
A Pegadinha Que a Destruiu
Capítulo 2
A voz do Professor Almeida foi uma âncora firme na tempestade que se formava dentro de mim. "Claro, Alice. Vamos fazer acontecer. Apenas me diga do que você precisa."
"Obrigada", sussurrei. Senti uma pontada de culpa por preocupá-lo, mas o desespero era um peso físico no meu peito.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, a tela do meu celular piscou e apagou. Sem bateria. Claro.
O caminho de volta para o apartamento que eu dividia com Caio foi um borrão. Meu corpo se movia no piloto automático, me carregando pelas ruas da cidade como um fantasma.
Quando finalmente cheguei à porta, vi que as luzes estavam fracas lá dentro. Empurrei a porta, uma centelha de esperança irracional piscando no meu peito. Talvez ele tivesse voltado mais cedo. Talvez estivesse me esperando.
Mas o apartamento estava vazio. O silêncio era pesado, preenchido pelos fantasmas da nossa vida compartilhada. O cheiro do perfume dele pairava no ar, um aroma que antes me trazia conforto, mas que agora fazia meu estômago se contrair.
Desabei no sofá, o esgotamento me atingindo de uma vez. Cada músculo do meu corpo doía. Encolhi-me em uma bola, as almofadas macias não oferecendo nenhum conforto.
Lágrimas que eu não sabia que ainda tinha começaram a cair, silenciosas e quentes, encharcando o tecido sob minha bochecha.
No caminho para casa, um grupo de homens me assediou em uma rua escura. Seus rostos maliciosos e palavras grosseiras me causaram um terror familiar. Naquele momento, eu desejei por Caio. Eu ansiava pela falsa sensação de segurança que ele proporcionava. A ironia era um comprimido amargo de engolir.
O sono finalmente me venceu, um vazio negro e sem sonhos.
Acordei com uma dor aguda e cortante na perna.
Meus olhos se abriram de repente. A luz da sala estava acesa, ofuscante. Pisquei, tentando entender a cena.
Kaila Monteiro estava ajoelhada ao meu lado, uma pinça na mão, cavando um corte na minha canela.
"O que você está fazendo?", ofeguei, tentando puxar minha perna.
Ela olhou para cima, sua expressão de pura inocência. "Estou te ajudando, boba. Você estava sangrando."
Ela ergueu a pinça, um pequeno pedaço de cascalho preso nas pontas. "Você deve ter se arranhado. Só estou limpando o ferimento."
Meu olhar caiu sobre minha perna. O corte era profundo, muito pior que um simples arranhão. E o que ela estava fazendo... não era limpar. Era desajeitado, quase malicioso. Eu cursava medicina. Eu sabia que não era assim que se tratava um ferimento.
"Pare", eu disse, minha voz ríspida. "Fique longe de mim."
Recuei no sofá, colocando o máximo de distância possível entre nós. A visão dela, tão perto, me tocando, fazia minha pele arrepiar. Tudo o que eu conseguia ver eram seus olhos risonhos das minhas lembranças da festa.
Seu rosto se contorceu de raiva. "Tudo bem! Seja assim. Eu só estava tentando ajudar. O Caio tem razão, você ficou tão insuportável ultimamente."
Nesse momento, a porta da frente se abriu e Caio entrou. Ele viu o rosto emburrado de Kaila primeiro.
"O que foi, Kai?", ele perguntou, sua voz suave e calmante.
Ele se aproximou e colocou o braço ao redor dela, me ignorando completamente.
Então seus olhos caíram sobre mim, encolhida na outra ponta do sofá. Ele notou meu rosto pálido, as marcas de lágrimas em minhas bochechas.
Sua expressão mudou para uma de preocupação fingida. "Alice, meu amor, você está machucada."
Ele se moveu em minha direção, sua mão estendida. "Deixa eu ver. Dói? Vem, deixa eu te abraçar."
