade, ele está dando instruções na cozinha, mas disse que a atenderia agora.
Prendo o ar por alguns milésimos de segundo e o solto pela boca.
- Ok, chego em dez minutos.
Encerro a ligação.
Não é como se ele fosse te ver de verdade, não é? Arthur Kamau nunca me percebeu antes. Não há com o que se preocupar. Tento me convencer disso, vou imediatamente para a minha sala, pego a minha bolsa e saio da empresa logo em seguida.
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