A visão de seu olhar carinhoso, o mesmo pelo qual eu me apaixonei, agora fazia meu estômago revirar. Eu me encolhi ao seu toque, virando a cabeça para não ter que olhá-lo.
"Não precisa de pontos", eu disse, minha voz fria e sem emoção. "Só precisa ser limpo e enfaixado."
Caio pareceu surpreso com meu tom. "A Kaila só estava tentando ajudar, Alice. Ela estava preocupada com você."
Ele queria que eu agradecesse a ela. Agradecer à garota que orquestrou meu ataque. O pensamento era tão absurdo que era quase engraçado.
Eu não respondi. Apenas encarei a parede, meu maxilar cerrado.
Ignorando a dor latejante, estendi a mão e arranquei o pedaço de cascalho do meu próprio ferimento com os dedos. Sangue fresco brotou, pingando no carpete branco imaculado.
Levantei-me e caminhei em direção ao meu quarto sem dizer uma palavra.
"Viu?", ouvi Kaila choramingar atrás de mim. "Ela é impossível."
"Tudo bem", a voz de Caio era um murmúrio baixo. "Ela só está chateada. Eu vou falar com ela."
Abri a porta do meu quarto e parei abruptamente.
O quarto estava diferente. Minhas coisas tinham sumido, substituídas pelas roupas de grife e maquiagem de Kaila espalhadas pela cômoda.
Caio apareceu atrás de mim. "Ah, é mesmo. A Kaila vai ficar com a gente por um tempo, então eu dei o seu quarto para ela. Você pode ficar no quarto de hóspedes por enquanto."
Ele disse isso tão casualmente, como se estivesse falando do tempo. Ele tinha dado o meu quarto, o nosso quarto, para ela.
Kaila espiou por trás dele, um sorriso triunfante no rosto.
"Você não se importa, não é, Alice?", ela perguntou, sua voz escorrendo uma doçura falsa.
Antes que eu pudesse responder, um choro fraco e baixo veio do canto do quarto.
Meus olhos dispararam para a fonte do som. Vi uma pequena mancha escura no carpete. Sangue.
Meu coração parou.
"Sol?", sussurrei.
Corri passando por eles, minha perna ferida esquecida. No canto, encolhido em sua caminha, estava meu golden retriever, Sol. Ele estava coberto de sangue, seu pelo lindo, emaranhado e escuro. Seu corpo tremia e sua respiração era superficial.
Ele estava morrendo.
Caí de joelhos ao lado dele, minhas mãos pairando sobre seu corpo quebrado, com medo de tocá-lo, com medo de causar mais dor.
"Sol, meu amor, sou eu", engasguei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Vai ficar tudo bem."
Mas eu sabia que não ficaria. Eu podia sentir a vida se esvaindo dele. Ele conseguiu dar uma lambida fraca na minha mão, seu rabo deu uma única e fraca batida contra a cama.
Lembrei-me do dia em que o trouxe para casa, um filhote minúsculo e desajeitado. Ele tinha sido minha sombra, meu conforto, minha única família depois que meus pais morreram. Ele tinha lambido minhas lágrimas mais vezes do que eu podia contar. Ele era a única coisa pura e boa na minha vida.
Meus olhos examinaram seu corpo, e então eu vi. Feridas grosseiramente costuradas, vermelhas e inflamadas, cruzando seu tronco. Alguém havia praticado suturas nele.
Uma onda de agonia tão intensa que me dobrou. Eu não conseguia respirar.
Olhei para cima, meu olhar pousando em Kaila.
"Você", murmurei, minha voz uma coisa crua e quebrada. "Foi você que fez isso."
O rosto de Kaila era uma máscara de indiferença. Ela nem teve a decência de parecer culpada. Ela apenas deu de ombros, escondendo-se um pouco atrás de Caio.
"Foi um acidente", disse ela com desdém. "Eu estava praticando minhas habilidades cirúrgicas para a faculdade de veterinária. Ele não parava quieto. Vira-lata idiota."
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